março 31, 2007

Phalos e Ctei

A mulher e a jarra
Objeto e símbolo
Criatura e metáfora
Grandes ou pequenas
Graciosas ou disformes
Feitas para conter
A quantidade e o precioso
Melhor que sejam os dois.

A menos que esteja querendo roubar alguma de alguém,
Não as busque pelo conteúdo
Pois a decepção é uma certeza.

Em frágil cerâmica
Em delicada porcelana
Em resistente estanho
Opacas ou transparentes,
Podem perder as alças se forem tratadas sem cuidado
Podem sofrer acidentes
Ou simplesmente quebrarem-se sozinhas
Vitimadas por defeitos
Ou por golpes de vento!

Foram feitas para guardar algo e também para serem guardadas
Aparentemente vazias,
nunca deixam de mudar o conteúdo que lhes é confiado:
A água fica mais fresca
O filho cresce mimado

Que sejam apreciadas por um olhar atento
Suspensas com cuidado
Cuidadas com respeito
Um respeito atencioso
Nem que seja de um olhar

Jamais pergunte o que contêm
O objeto tem boca mas não responde
A criatura a tem, mas não convém falar
E outros quaisquer, ignoram a resposta.
Simplesmente se aproxime
E olhe por cima!

Nuas e cruas

Caso autênticas,
Que venham,
A verdade,
A arte,
A mulher,
Nuas sob a luz do meio dia.

Psicografado por Morpheus

Somente o necessário

É absolutamente necessário:
Que os bons sejam inteligentes,
Que os ignorantes sejam obedientes,
Que os idiotas sejam contidos,
Que os malvados sejam inviabilizados
E os insensatos sejam banidos
Para de onde só possam voltar curados
Sem que tenhamos de ouvir seus gritos.

Tudo isto porque:
A bondade praticada por néscios pode ser simplesmente um equívoco,
A iniciativa dos ignorantes é comumente inútil,
O movimento dos idiotas será sempre perigoso,
O mau jamais deveria poder se regozijar de coisa alguma,
E os Insensatos não reconhecem premissas.

Eis a razão de ser tão precioso
Todo aquele a quem, lucidamente,
Podemos chamar de amigo.

Morpheus

Break/

Dica de utilitário:

www.siteadvisor.com

Para saber se os links exibidos pelo buscador Google indicam sites confiáveis.
Algumas das páginas mostradas, que você acessa sem ter nenhuma referência, podem conter atalhos para sites com códigos maliciosos que irão lhe causar algum tipo de problema.
A McAfee, fabricante de antivírus e de outros produtos de segurança, criou um programa chamado SiteAdvisor, que é instalado como acessório do navegador e passa a funcionar como um legítimo dedo-duro dos sites pesquisados.
O plugin pode ser obtido no site www.siteadvisor.com, a operação do navegador continua idêntica, porém as pesquisas do Yahoo! ou do Google passam a ter um ícone que identifica o potencial de perigo do site.
Esse ícone pode ser verde, amarelo ou vermelho, indicando o nível de perigo, assim como num semáforo de trânsito. Sites não pesquisados pelo SiteAdvisor aparecem com um ícone cinza. Você também pode contribuir com o sistema de proteção relatando um site suspeito.
Sua busca continuará igual, mas se você passar o mouse sobre o ícone, terá um resumo da avaliação do site.
No caso de um ícone vermelho, você pode clicar nas ocorrências de downloads para ter uma descrição das ameaças detectadas por lá.
As cores serão um indicativo do perigo oferecido pelo site avaliado.
Por exemplo, um site de downloads pode ter em sua maioria programas limpos, mas oferecer um ou arquivo que contém programas espiões.

Dica de site cultural.


www.europeana.eu
Textos clássicos digitalizados do acervo das bibliotecas nacionais da França, da Hungria e Portugal. Doze mil documentos de domínio público já disponíveis, o leitor pode acessar, por exemplo, um arquivo fac-símile da edição de 1572 dos "Lusíadas", de Luís de Camões.
Maravilha não?
Este Link entrará para a minha coleção lateral!

Dica de livro

O Caderno Secreto de Descartes

TEMA: Investigação sobre o "caderno secreto" do matemático e filósofo francês René Descartes (1596-1650), escrito em código. Aczel faz um relato interessante que cruza a biografia do célebre estudioso -o grande interesse em ciências ocultas, por exemplo- com o desenvolvimento de suas teorias.
O AUTOR: AMIR D. ACZEL é doutor em matemática e estatística pelo Bentley College, em Massachusetts. Escreveu "O Último Teorema de Fermat" e "Bússola - A Invenção que Mudou o Mundo".
Editora: Jorge Zahar; Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges

Dica pascoal:

Chocolates varietais para gourmands

Callie Chocolats: www.callie.com.br
Cau Chocolates: Peixoto Gomide, 1740, Jardins, Tel: 3081-9820 - São Paulo.
Empório Santa Maria: Av. Cidade Jardim, 790, Jd Europa, Tel: 2102-7700
L'Univers de Chocolat: Clodomiro Amazonas, 373, Itaim Bibi, Tel: 3079-9509
Saint Phylippe: www
.Saint Phylippe.com.br
La Vie en Douce: R. da Consolação, 3161, Jardins, Tel: 3088-7172


Contribuição Morpheus para diminuir a confusão no mundo:

Mapa da região da Borgonha com suas apelações

Clique na imagem para fazer o download da figuara em resolução mais alta!



março 30, 2007

A RIBANCEIRA


Crônica de Alexandre Figueiredo


Ela já existia desde antes da época em que passei a entender as coisas do mundo. Era feia, enorme, íngreme..., eternamente encoberta por mato e entulhos. Apesar de estar sempre ali, apenas lembrei-me dela agora, depois de receber a notícia que incendiou novamente. E, juntamente com essa sua lembrança, vieram inúmeras outras recordações da minha infância.

Por muitas vezes, agora lembro, eu ficava observando-a pela janela do nosso apartamento de sétimo andar. Dormia e acordava olhando para ela. Perdia horas vendo o balançar lento e pesado do bambuzal que habitava sua porção mais baixa. Do alto eu via o vento. Via o vento passando ligeiro e ressoando nas folhas de mato alto, como num mar de céleres ondas verdes. O mesmo vento que conduzia os aviões de papel que arremessávamos (eu e meu irmão) lá de cima e que nela viam seu único pouso.

Era um lugar peculiar, eterno, estio. Longe de ser uma área verde, um jardim, não possuía árvores frutíferas, pássaros, flores... Nada. Nascera do nada e não servia para absolutamente nada. Era um nada. Nem ninguém nunca empreendeu esforços para mudá-la de condição.

Depois de certo tempo pararam de jogar entulhos nela, porque, acredito eu, perceberam que seu tamanho estava cada vez maior. Foi aí que sua vegetação cresceu e se transformou numa enorme diversidade de matos e ervas-daninhas - nunca vi em concentração parecida, nem com a mesma exuberância. Ali deviam existir os elementos perfeitos para o crescimento desses tipos de plantas. As únicas exceções eram os pés de mamonas (e os pesados bambus), que teimavam em permanecer vistosos os anos inteirinhos, certamente também se beneficiavam daquele tipo de substrato.

Como não poderia deixar de ser, a ribanceira tinha sua fauna própria, única, também de bichos imprestáveis - depois classifiquei de fauna típica urbana - gatos vira-latas, calungas e calangos. E também uma infinidade de enormes baratas, as mais mal-encaradas que já encontrei. Diziam, ainda, que lá viviam enormes ratazanas, cobras peçonhentas e até sariguês raivosos, os quais nunca cheguei a ver.

A ribanceira era um só malogro, e, apesar de reunir tantas coisas consideradas indesejáveis, nunca chegou a representar uma ameaça real à criançada do condomínio. Muito pelo contrário, ela sempre estava por perto, quieta, e participava de inúmeras de nossas brincadeiras e também marcava sua presença em histo´rias que ali cresceram no mesmo tempo que eu. Nela, ainda, recolhíamos a munição para nossas guerras-de-mamonas e capturávamos as maiores e mais ferozes formigas para rinha. Lá, em suas redondezas, também ficavam os melhores esconderijos quando necessitávamos fugir de algum adulto enfurecido.

Ribanceira era quase um nome próprio, uma personagem real em nossas histórias. E cada um que ia crescendo, ia também criando seu vínculo, sua forma própria de convívio, e seu grau de intimidade e cumplicidade com ela.

Também sentíamos um único medo, o de descê-la. Na verdade, o medo era de não conseguirmos subir de volta, atolados na aridez de sua areia fina, nos seus entulhos pedregosos ou na sua forma escarpada. Apenas os mais destemidos e maiores ousavam explorá-la, e eu, que não fazia parte dessa lista, nunca pisei o pé nela.

Quando batíamos baba (jogávamos futebol), nossa quadra era o estacionamento, vizinho à ribanceira, e a bola, depois de passar por alguma perna-de-pau, descia rolando o matagal, era um corre-corre, uma aflição danada, porque sabíamos que dificilmente seria recuperada. Os poucos que se voluntariavam descer, ou simplesmente não encontravam, ou, se encontravam, achavam a bola já furada. Lá existia a lenda que a ribanceira não gostava de bolas e acho que realmente era verdade.

Vez por outra ela ardia em chamas - incêndio provocado. Toda garotada se reunia para preparar um meteoro. Uma grande pedra era enrolada com folhas de jornal e barbante. Ateávamos fogo. Quando as labaredas ganhavam calor, lançávamos a bola incandescente matagal a baixo. E muito rapidamente as chamas se espalhavam por todos os lados, levadas pelo vento ascedente que sempre soprava forte. E ficávamos vidrados. Difícil descrever o sentimento que acompanhava a visão daquelas labaredas ofuscando nossos olhos. Era uma combustão aguda e fácil. A ribanceira estalava e salpicava, ardendo em brasa, invadida. E, sem oferecer a mínima resistência, padecia diante daquele gigante flamejante. E, nós, dezenas de meninos, ficávamos quietos, da mureta do estacionamento, apenas assistindo-a queimar resignada em plena luz do dia.

Queimar era a única coisa que a ela podia acontecer.

Logo a fumaça invadia os prédios ao redor e não demorava a chegarem os bombeiros com seus caminhões enormes, cheios de luzes piscando e sirenes ligadas, o que era, sem dúvida, uma atração a mais naquele acontecimento.

Sempre que vou lá a vejo da janela, ainda é a mesma.

Hoje, chegou a notícia de que voltou a queimar. Minha mãe disse que a fumaça e a fuligem estavam insuportáveis, telefonou-me angustiada.

Ainda hoje não sei definir que tipo de sentimento carrego em relação à ribanceira. Entendo que inúmeros brinquedos, bolas, bicicletas, times de futebol-de-botão passaram em minha infância e seus vestígios já foram levados pelo tempo, assim como os de muitos amigos que fiz. Já as recordações da ribanceira não, estão guardadas, logo ela que parecia ser um nada!

Suas lembranças permanecem vivas , e, assim como ela, renovam-se a cada meteoro que cai entre seus pés de mamona e suas bolas furadas..., entre seu mato alto.

Facilmente, posso ainda sentir seu vento correndo apressado, suas folhas chicoteando o ar, seu silêncio eterno.

março 29, 2007

Ó paí, ó

Raimundo é um nome muito comum na Bahia ou melhor, na cidade da Bahia, como Salvador já foi conhecida num passado não muito distante. Raimundo é também o nome do meu peixeiro (mon poissonnier); um tipo idiossincrásico que adoro encontrar e de cuja conversa vou ter que me abster enquanto durar o período de proibição do consumo de peixes pescados na Baía de Todos os Santos, interditada que foi por mais um crime ambiental: 50 toneladas (estimadas) de peixes e mariscos envenenados por uma fonte até então não identificada.

.
Terei que me manter, por algum tempo, longe dos meus robalinhos, olhetes e beijupirás que tanto amo e que fazem a alegria dos meus repastos chez moi!
Se a saudade apertar, aparecerei apenas para bater papo e observar o desfile dos tipos locais a partir da porta da peixaria tendo como fundo o forte de Santa Maria e as cintilantes águas da Baía.
Toda esta desgraça às vesperas da semana santa!
Estaremos a mercê do salmão chileno laranja fluorescente, do caríssimo bacalhau e do infame peixe congelado que posa melhor como fóssil glacial do que como respasto decente!
Vamos então aos tipos que laboram neste point de tipicidades e os quais me propus descrever-lhes quando assentei o tema do post na cabeça: Raimundo, que odeia peixe e prefere comidas à base de carne de boi, é de pouca conversa e só oferece intimidades tertuliantes a fregueses de longa data (de preferência após o milésimo robalo!) que não sejam pechincheiros e que não questionem a qualidade do peixe que lhes for oferecido; não estranhe sua aparentemente misoginia, ele é casado e pai de vários filhos que compartilham entre si apenas a herança genética paterna mas não gosta de negociar com mulheres. Por isso, nem mesmo em sonho, pense em mandar sua esposa por lá; se ela pechinchar ou pedir para ver a peixaria inteira, ou pior, para comprar só a metade de um peixe ou 250gr de camarão, seus telefonemas serão ignorados pelo resto do semestre.
Mundinho é assistido no seu negócio por dois tipos não menos interessantes: Jorginho e Antônio. O primeiro é um afrodescendente, representante fenotípico completo e acabado do que os antropólogos chamam de Homo lassidus (linhagem de hominídeos com enzimas ultra-lentas e movimentos quase imperceptíveis na maioria do tempo em que é observado); Jorginho guarda toda sua explosão muscular para o momento de fechamento da peixaria quando, em questão de segundos, se move como um raio abaixando a porta do estabelecimento e saindo pela porta lateral para então se postar em mais um período de imobilidade de duração indefinida no bar que funciona ao lado da peixaria. Portador de uma cinética parética, Jorginho está sempre à bordo de um par de tênis impecavelmente brancos e meias idem. Subindo as vistas pelas pernas zambetas e desprovidas de pêlos, luzidias como que lustradas com azeite chegamos a um indefectível short adidas azul que poderia sugerir a um observador desatento, tratar-se de um atleta das para-olimpíadas prestes a ganhar a medalha de ouro na competição de imobilidade sincronizada modalidade solo. Uma corrente de prata com uma cruz de caravaca cuidadosamente polida com Kaol, presente de uma holandesa encantada com seu charme paradão, completa o visual por vezes auxiliado por um óculos-de-sol, um pouco desproporcional, oferecido por uma outra admiradora européia preocupada com o fato dele piscar muito pouco. A barriguinha proeminente, que orna seu corpo magro com uma simetria elipsóide, tem ao centro um umbigo protruso que ele encosta no balcão da peixaria, como quem tenta ligar um aparelho, sempre que está diante de uma eventual e incontornável necessidade de realmente ter que despachar um freguês.
Este trio, do qual vou passar algum tempo longe, é completado por Antônio: o mais exímio filetador de peixe das redondezas! Um fenômeno a ser investigado pela odontologia, Antônio é um outro afrodescendente que se move e trabalha por si e por Jorginho. Aparenta ter mais de 62 dentes, todos alvíssimos e aparentemente iluminados com faróis de milha a partir de dentro da boca. Foi Antônio, por exemplo, quem me ensinou que o camarão realmente fresco será sempre vendido com casca e mesmo que o sacudamos pelo rabo sua cabeça não se soltará! Quando o camarão não puder tolerar este teste, será vendido sem cabeça: uma pechincha para os desavisados. Quando o camarão estiver prestes a perder sua validade alimentar, sanitária e biológica, será descascado e vendido aos retardatários como filé de camarão!
Que truque hein?
Desde então vou à peixaria munido de um barbante que amarro à cauda do camarão para a seguir fazê-lo rodar em velocidade sem que solte a cabeça! Se o bicho passar no teste, considero o lote como ajuizado (afinal de contas não perdem a cabeça facilmente!) e passo para etapa final de pesagem da quantidade desejada e pagamento sob os olhos atentos de Jorginho.
Antônio é uma figuraça gentil a qual me fará falta encontrar para pedir que corte o meu peixe assim ou assado.
Tudo isso por causa de um acidente, que como todos do gênero, não goza de justificativa aceitável e que vai me deixar sem peixe e a muitos outros baianos do entorno do recôncavo, sem comida de qualquer tipo à mesa.
Tudo isso bem no dia do aniversário de Salvador cujas águas da baía foram singradas en premiére em 1º de novembro: Dia de todos os Santos!
Tudo isto no dia do nascimento de Rafael, netinho do querido Do Valle
Tudo isso no dia em que Braguinha faria 100 anos.
Tudo dia no entorno do lançamento de Ó paí ó, uma verdadeira ode à baianidade feliz (corruptela de "olhe para isto aí, olhe", "ó paí, ó" exprime espanto indignação, sentimento de repulsa civilizada, desaprovação e implicitamente declara seu enunciador como inocente da merda que ele acaba de denunciar - quase um ideograma!).
Tudo isto no entorno do aniversário da União Européia, reduto do último grande momento da raça humana propriamente dita: O Iluminismo
Tudo isto no entorno do anúncio de um bem vindo plano para melhora da educação básica que deixa uma pergunta paradoxal no ar: quando educaremos nossa elite?
Tudo isto por que eu tinha um montão de coisas prá contar mas esta estória foi crescendo como um alien dentro da minha frágil cabeça e aí...
Palavra é bicho vivo!
Como escreveu Sueli Costa, "...só uma coisa me entristece..."
Como dissera, da porta da peixaria eu vejo a calçada, a rua, a praia e o mar, uma visão de arrombar retinas (baixou Chico!). No entanto, qualquer compra que dure mais de 30 minutos me brinda também com a infeliz visão de homens fenotipicamente estrangeiros acompanhados de meninas fenotipicamente abaixo da maioridade aparentando explicitamente um relacionamento que me abstenho de declinar ( vá ser lacônico assim na p* que o pariu!).
Nada mal quando temos uma ministra do turismo que também é sexóloga.
Volto já!

março 28, 2007

Aquele abraço!

Direto do Youtube awards, o premiado como vídeo mais inspirado!
Free Hugs Campaign. (Campanha dos abraços grátis)
Utópico, possível, tocante!
A antimatéria da maldade!



Youtube Awards
Emmanuel me chamou atenção para este video bem antes dele ser premiado.
Se o post que ele prometeu sair, eu encaixo abaixo da janela de vídeo.

Abraços a todos, grátis e virtuais!

março 27, 2007

Uma breve história, do Big Bang ao Paraguai

Ao escrever “Uma Breve História do Tempo”, Stephen Hawking foi advertido por amigos que a cada equação de física escrita no livro a quantidade de leitores potenciais se reduziria pela metade e afinal de contas, como tratava-se de um livro de divulgação científica sobre cosmologia, certamente a coisa menos desejável que poderia acontecer seria a perda de leitores por desânimo interpretativo. O conselho foi aceito e o livro foi escrito sem equações complexas, exceção aberta apenas para a famosa "E = mc²".
Mesmo que você já o tenha lido, se tiver tempo, volte ao texto e superponha as cogitações e conhecimentos lá expostos ao seus; pode ser que ocorra um inesperado neo-sinergismo ou um verdadeiro estranhamento!
Não fosse pela complexidade dos cálculos (não mostrados) que subsidiaram os capítulos do livro, não seria absurdo considerá-lo um verdadeiro tratado filosófico tal é a profundidade dos temas apresentados à guisa de complementação dos raciocínios que levam às conclusões de cada parte. Ao final do livro, Hawking lamenta que o crescente volume e extensão do conhecimento humano, mesmo na mais particular dentre as mais particulares das áreas, tenha inviabializado praticamente a possibilidade de vermos surgir congêneres contemporâneos de Isaac Newton, Da Vinci ou Voltaire. Complementando seu lamento, cita o desalento de Wittgenstein expressado pela declaração: “Após todo este crescimento e complexificação da ciência, talvez o único prazer que reste aos filósofos seja o estudo da linguagem!”
Melancólico não?
Os filósofos terão que decidir se vão embarcar numa jornada de aquisição e sistematização do conhecimento atual, se vão ficar presos à lingüística ou se vão reinventar a filosofia.
Enquanto isto não acontece, uma febre pela busca de rudimentos filosóficos pode ser sentida e medida nas livrarias de todo mundo. Títulos, em número crescente, vão se espalhando pelas prateleiras das livrarias em resposta à ânsia de jovens, adultos e velhos cansados dos livros de auto-ajuda, dos manuais de ioga, das dietas, dos livros de fundo psicanalítico e dos manuais esotéricos e assemelhados.
Não tenho elementos para analisar se a vanguarda filosófica está realmente num momento de catatonia ou não enquanto busca novos horizontes, mas uma coisa é certa: a velha guarda e os textos clássicos ainda têem muito a oferecer à humanidade.
Montaigne, o célebre autor dos “Ensaios”, declarou que filosofar era, sobretudo, “um jeito de aprender a morrer”. Parece um pouco pesado, mas Montaigne fala sobretudo das pequenas mortes que vão acontecendo ao longo da vida: a perda da juventude, dos amigos, da habilidades, as pequenas e grandes decepções ou traições etc.
Todas estas pequenas mortes aceleram o envelhecimento do corpo e promovem a deterioração do espírito e do pensamento claro além de serem os verdadeiros tutores da rabugice, da depressão e da velhacaria, que apropriadamente referida a suia raiz etimológica, são epidêmicas a partir de uma certa idade.
Em verdade vos digo, a aquisição bem administrada de bases filosóficas é fator de tranquilização do espírito e clarificação perceptiva. Uma vez atingido um patamar mínimo de formação, você será capaz de olhar o mundo, ao seu bel prazer em situações específicas, como melhor lhe convier: como um artista, como um naturalista ou...como um filósofo!
O período de busca efetiva, devo dizer, é um pouco sombrio e funciona como uma espécie de iniciação auto-conduzida pois a filosofia, retirada dos currículos pelos generais, não fez parte da formação básica da maioria dos brasileiros mas, uma vez que você identifique o seu autor favorito (sinal de que você já conhece vários – e não vale falar aqui em amor a primeira vista!), tudo será diferente; falo aqui de TODAS as possiblidades: de Platão ao Dalai Lama!
Enfim, o status felix é uma presa caprichosa que pode se esvair por entre os dedos num piscar de olhos; se você o tinha capturado por intermédio da filosofia, com toda certeza, não se inquietará com estas fugas pois sabe como capturá-lo de novo.
A felicidade é calma e a calma é o sintoma mais definitivo da felicidade assim como o bom-humor está para a inteligência.
Break
A cada visita semanal que faço às livrarias da cidade me surpreende o crescimento da disponibilidade de títulos; este crescimento tem ocorrido nos dois sentidos: no bom e no mau. Do lado bom, poderia citar as republicações dos clássicos em traduções cada vez melhores e alinhadas com iniciativas de editoras estrangeiras notadamente as universitárias inglesas a preços acessibilíssimos. Pelo lado ruim, uma enxurrada de novos autores tentando surfar na nova onda editorial: auto-ajuda reciclada com verniz filosófico.
Você quer?
Eis que então após ter visto algumas indicações em fontes diversas, topei com o livro "Aprendendo a viver"do ex-ministro da cultura da França, Luc Ferry, filósofo de formação e palestrante experiente.
Seu livro anterior tinha sido bastante criticado pelo hermetismo da escrita e Luc resolveu se valer então da mesma receita de Stephen Hawking ao escrever uma "Breve história do tempo": falar tudo da maneira mais completa possível evitando citações e explicações complexas e desestimulantes; aqui ele recontará a história da filosofia da mesma forma que o fez em um curso anteriormente dado para leigos. Luc pega o leitor pela mão e sai da Grécia para chegar aos contemporâneos com ênfase constante no viés prático do conhecimento filosófico. Uma excelente opção dentre as novidades nas prateleiras; comprei um prá mim e alguns para presentear.
Outra excelente opção disponível, agora entre os clássicos reeditados, é: "A arte de escrever" de Schopenhauer; nesta antologia de ensaios recolhidos de Pererga e Paraliponema, você encontrará textos que trazem as mais ferinas, entusiasmadas e cômicas reflexões acerca do ofício do próprio Schopenhauer, isto é, o ato de pensar, a escrita, a leitura, a avaliação de obras de outras pessoas, o mundo erudito como um todo. Uma coletãnea de pequenos ensaios do enfezadíssimo alemão. Divertido e inteligente, lê-lo será excelente para todos que acham que os problemas atuais são novos, principalmente na área cultural e acadêmica; trata-se de um livro que me faz supor que, se estivesse entre nós, Schopenhauer certamente teria um blog!Tudo isto por míseros 12 reais!
Break
Abro espaço, novamente, para o blog indexed onde pequenas pérolas de filosofia gráfica (isso mesmo, gráfica!) aparecem de vez em quando para deleite dos frequentadores. O post abaixo é simples, óbvio e ainda assim genial; uma prova de que o pensamento filosófico pode ser inusitado, divertido sintético e elegante; tudo ao mesmo tempo e agora!
E agora, realmente pra finalizar, indicaria como trilha sonora para estas ou outras leituras, uma coletânea de Augustin Barrios Mangoré, célebre autor de Choro da Saudade e Catedral, interpretada por John Williams. O autor paraguaio encontrou no virtuoso violonista inglês um excelente intérprete de suas peças que, pelo grau de beleza e dificuldade de execução, figuram entre as preferidas pelos que querem testar seu grau de proficiência ao violão, seja como treino seja como exibição.


Até mais!

P.s. Quando eu era menor (sim, ainda espero crescer!) vez por outra me batia com algum ufólogo amador que ao fim de alguma história mirabolante suspirava desejando estar ainda vivo quando a NASA pusesse a público os seus "arquivos secretos". Não é que isto aconteceu?
Bem...
Não foi a NASA americana e sim a francesa (he,he,he!) que decidiu abrir seus arquivos ufo acumulados ao longo dos últimos 20 anos. Não precisa nem dizer que o site tá entupido de tarados que interromperam os cultos a Onan e não deixam o resto do mundo acessar o site. Uma hora vai dar prá ver o conteúdo considerado muito interessante até pelos nihilistas de plantão.
http://www.cnes-geipan.fr/geipan/
Se você conseguir vir antes, me conte!

março 24, 2007

Solamente amenidades!

2001 tinha acabado de começar, Morpheus aparentava não ter nada para fazer quando foi convidado por um amigo, que não tinha tempo para fazer nada, para junto a quem mais topasse, rumar à primavera européia com o objetivo de percorrer o famoso Caminho de Santiago partindo de St. Jean Pied de Port, na França, com destino a Finis Terrae na Galícia.
Sem pecados assumidos a pagar e com uma concepção espiritual bem acabada, decidi aceitar o convite com olhos voltados para a história, a arquitetura e a gastronomia. Pois bem, abreviarei etapas, que penso em descrever em outros posts, para relatar um pequeno episódio: entrávamos na Galícia e eu mal podia esconder a minha alegria perante a possibilidade de comer pantagruelicamente quantidades industriais de polvo acompanhado do vinho galego típico, o alvarinho (albariño) - que mais tarde viria a se tornar o meu branco favorito (atrás apenas dos borgonhas!). Mal conseguia respirar após o meu primeiro encontro com os polvos galegos (um confronto em que venci por pontos) quando, um pouco "alegre", solicitei à dona do restaurante que me trouxesse um boa garrafa de àgua gelada para que pudesse me rehidratar adequadamente antes de seguir para mais 15 Km de caminhada.
Para minha surpresa, a água me foi negada sob o pretexto de que se bebesse algo que pudesse prejudicar a minha digestão, aí sim, mesmo morto, o polvo me mataria!
Perguntei-lhe então de onde havia tirado tão elaborada idéia e ela me disse: o albariño que o sr. bebeu vai ajudá-lo a digerir o polvo porque é ácido como um estômago tem que ser; a água diluirá-lhe a acidez e o polvo permanecerá em seu estômago causando-lhe mal estar até o ponto de lhe vitimar com um desmaio.
Aceitei a orientação e segui em frente para só beber água após três horas do almoço, quando realmente não senti nada de errado.
A partir de então comecei a observar o efeito da ingestão excessiva de líquidos sobre a digestão dos pedregulhos gastrônomicos que ocasionalmente elejo para entreter o meu metabolismo.
Não é que a espanhola estava certa?
Sabedoria popular a serviço da saúde!
Hoje em dia como minhas feijoadas e dobradinhas acompanhadas de um vinho verde, ácido como convém e bem gelado! (mesmo o baratíssimo e salubérrimo Casal Garcia fará boa figura), fico no ponto sem correr o risco de intoxicar minha esposa com a câmara de gás em que eventualmente via se transformar nosso quarto nas noites de domingo!
Alexandre Dumas disse em seu dicionário gastronômico que alimento não é aquilo que o homem efetivamente come e sim tudo aquilo que ele consegue digerir!
A páscoa vem aí e se você, glutão como eu, quiser fazer bom proveito de seus repastos, siga o conselho da espanhola e faça a festa habilitando-se para a próxima refeição antes de qualquer movimento da concorrência.
Break/
O movimento dos blogs completa 10 anos e se você quiser saber um pouco mais como esta revolução mudou o jeito de circular das notícias e escanteou de uma vez a censura dos editores transformando qualquer mortal comum, sem fama nem diploma de jornalismo, em um autor de alcance mundial leia o livro:
Blog
Entenda a revolução que vai mudar seu mundo
de Hugh Hewitt pela editora Thomas Nelson.
O autor é blogueiro de primeira hora e professor de direito da Universidade de Chapman; considerado como historiador não-oficial da blogosfera, Hewitt o ajudará a entender o fenômeno mais ágil da história do intercâmbio de informações.
E para finalizar o post, em nome de todos os amigos que me solicitaram, segue o link para uma receita de Cheese Cake testada e aprovada pelo Morpheus Center of Gastronomic Research.
Qualquer cozinheira minimamente apta, e com os slários em dia, será capaz de prepará-lo para o deleite dos frequentadores da sua casa na páscoa!
A depender da repercussão do aproveitamento cogitarei a publicação da receita do Bolo Búlgaro, uma gororoba solada venerada por crianças e adultos cobrada a peso de ouro nas cartas de sobremesa dos restaurantes de Salvador!

Voilá Monsieur, au revoir!

março 20, 2007

Música é perfume e uma porção de outras coisas!

Lá estava eu, tentando atualizar o morpheus numa brecha de tempo livre a alguns dias atrás, quando ouvi seus passos vindo em minha direção: "Tio" Rui se aproximava...
Não vos preocupeis, apresentar-vos-ei a esta "entidade":
Trata-se de um colega de especialidade cujo título de "tio" foi ganho, mérito próprio, pela sua maneira doutrinesca (simultâneamente doutrinária e farsesca) de expor uma filosofia prática de vida carregada de silogismos inesperados, idiosincrasias, preconceitos e humor; uma destas figuras que têm lugar cativo no zoológico mental de qualquer apreciador de tipos humanos; um sujeito ímpar ou, segundo ele mesmo, "primo" porque é ainda mais raro!
Passional até medula, "tio" Rui é um destes colegas que quanto mais conhecemos os defeitos mais apreciamos as qualidades e ele faz questão, inconsciente, de que isto aconteça: joga um defeitão na mesa e vai pescando com uma linha de pequenas atitudes afetuosas.
Um dos exemplos mais pitorescos que lhes poderia dar do seu jeitão é o que vai abaixo:
Certa vez, ao entrevistar clinicamente um paciente, o seguinte diálogo foi registrado e entrou imediatamente a seguir para a antologia baiana de "causos" clínicos:
- O senhor fuma?
- Não.
- Nunca fumou?
- Não.
Ao que intervém a esposa do paciente que até então escutava calada à entrevista:
- Fale a verdade, Alfredo
- Não, não fumo
- Alfredo!
- Não, não sou fumante, não sou um viciado!
- Mas Alfredo, e neste último domingo?
- Ora mulher, domingo é domingo e eu fumo apenas um único cigarro depois do Fantástico por que aquela música me deprime muito!
Ao que, agora de maneira definitiva e acachapante, intervém "tio" Rui:
- Ora seu Alfredo, eu tenho um amigo que só na terça-feira de carnaval namora homens e prá mim ele é bicha mesmo assim!
Pausa...
Seu Alfredo acabava de se convencer de que era (realmente) fumante!
Break
Pouco tempo depois de nos conhecermos, sabendo-me ele um músico amador embora formado em violão, eis que, em meio a uma roda de coversa, me sai com esta: Manellis, você que me parece uma autoridade em MPB, confirme, a este bando de ignorantes, o que eu venho dizendo há décadas: Maria Bethânia é ou não é desafinada?
Todos me olharam com apreensão pois nos últimos 50 minutos "tio" Rui tinha falado ininterruptamente sobre assuntos que iam de atracação de navios a criação de minhocas com autoridade de PhD e agora me abria compassivamente uma nesga de espaço acústico para perplexidade da audiência.
Estava claro que aquele personagem idiosincrásico de 1,90m estava me fazendo uma proposta de cumplicidade das mais descaradas e por isso mesmo, das mais valorizadas em ambientes masculinos.
Aquiesci:
Podia começar com um "veja bem...não é assim..." mas, para minimizar o sofrimento da audiência e manter o tempero do folclore em cima do "personagem", respondi que sim!
O refeitório do hospital acabara de abrir para o almoço e todos se sentiram justificados em sair do ambiente sob o pretexto de almoçar ("tio" Rui conversa muito pouco enquanto come para evitar a aerofagia!).
Ninguém realmente saiu dali acreditando que eu considerasse Bethânia como desafinada e sim que eu era um cara tranqüilo e realmente capaz de inaugurar uma amizade com uma atitude de coragem!
Toda esta história veio para que pudesse arrematar neste final, ao revés do que afirmei no episódio acima:
Bethânia é o máximo!
Considero Bethânia e sua voz como algo mágico. Sua paixão pelo Brasil, pela Bahia e por seu Santo Amaro da Purificação é o melhor exemplo que conheço de entendimento apropriado e bem conduzido da condição à qual são eventualmente subjugados até mesmo espíritos evoluídos e poderosos como o dela.
Um exemplo vivo de que a evolução pode ser contínua e ininterrupta uma vez manifesta sobre a correta substância.
Bethânia talvez seja o antídoto perfeito para a sensação de envenenamento e raiva que sentimos ao acompanhar a evolução recente dos acontecimentos no nosso país
Assista "Saravah" e "Música é perfume", duas realizações de cineastas estrangeiros. No primeiro, dedicado a Baden, vemos uma Bethânia jovem cantando na praia com Paulinho da Viola & Cia, exalando em juventude todas as tintas de sua fortíssima personalidade; no segundo Bethânia aparece madura e incrivelmente evoluída falando de suas raízes e circulando em diversos meios.
Seja cantando, explicada por Caetano, reverenciada por Nana e Miúcha ou simplesmente explicando por que o pôr-do-sol não é sua hora favorita do dia (é a hora da troca da guarda no mundo espiritual e o momento de maior fraqueza dos magos - Nota de Morpheus!), Bethânia deve ser vista neste documentário por quem quiser saber de que se compõe uma verdadeira estrela!
Não poderia deixar de dizer que a visão de Bethânia, às vezes, me evoca também a de "tio" Rui e de todos aqueles amigos dos quais realmente gostamos seja por suas qualidades, seja por seus defeitos!

Manellis,

(Com um pé na crônica)

março 18, 2007

Infelizmente, para poucos!

A IMPORTÂNCIA DE ABEL CARLEVARO PARA O VIOLÃO

Há exatos dez anos topei pela primeira vez com registros sonoros originais de Garoto o nosso Aníbal Sardinha, ou Garoto do Banjo como podem querer muitos; fascinado que fiquei por Lamentos do Morro, procurei por onde pude a partitura da canção para que, mesmo que não pudesse tocá-la perfeitamente, pelo menos pudesse também admirá-la no papel. Procurei aqui e ali, fui a São Paulo onde tentei infrutiferamente contactar Ronoel Simões, amigo de Garoto e detentor de vários registros domésticos do nosso fundador do Violão Moderno Brasileiro.
Não sou do métier musical e como se diz, não sei onde dormem as cobras; mas, numa conversa totalmente fora de propósito, um amigo meu me sugeriu procurar Edson Sete Cordas, fundador e integrante do grupo baiano de chorinho "Os Ingênuos". Para minha surpresa, Edson não só tinha a partitura como também se recusava a me fornecer uma cópia antes que eu estudasse um pouco para poder executar de forma minimamente eficiente aquele mantra violonístico que acabava de ser gravado por Raphael Rabello em versão solo e em dueto com Armandinho. Pois bem, lá ia eu para casa de Edson 2 vezes por semana e após mostrar proficiência na execução de verdadeiros abacaxis como: Segura ele (de Pixinguinha), Vôo da mosca (de Jacob), Desvairada (Garoto) e Choro da Saudade de Augustín Barrios eis que Edson me entrega, em liturgia, a partitura desejada. Comecei a estudar com afinco na mesma medida em que crescia minha admiração pelo violão de Raphael até que depois da minha primeira execução sem falhas, Edson abriu sua estante com inúmeras partituras e métodos e puxou o método de Abel Carlevaro: aluno, discípulo e analista do violão de Segóvia;
Abel Carlevaro desenvolveu toda uma metodologia de ensino e um apuradíssimo senso didático. Sua técnica e sua abordagem sistemática sobre a parte mecânica do instrumento e sobre postura e toda a parte fisiológica do instrumentista o tranformaram num autor clássico.
Carlevaro foi, junto com Jaime Florence (Meira), a grande referência de Raphael que, segundo Edson, o referenciava constantemente em busca de aprimoramento e manutenção de qualidade de execução; pesquisou e racionalizou os diversos aspectos técnicos envolvidos na performance do violão de forma a permitir aos estudantes do instrumento uma busca gradual e conscienciosa do aprimoramento mecânico. Para tal fim, demonstrou e analisou cada elemento mecânico separadamente em seu célebre livro Escuela de la Guitarra - Exposición de la Teoria Instrumental, complementado por exercícios específicos publicados em seus quatro Cuadernos de técnica.
Certamente, antes de seu trabalho, existiam já diversos métodos e estudos dedicados ao desenvolvimento técnico do violonista. Porém, vemos aqui pela primeira vez uma explicação lógica e detalhada, apresentando soluções claras para os mais variados problemas. Em épocas anteriores, cada estudante necessitava despender um longo período de tentativas e erros para encontrar os mesmos tipos de soluções que Carlevaro apresentou "de mão beijada". Naturalmente, em muitos casos o estudante não chegava sequer a obter tais soluções, e desenvolvia portanto uma técnica defeituosa e problemática.
Agora que já se sabe um pouco sobre este uruguaio, venho felicitar o Helder Bello, mantenedor do site violão erudito, pela disponibilização dos quatro cadernos de Carlevaro, um inestimável recurso para os amantes alfabetizados do pinho!

Visitem o site e confiram, quem sabe você não chega a tocar como Raphael!

P.S. Se não aperecer nos próximos dias é porque estarei conferindo o material!

Um abraço,

Manellis

março 17, 2007

Na balsa da medusa nem o trabalho liberta!

Puxa, esse morpheus não tem palavra mesmo...
Mas é verdade, por mais que eu jure não me incomodar, as coisas às vezes me reclamam a atenção de uma forma irrefreável!
Esta semana, dando andamento à sua atrasada reforma de imediatos, nosso presidente, que já havia declarado serem as indicações ministeriais assunto pessoal e exclusivo seu, confirmou em palavras aquilo que, eu acho, nenhum outro mandatário tinha tido a ingenuidade psicológica de explicitar: "...a saúde e a educação são assuntos sérios, aqui não posso brincar..."
Quer dizer, no resto pode!
E mais... como se estas duas pastas não dependessem do conjunto do país para funcionar bem.
Esqueça, prá este pessoal tudo é brincadeira.
E como se divertem.
( desesperante é contatar que a oposição mais próxima é representada por um pinguim anão que usa um bico emprestado!)
Break
Eu costumo dizer que no inferno, à semelhança de Auschwitz com seu lema: "O trabalho liberta", o portal é ornado com a incrição: "Nada está tão ruim que não possa piorar"
Como um bom classe média infectado subcronicamente por uma hipocrisia sub-letal, costumo usar esta frase em tom de galhofa embora me veja, cada mais freqüentemente, assaltado por sua transcendência.
Num misto de vaidade e confessionismo, diria que me vejo como um legítimo representante da última geração a acreditar conscientemente num bom futuro para o nosso país tendo chegado ao ponto de rejeitar uma proposta de permanência na Inglaterra pelo simples devaneio de emular um Jobim, um Vinícius ou outros assim.
Vinte anos após minha saída da faculdade ainda me surpreendo com as faixas em seu estacionamento, com a mesma retórica e erros de português, convocando para greves ou exaltando valores socialistas.
É...o tempo parou!
Ah! se ao menos estes lugares tivessem sido visitados antes por um físico competente nós teríamos a vanguarda no conceito de "Buracos negros".
Num post anterior, falava de nossa inserção num infeliz zeitgeist (espírito do tempo, em alemão) mas acho mesmo que estamos é num poltergeist (espírito zombeteiro) com direito a assombração e tudo!
Digo isto para exprimir de forma para- lírica, após mais este impacto da logorréia presidencial, a sensação de ser um tripulante da balsa da medusa de Géricault (abaixo):
O tempo mantém o seu péssimo hábito de passar rapidamente enquanto o conjunto histórico dos fatos empurra facilmente os espíritos mais analíticos e menos hormonais para um platonismo melancólico do qual só é possível se ver livre com o auxílio de algum atenuante da lucidez! (da minha parte, me contento com um bom borgonha!).
A pneumologia nos proibiu o cigarro antes de dormir,
A dermatologia nos proibiu a praia livre da inhaca do protetor solar,
E a história com seu tamanho e reprises nos mostra como é difícil mudar o curso dos fatos no espaço de uma existência: viva os loucos! viva os gênios!
Felizes aqueles que vivem e, ou provocam mudanças de páginas no livro dos tempos!
Faço aqui uma guinada ortogonal para dizer que talvez seja por isso que morpheus seja um eterno fascinado pela ibéria moura, onde se viveu uma das mais deliciosas e demoradas (700 anos) viradas de página da história da humanidade:
A última fronteira do islamismo elegante
A exumação filosófica de Aristóteles
A criação da universidade
A convivência pacífica entre Mouros, Judeus e Cristãos
O ecumenismo cultural
A matemática, a astronomia e a arquitetura alcançam novos patamares de refinamento
A medicina conhece o saneamento básico e os hospitais
A poesia judaica encontra a melodia árabe eo ritmo cigano e, juntos, fundam o flamenco.
Por abrigar tanta coisa boa, sempre vou buscar refúgio onírico neste oásis histórico me aproveitando do fato ser sempre possível encontrar um buraco negro (onde o tempo parou) nos arredores de um cartaz propondo greves como forma de luta sindical, menor carga horária semanal ou qualquer outro anacronismo ainda vigente nas vizinhaças de uma universidade federal qualquer.
Aliene-se! e aproveite a dica:
Num retrato da vibrante civilização da Espanha medieval, O ornamento do mundo, mostra a história de um extraordinário tempo e lugar: a Andaluzia entre 786 e 1492. Um lugar onde judeus, cristãos e muçulmanos viveram juntos em relativa paz e igualdade por séculos.
Com prefácio de Harold Bloom, você conhecerá através da pena de Maria Rosa Menocal, uma cubana educada nos EEUU, o que foi Al Andalus e se vacinará contra a epidemia de intolerância que assola o planeta, Mr Bush como arauto.
Se a dose não for completa, corra, compre e leia "Sombras da Romãzeira" de Tariq Ali e entre no universo de uma Espanha ao final do domínio Mouro e galvanize uma opinião inteligente sobre o papel da interações de cosmogonia que de tempos em tempos vemos passar no canal da história.
Neste livro, Tariq Ali captura a humanidade e o esplendor da Espanha muçulmana... uma história encantadora, desenvolvida com vivacidade. SOMBRAS DA ROMAZEIRA é irônico tanto quanto honesto, informativo tanto quanto divertido, uma história real tanto quanto ficcional...um livro para ser apreciado e devorado."
O post acaba aqui porque não quero ver ninguém alegar falta de tempo para freqüentar o Morpheus!

Alah Akhbar

Manellis

março 14, 2007

Palhaço, sim!

Conversava com o colega Álvaro, operário infatigável da humanização da atenção médica e idealizador da Sociedade Brasileira de Medicina e Arte, quando após receber dele a enésima proposta para participar da montagem de um grupo de música instrumental condicionei a minha participação à adoção da música Palhaço de Gismonti como 1ª peça a ser trabalhada. Enquanto ainda aguardo retorno do meu amigo, flautista erudito por formação, tenho ouvido com atenção o disco Circense (Egberto Gismonti ou Ele quer que dismonti, segundo Dori); impossível não lembrar de Heráclito: "Ao entrar em um rio pela segunda vez, não serás o mesmo homem e não será o mesmo rio"
Não sei se Álvaro retornará encantado como eu fiquei ao ouvir Palhaço pela primeira vez mas re-escutar Circense me lembrou cataliticamente da necessidade que temos de voltar aos clássicos; sejam eles da humanidade, da nossa aldeia ou pessoais!
Karatê, Tá boa santa? e Palhaço são simplesmente demais.
E as outras também!
Caiu para mim a ficha do parentesco entre o som de Gismonti e o que A Cor do Som praticava, no começo dos anos 80, quando eu fui fisgado definitivamente pela sonoridade dos nossos ritmos. Um portal do tempo se abriu e desdobramentos perceptivos ganharam volume a cada nova audição.
Apesar de ter considerado por muito tempo Gismonti como musicalmente indigesto, sempre reconheci que a falha era minha e que um dia, se viesse a evoluir, eu finalmente deveria sentir algum deleite ao escutar suas peças.
O continente modifica o conteúdo e este é o motivo pelo qual penso que tornamos melhores nossas revivências quando estamos no caminho correto (não disse velocidade!) da evolução.
Volte às grandes canções e aos grandes livros de sua vida!
Se você evoluiu eles não só lhe parecerão diferentes, mas melhores na exata medida do seu crescimento.
Escute Palhaço com atenção: flutue num espaço imaginário ao ouvir a primeira parte e depois, segurando um feixe de balões, vá subindo junto com as modulações ao mesmo tempo em que transforma em vento o oscilar planejado das resoluções nas tônicas!
O quê?
Você não sabe do que eu estou falando?
Então simplesmente ouça!
Obs. Estou falando de canções e livros que merecem o nome!
Post para audiência, e em especial atenção ao colega Álvaro
Inté

março 13, 2007

Resenha-réquiem para "o" pós moderno.

Esta semana, li uma entrevista de Carl Lewis, "O filho do vento", na qual ele explicava a sua vontade de voltar ao esporte: acha que o doping e a busca de resultados minaram todo o valor do esporte olímpico.
Uma decisão super elogiável mas um pouco romântica.
O mundo está pós-modernamente incompreensível para o eternamente moderno Lewis.
O doping atual anda milhas à frente dos métodos de detecção, os atletas não são mais instrumentos de idologias políticas e sim do comércio de material esportivo que vende a ilusão de que se seu filho obeso calçar os tênis do último campeão, tudo estará remediado. As fortunas necessárias a transformar atletas ambiciosos em arrimo das três próximas gerações podem ser ganhas de uma hora para outra. Então, por quê não arriscar?
Danem-se joelhos, rins, cérebro, cultura e o risco de câncer precoce.
O mundo muda rápido sob a batuta do dinheiro e o ser humano de 50 anos mais atualizado a caminhar sob o planeta está a séculos de distância de entender os conceitos que se processam de forma caótica na matriz cognitiva da sociedade de consumo e que vão determinar se o próximo cometa brilhante será visto por seres humanos ou apenas por baratas resistentes à radiação.
Ainda nesta mesma semana acusei alguns golpes de estranhamento:
-A ascensorista de um hospital o qual só visito às quartas-feiras me parece cada vez mais com alguém que eu vejo todos os dias; um claro sinal de que minha semana está voando debaixo dos meus olhos. Esta sensação tem seu antagonismo nos posts regulares que me parecem frear um pouco o fluxo do tempo.
- Uma coleção inteira de Jimi Hendrix foi parar dentro de cd de mp3 e eu ainda não consegui ouvi-la atentamente como gostaria apesar de estar rodando fixamente no meu toca mp3 há 2 semanas!
Conclusão: pessoas como eu estão administrando mal o fluxo do tempo e de informações, ou melhor de disponibilidade de informações. O conflito entre a finitude de tempo disponível e a infinidade de informações desejáveis chegou para ficar!
A angústia criada pela fácil acessibilidade ao conhecimento é causa constante de apoplexia em pessoas que, como eu, passaram boa parte da vida lendo apenas o que estava (pouco) disponível. Filosofar é preciso, como for possível!
Adicionalmente, o fim de semana deixou de ser um motivo válido para enfrentar a semana de trabalho para muita gente que passou a infância pensando a semana como uma penitência para o relax do sábado e domingo e, como se não fosse bastante, amigos analistas referem que muitos pacientes os procuram por reconhecer, conflituosamente, que, embora continue a ser instrumento de poder e auto-estima, o sexo não é nem de longe a coisa mais prazerosa que experimentam no dia-a-dia.
Tudo isso que, até ler este post, você pensava ser pertinente apenas à sua vidinha de ser humano comum é na verdade uma sensação ubíqua que pode estar por trás de muitos fenômenos sociais agora em foco como, por exemplo, a violência urbana, consumo de drogas e crise de valores.
Isto se chama pós-modernidade e, parafraseando o oriente médio, Baudrillard é seu profeta!
Crítico da sociedade de consumo e da massificação das relações humanas, o sociólogo francês Jean Baudrillard, que morreu há uma semana aos 77 anos, foi um dos pensadores mais presentes, e contestados, no debate público desde o fim dos anos 1960. Noções como simulacro e hiper-realidade ganharam o mundo por meio de seus escritos e de suas intervenções, como na série "Matrix", embora afirmasse que esta foi "uma interpretação incorreta de sua obra" Germanista de formação, iniciou a carreira na Universidade de Paris, em Nanterre, que vivia a ebulição do pré-Maio de 68.
A partir daqui eu poderia seguir num resumo biográfico que não faria nada mais que chover no molhado frente a abundância de material disponível na imprensa nestes dias após a sua morte.
Gostaria no entanto de re-reverberar aqui, a divulgação de alguns conceitos chave de sua obra, resumidos abaixo:

Sociedade de consumo (preocupação principal das primeiras obras de Baudrillard): necessidades, forças e técnicas naturais são substituídas por um sistema em que os objetos de consumo dão forma e significado à vida cotidiana.

Pós-modernidade: vazio deixado pelo desaparecimento das ideologias e dos limites da modernidade (Baudrillard recusava o rótulo de "pós-moderno).

Simulacro: Enquanto o mundo moderno era organizado em torno da produção, o mundo pós-moderno é regulado pela reprodução, pela simulação. Diferentemente da imitação ou do fingimento -casos em que a diferença entre produto e realidade se mantém-, o simulacro (a TV, a realidade virtual) confunde realidade e ilusão.

Hiper-realidade: mundo dos simulacros em que as pessoas vivem, a sociedade de imagens -idealizadas pela TV, rotuladas pelos meios de comunicação de massa e distantes do cotidiano do trabalho- que substitui a sociedade de classes e do trabalho.

Fim do trabalho: o trabalho deixa de ter valor em si, aparecendo apenas como mais "um signo entre outros", um sinal de status ou modo de vida.

Sedução: com rituais ambíguos, opõe-se ao conceito de "sexual" -este está associado à produção. A sociedade burguesa teria subvertido a ordem original, em que a sedução viria primeiro. Ao tentar resgatar o conceito de sedução, no final dos anos 1970, Baudrillard o associou ao feminino, criticando, porém, o feminismo.

Orgia e pós-orgia: a expansão cultural moderna aparece como "orgia". Baudrillard ressalva não se tratar de liberação, mas de "metáfora da liberação" manifesta na sociedade moderna. A sociedade contemporânea, portanto, viveria a pós-orgia, a reação a essa explosão -uma implosão.

Implosão: nomeia o colapso da diferenciação entre os planos econômico, político, artístico etc. Na sociedade da simulação, a economia e a vida "reais" não se diferenciam mais dos simulacros; a sexualidade permeia tudo.

Transestética (conseqüencia da implosão): ao mesmo tempo em que a arte tudo permeia, ela deixa de ser entendida como fenômeno próprio e seu poder de oposição à realidade desaparece, juntamente com suas normas.

E aí?
Achou Matrix dentro destes conceitos?
O que dizem a respeito da sua vida atual?

Até mais!

março 10, 2007

Etanol, Etilistas, Estilistas e listas de espécies em extinção!

Pense rápido!
O que há de comum entre:
- O encontro de dois mandatários de estado que mal falam suas respectivas línguas-maternas,
- O fracasso da democracia entre os ignorantes,
- O uso irracional das melhores terras agricultáveis de um país pobre e mal-nutrido (eu disse mal-nutrido e não faminto!),
- A escravidão e a indigência em pleno século XXI
- A extinção de espécies animais em seu último refúgio numa bolha de mata atlântica remanescente em Alagoas?
Respondo: o blefe, a ignorância e a falta de visão.
Este post abre com um tópico meio charadístico mas isso se deve a um flash de memória quase fotográfica que me ocorreu estes dias quando vi nos jornais as manchetes tratando da visita de Mr. Bush à nossa Pindorama.
No dito flash, eu me recordava da minha chegada a Ribeirão Preto (Ribeirão, Ribeirão!/ terra da cana e dos cafezais/ Deus há de me ajudar/ que aqui não volte nunca mais!) há exatos vinte anos. À parte o calor de 44º C , a umidade de 20%, a fuligem da queima da cana e o pó vermelho que cobria tudo sob o comando de rajadas de vento quentes como um bafo de dragão, nada parecia abalar o meu entusiasmo por começar minha especialização em uma unidade da USP.
Sabia, de notícias, que Ribeirão era rica e isso se podia ver ao chegar à cidade pela grande circulação de carros novos e caminhonetes (bijouterias preferidas pela oligarquia rural) e estava ansioso para entender aquela "pujança" econômica. Chegava então o dia de conhecer o campus da faculdade de medicina cujo caminho cruzava uma língua de canavial que se interpunha entre a cidade e o Hospital Universitário.
Um detalhe que poderia passar despercebido a muitos me impactou profundamente: a cor da terra! A terra era vermelha escura e exalava uma aparência imediata de fertilidade. Úmida e escura ela se deixava ver à beira da via e apartir daí não mais, econdida que estava sob um tapete de canavial que todos de nossa geração (da minha, é claro!) aprendemos a imaginar como lindos com a bucólica indulgência de estudantes infantis de maus livros de história!
A fome não estava ainda na agenda nacional mas eu, embora nordestino, soteropolitano e urbanóide convicto, enxergava na cor daquela terrra e no emprego que a ela se dava, um bruto contraste com a luta do "australopitecus nordestinus" para cultivar seus solos pobres castigados sob sol inclemente e pelo primitivismo tecnológico.
Eu pensava: quantos hectares desta insensatez são necessários para encher um tanque que me permita ir desta cidadezinha àquela outra? Haveria uso melhor para esta terra?
Claro que sim:
Alimentos!
Aqui acaba o flaaaaaaaash!
Passaram-se 2 anos e eu saí de Ribeirão deixando Palocci como candidato à prefeitura.
Eu não sabia de nada, hein?
De lá prá cá elegemos um louco megalomaníaco, um filósofo e um torneiro, que ainda não sabe a diferença entre uma fatura e uma duplicata como alardeava o louco!
Diante do fracasso de resultados que foi a retomada da democracia, como idiotas vingativos, reelegemos estilistas, ex-prefeitos com passagens pela cadeia e cantores bregas. Mantivemos também Severinos, Genoínos e Inocêncios (paradoxa ironia marca, por vezes, a a relação entre a etmologia dos nomes e as pessoas nomeadas , não acha?)
Não temos jeito mesmo!
Mas a coisa não deu errado só aqui. Fora o Chile, que se entregou à democracia após a reforma econômica, descobriu-se que entregar a democracia a ignorantes é como levar um cego para escolher tintas, o único parâmetro que ele pode usar é o cheiro! que não é necessariamente o que interessa.
Faliu toda América latina que como desgraça adicional ainda foi seduzida pelo apetite do hemisfério norte pelo sucedâneo anestésico da Erithroxilum coca.
Darwin dizia que a natureza não dencansa no seu ímpeto de experimentar novas soluções; essa característica dá origem a coisas maravilhosas como o Café tipo Bourbon e a outras como o câncer e presidentes de republiquetas.
A democracia faliu então o Darwinismo político prevê agora a ascenção do populismo ou de outros empirismos políticos!
Somos tão insignificantes que isto nunca chegaria a ser uma preocupação para o grande irmão do norte exceto pelo fato do populismo latino americano ter agora um verniz Castrista e potenciais aliados no oriente médio, distante e na China!
E não tem jeito, quer saber de uma coisa?
Arma atômica é como TV a cores, todo mundo um dia vai ter uma!
A não ser que o mundo acabe antes.
Eis então que chega este paspalho para visitar o nosso sob o pretexto de interesses econômicos e na ecologicidade do álcool.
A mesma pergunta de vinte anos atrás me vem à mente: quantos hectares de terras ótimas teremos de cobrir de cana para permitir que uma família americana percorra a Route 66 em seu Cherokee?
Podemos acusar o paspalho do norte de tudo, menos de falta de persistência!
Enquanto o álcool brasileiro lhe parecer um pretexto plausível pode ir se preparando para comer rapadura nas três refeições!
Como se não bastasse toda intragável soja que plantamos para alimentar seus porcos!
Com relação a isto consolam-me algumas pesquisas que atribuem à carne de animais assim alimentados o poder de causar-lhes câncer, ou como prefere a imprensa francesa: uma longa doença!
Um pequeno ponto de lucidez, no entanto, foi visto no céu:
Enquanto idiotas do mundo inteiro comemoravam a adesão do grande paspalho do norte à causa ambiental e a sua visita ao Brasil, um jornal inglês, certamente não por motivos corretos, denunciava em primeira página as condições de trabalho dos cortadores de cana: escravidão em pleno século XXI.

Lembro bem destes cortadores cuja realidade conheci há 20 anos atrás. Pareciam neandertais com armaduras de lona trabalhando sob o sol de 44 graus em jornadas absurdas e ganhando uma miséria sob o conforto do alcoolismo endêmico. Quando o tédio ameaçava sua sanidade, começavam uma briga no canavial e, com a mesma destreza com que cortavam a cana, se cortavam e se mutilavam arranjando assim um pretexto para mudar de ala no hospital do inferno.
Pô, só falta agora a mata de Alagoas!
Alagoas é genial, nos deu o Marechal Deodoro, Zagalo, Graciliano Ramos, Djavan, Collor e Heloísa Helena!
Quem é seu preferido?
Quer mais?
Vá procurar em outro lugar!
Mas Alagoas tem também a Mata do Murici, escolhida por espécies raras de animais como seu último lugar na Terra. A mata do Murici está sob séria ameaça do crime ambiental: posseiros, fazendeiros e pequenos agricultores não estão nem aí para aautoridade do único guarda florestal que patrulha a área e que já foi ameaçado de morte várias vezes.
Fecha-se aqui um ciclo vicioso no ponto sobre o qual agricultores indigentes ou semi, queimam um cartucho ambiental para cultivar lavouras de subsistência em cima de um santuário animal num país imenso que neste exato momento encontra-se mesmerizado pela hipótese de poder vir a contribuir com o pretexto do grande paspalho do norte de diminuir sua (deles) dependência energética a países hostis.
Perplexize-se!

março 08, 2007

UM CONTO PARA AS MULHERES


A ESCOLHA


Conto de Alexandre Figueiredo


Era tarde, tardezinha. O vento molhado, incessante, atravessava sem cortesia o interior da enorme tenda. Fazia vibrarem os pingos de chuva que o acompanhavam. Parecia vir de todas as direções. Era agressivo o bater deformado das lonas. E naquela brava agressividade, esticava as cordas de amarração, revirava os trapézios pendurados no alto, varria as pipocas-caídas do chão... Aquele ar era-lhe diferente, e algo soava lânguido, estranho, desconhecido.

A música alegre marcava a cadência penosa dos seus movimentos. As dores teimavam em piorar nos dias frios, e era impossível não senti-las. O peito lancinava incessante, indiferente, como se ali, ainda estivesse. Os nervos rasgavam-lhe as pernas, o dorso repuxava. Ardia surdo o oco dos seus ossos.

Sentia frio, mesmo na mira dos holofotes, mesmo com a dupla camisa colada ao corpo e meiões até os joelhos. Mesmo transpirando, cambalhoteando, piruetando, cabriolando..., sem parar.

Sob a peruca, o suor escorria. A maquiagem grossa falseava o perene sorriso na aparência pueril, cobrira a face de pó-de-arroz, tinta guache e brilhantina. Seus típicos sapatos, alongados nas pontas, não disfarçava as marcas da lomga idade. Nos anéis carregava velhos companheiros: o elefante Joca; o furão Maicon; a girafa Giralda; a cobra Peçonhenta; e, no dedo mindinho, o sagüi Nico.

Os tons coloridos em listras e os enormes babados ajudavam a esconder a deformidade do peito amputado, a lividez de sua pele, e a magreza ossuda de suas costelas.

Ainda por trás do rubro nariz postiço, sentia o odor nauseante da roupa mal-secada do dia anterior, aquele lugar era orvalhado demais.

Muitos se perguntavam como ainda poderia estar ali, contrariando todas as lógicas, sabendo ser fácil lhe faltar vitalidade - ossos carcomidos, músculos com desnutrição... Era absoluta sua magreza. Nem por isso encurtou sua apresentação, como seria simples imaginar. Representava inabalável.

Da marcha imperfeita encenava trejeitos do cangurú-manco, da coluna não-ereta surgia o chimpanzé-com-dor-de-barriga. O leão-depois-da-gripe aparecia na tosse persistente de friagem (virava sua peruca laranja de forma que ficasse parecendo uma juba). Contudo, quando se equilibrava no monociclo é que mais sofria daquela crescente incapacidade física, era cruciante.

Mas, estava no picadeiro, e, assim, só assim, driblava o implacável tempo futuro, que se movia célere, e apenas era futuro por ainda não ter acontecido. Apenas sabia ser palhaço, o que fazia desde os dez anos, como seu pai a ensinou. E pior tudo seria se não mais se apresentasse.

Havia feito sua escolha e teria de aceitar aquela doença faminta lhe sugando sem compaixão. A única e última chance havia perdido, quando optou pelo filho ainda em sua barriga de três meses. Não poderia admitir perdê-lo em face da quimioterapia, mesmo sendo uma desventurada peregrina, mesmo com seu mundo girando ao contrário, mesmo sem saber o paradeiro do pai da criança, um mágico circense que havia usado seus truques pra desaparecer da face da terra.

Era mãe. E não tinha alegria maior que vê o pequeno na arquibancada, já sorrindo de suas palhaçadas.

A platéia estava cheia e os sorrisos-gargalhadas driblavam os vazios-das-bocas-banguelas-dos-dentes-de-leite, os sorvetes, os algodões-doces, as jujubas, os sacos de pipocas... Sua voz, propositalmente anasalada, arrancava-os, com hilariantes lorotas e fábulas de criança.

Seu número iria findar, mas o grande espetáculo apenas começava, como haveria de ser. Depois, ainda os malabaristas, os domadores-de-leões, os motoqueiros-do-globo-da-morte, os trapezistas, os pôneis adestrados...

Estava muito fria aquela noite, mas nada lhe importava mais.

março 06, 2007

Dia Internacional da Mulher

Saudações audiência!
Próximo dia 08 estaremos comemorando o dia internacional da mulher.
Êta efeméridizinha hipócrita.
Mas enfim,
Até quem não gosta vai ter que lembrar!
Ah, a mulher!
Costela extirpada para nosso prazer, nos lembra sua origem toda vez que perdemos o fôlego por uma delas!
Não queira você saber como nos tira o fôlego uma costela quebrada.
Mistério a ser admirado.
Se você pergunta como entender, nunca entenderá!
A mulher é como o Jazz
E Vinícius foi nosso Miles Davis.
Se Deus fez coisa melhor, ficou prá ele.
E só pode!
Considere as outras opções:
1 - Abstinência
2 - Boiolagem
Asolutamentente ultrajantes!
Isso se você não quiser considerar outras opções anti-convencionais para vida afetiva como: partidos políticos, vida acadêmica, narcisismo onanista, dietas, drogas, coleção de selos, religiões sectárias, psicanálise etc.
Pois bem,
A igreja consagra o dia 08 de março a São João de Deus, santo português que lutou em guerras e inspirou uma ordem hospitalária em Granada, Espanha.
Não parece ter dado muita importância às mulheres este luso São João.
A única coisa que me lembra a mulher neste São João é a sua língua natal: o português!
Compartilhando com o português falado no Brasil a quase totalidade do seu léxico, o português de Portugal me lembra as mulheres pela semelhança existente entre a língua que elas falam e a falada pelos homens (sexo masculino, bem entendido).
Mesmo parecendo um pouco forte, é necessário admitir que frequentemente usamos (homens e mulheres) a mesma língua para expressar argumentações diferentes acerca de um interesse comum.
Ao final de uma discussão qualquer com uma mulher às vezes me assalta a sensação de ter argumentado com uma portuguesa!
Igualzinha àquela dona de um restaurante em Lisboa onde entrei uma vez em companhia de nove amigos: éramos em 10 e ela nos trouxe apenas 2 cardápios; perguntada se não teria outros cardápios, disse-nos que não. Foi quando ao apontar para uma pilha deles sobre o aparador ao lado, perguntei-lhe com um pouco de ironia se aqueles não seriam "outros cardápios" e foi então que ela me respondeu com ar de superioridade intelectual numa lógica peculiar aos portugueses: ah, mas aqueles não são outros cardápios, são iguaizinhos a estes que lhes trouxe!
É absolutamente necessário imaginar o sotaque deles na última resposta acima!
Se sua mulher for uma portuguesa de nascença então... f*
Só depois de vivenciar esta sensação, um homem compreende que com mulher não se discute, ou concordamos ou vamos embora e aí, que suba na parede quem tiver a unha maior: geralmente elas!
Mandam no mundo e são o objeto final escondido na luta masculina pelo poder.
Nesse dia de lembrança explícita, as vejo perdidas em meio a uma revolução de costumes que não lhes deu nada do que prometeu: nem a liberdade nem a igualdade.
Engoliram o anticoncepcional (uma espécie de maçã metafórica) e tiraram o sutiã; esqueceram o piano, a etiqueta, o balé, a culinária, os bordados, o senso estético do agradável no ambiente doméstico e principalmente: a intuição, a característica mais importante que a mulher traz para vida em comum por ser esta, dentre as aptidões do homem (sexo masculino), a sua maior deficiência.

Mulher que é mulher pode até fazer charme simulando pequenas indecisões mas, na verdade, não duvidam nunca.
Mulher que é mulher não duvida nunca de nada, antes da pergunta Deus já lhe soprou a escolha correta!
Enquanto o homem, só depois de muito esforço, consegue entender um pouco do mundo, a mulher plena já o sente desde o primeiro minuto de vida!

Que diabo deu nas suas cabeças de renunciar a este poder para tentar viver como homens?
Não sei!
Restringiram-se, desta forma, a exercer o poder de uma vida inteira apenas durante o curto reinado da aparência física e da sensualidade das formas.
Terão, a meu ver, que purgar inteligentemente a correção de rumo nesta estrada com rota viciada que lhes paga menores salários e as alija do poder com poderes de lei natural.

Ok!, nada do que foi escrito acima é absoluto; uma mulher acaba de ganhar um Oscar pela vida dedicada ao cinema e Segoléne Royal, mãe de 4 filhos está prestes a se eleger na França; são indubitavelmente boas novas.
O conjunto da turma no entanto não está tão bem: trabalhando muito (quando podem), desdobrando-se em duplas jornadas, parindo cada vez mais tarde e influenciando pouco a vida dos filhos (que as vezes vivem o paradoxo de terem uma mãe com educação superior e serem cuidados por babás analfabetas) as depositárias do mistério do feminino precisam ser lembradas no seu dia e nos outros 364, onde parece vigorar apenas os direitos do "homem" (Segoléne prefere chamar de "Direitos humanos", fato pelo qual já sofreu tentativas de ridicularização).
Muito a fazer e muito a corrigir num planeta em rota de esgotamento.
Talvez o bom exercício da complementaridade de aptidões masculinas-femininas seja justamente o que falta para que o mundo tire o pé do apocalipse ambiental e passe a viver um futuro mais promissor.
Se mesmo despois de toda essa elegia explicativa quiser você ainda seguir adiante na idéia, esqueça as Simones de Beauvoir da vida e leia a biografia de Mãe Menininha indicada no post anterior.
Mãe Menininha foi o feminino encarnado na sua forma mais pura e poderosa. Dentre os seus visitantes, concedia apenas a Vinícius o privilégio de sentar-se numa cadeira e de beber e fumar no seu terreiro (todos os outros estavam obrigados a sentar no chão e proibidos das regalias concedidas ao Poetinha).
Não cheguei a ver tal cena ao vivo mas imagino o poder da imagem deles dois a conversar: o mistério e o seu decifrador ou ainda, aquele de quem mulher alguma podia ter ciúmes sentado à frente daquela a quem todos podiam amar!
Feliz dia 08 a todas que amo, que amei, que amarei e que amaria mesmo amando como amo a minha Maria!

Posto abaixo um vídeo incrível em Stopmotion que dedico à pequena Bia, que até hoje se diverte com o remake de Summer Dreams publicado já a algum tempo!

março 04, 2007

A mais linda das filhas de Oxum

Joguei as notícias da semana pra cima, passei na peneira e sujei o chão de sangue mas sobrou uma digna de nota para os baianos de nascença e de coração:
Sai, pela editora Corrupio e Ediouro, a biografia de Mãe Menininha do Gantois a mais famosa Ialorixá da Bahia.















MÃE MENININHA DO GANTOIS, UMA BIOGRAFIA
Autoras:
Regina Echeverria e Cida Nóbrega
Editora: Corrupio e Ediouro
Quanto: R$ 59 (320 págs.)

Imortalizada nas canções de Vinicius de Moraes e Dorival Caymmi , "Tatamirô" e "Oração para Mãe Menininha", Maria Escolástica da Conceição Nazareth (1894-1986), Mãe Menininha, ganhava sua vida antes do sacerdócio, costurando ou vendendo doces e vísceras em tabuleiros. Você encontrará a explicação de porque o terreiro se chamava Gantois (por causa do sobrenome de um belga, traficante de escravos e antigo proprietário da área onde fica o barracão da mãe-de-santo) e de como isto sugere o modo pelo qual a resistência pacífica dos negros, e, em especial, a capacidade de fazer alianças da ialorixá biografada, durante os anos de perseguição policial ao candomblé, inspiraram e se incorporaram à política nacional.
"O candomblé segurou a barra do negro no Brasil, ajudando-o a manter sua cultura, por meio do culto aos seus ancestrais. E ele até hoje deixou marcas, como a aliança, o conchavo e a negociação, na política brasileira", observa a Regina Echeverría
O livro, no entanto, vai além da imagem pública e midiática da ilustre filha de Oxum, sempre rodeada de políticos do naipe do hoje senador Antonio Carlos Magalhães, ou medalhões da MPB como Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Costa.
Fascinada pela TV, mãe menininha assistia a tudo e associava o que via à sua vida no terreiro estendendo-se também a análises e a diagnósticos: Chacrinha era uma espécie de erê (estado posterior ao transe do orixá, caracterizado por humor alegre e infantil) e Mogli de Walt Disney uma representação de Oxossi. Legal hein?
Gil já a caracterizou como pop, era mesmo!
Resistiu a assumir as obrigações religiosas mas por fim capitulou aos 28 anos após ter se afastado do terreiro e dado luz a duas filhas após a morte de sua tia-avó a ialorixá Pulquéria.
"...primeiro foi Oxóssi, depois Xangô, Oxu, Obaluaê. Eles que me deram este cargo de felicidade, que estou ocupando até o dia que Deus quiser, e Oxalá...", conta ela em entrevista reproduzida no livro.
Representante notável do panteão de personalidades baianas, mão menininha representa ao lado de Jorge Amado, Caymmi, Carybé, Vergé, Família Veloso, Vinícius, Milton Santos, Anísio Teixeira, Mestre Bimba e tantos outros mais um arquétipo maior do tarô baiano; no seu caso, o da sabedoria intuitiva em ligação direta com a esfera com do divino.
Mãe Menininha era um exemplo a ser seguido de mulher afro-descendente, pois era uma pessoa muito à frente do seu tempo. A humildade, a doçura e o pulso firme, quando necessário, fez dela uma grande personalidade, nada abalando sua fé nessa religião e cultura de resistência, até hoje perseguida por uns e não compreendida por outros.

Boa leitura

P.S. Para os mais próximos segue o link para as fotos de Paris (Paisagens e obras de arte)

março 01, 2007

Fim de festa

Domingo último assistia a TV quando vi, num programa da TVE, a nossa atriz e cineasta Carla Camurati lamentar-se sobre o caos urbano que vai do aspecto simplesmente arquitetônico-urbanístico ao social; o trecho que me chamou mais atenção foi quando ela manifestou a perplexidade perante ao pastiche arquitetônico em que se transformaram as nossas grandes metrópoles, notadamente o Rio de Janeiro. Ela disse então: "...gente! se olharmos uma foto do Rio de cem anos atrás dá vontade de chorar..." e "...o pior de tudo é que isto não aconteceu por falta de espaço, o nosso país é tão grande..."
Aí chega a semana: chacinas, a morte dos franceses no Rio (responsáveis por uma ONG super eficiente) por pessoas que eles mesmos ajudaram, a adolescente baleada num tiroteio na saída de um assalto a banco... e por aí vai.
A televisão sangra pelos botões e contamina a refeição de quem faz a bobagem de ligá-la para "saber o que está acontecendo" com remorso, impotência, raiva, medo e uma pequena dose de...anestésico; isso mesmo! a pequena dose diária de más notícias associada à falta de providências realmente efetivas vai nos anestesiando aos poucos e promovendo um clichê nauseantemente repetido: "Banalização do mal"
Espinoza, meu santo Espinoza, conjecturava que a ética só é pertinente a seres parcialmente livres pois seres sem liberdade não podem ter nenhuma responsabilidade atribuída ao passo que os completamente livres são por definição livres de qualquer coisa inclusive...de responsabilidades.
Em que estágio estaríamos, nós classe média, mediana, medíocre?
Acho que estamos espremidos entre os totalmente livres e impunes (e por tanto inconstrangíveis) e os totalmente sem liberdade, filosoficamente inimputáveis.
Os principais jornais televisivos deram agora para pisar e repisar o tema da violência urbana sendo que seus locutores parecem agora terem sido orientados a fazerem pequenos comentários com dose extra de indignação. Parece bacana mas, ao meu ver, só aumenta a velocidade do processo de dessenssibilização pelo qual se vem passando.
A solução passaria por vontade política certo?
Não!
O métier político é duríssimo com as pessoas bem-intencionadas por ostentar uma couraça só ultrapassável por pessoas dispostas a fazerem concessões éticas e essas pessoas não têm vontade política e sim projetos pessoais. Como resolver situações como a atual no prazo de uma existência visto que nem eu nem você temos essa fé toda em reencarnação?
Break
O carnaval de um ministro de estado foi solapado por um assalto que só foi registrado dois dias depois pelo dono da propriedade! O que é que você acha?
Break
A malandragem e a esperteza já tiveram seus dias de glamour com Bezerra da Silva, Morengueira e compahia veio então Charles anjo 45, passamos pela propaganda do vila rica e por Odete Roitmann com a histórica banana dada ao Cristo pelo vilão interpretado por Reginaldo Faria no último capítulo.
Será que ninguém percebia que isto ia acabar mal?
Criamos monstros urbanos que se adensaram viciosamente como fazem moscas, que acham, em cima de uma pia limpa, um peqeno pedaço de carne podre.
Na imagem criada, a carne podre é a concentração de renda as moscas são seres humanos e a pia limpa representa a ausência de meios de tranporte eficientes e baratos que permitiriam às pessoas aproveitar o espaço que Carla Camurati cita como patrimônio do nosso país.
Constranja espacialmente um ser humano pardo ou negro do sexo masculino, banhe o seu cérebro vazio com um sangue contaminando por toxinas e carência de nutrientes, adicione um pouco de medo à mistura, coloque um buteco imundo e rituais primitivos de disputa social como seu cotidiano e, prá finalizar, quantidades generosas de desesperança: você acaba de criar, na prancheta, o agente típico da violência urbana no país, segundo os órgãos encarregados de estudar a epidemiologia do fenômeno.
Que verborréia, hein?
Já me prometi mais de mil vezes não chover no molhado que é abordar este tema mas, no momento, não deu prá segurar.
Ah!, antes que eu me esqueça, a figura de abertura do post é do blog Indexed; a autora escreve notas super espirituosas sob a forma de gráficos pseudo-matemáticos e publica aos montes para o nosso deleite. Clique na figura que ela te levará ao blog

Voltarei já com amenidades e alienações,
Me aguardem!
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