setembro 29, 2007

GÉSIER DE POULET


Crônica de Alexandre Figueiredo


Como ofensa não tem prazo para ser reconhecida, agora me sinto realmente ofendido. E não sei explicar porque esperei tanto tempo para me sentir assim, acho porque apenas por agora me atentei para a sua gravidade. Pura distração. É que comi moela por esses dias num botequim de esquina e, então, me veio todo o acontecido na memória. Estou realmente ofendido agora!

Na minha casa a simplicidade sempre preponderou em todos os aspectos, e na cozinha não poderia ser diferente. Minha mãe, que sempre esbanjou dotes culinários, era contumaz em transformar pratos simples em receitas clássicas, recheadas de elementos distintos. Sabia muito bem como extrair a essência de cada alimento e combinar seus sabores. Quituteira de mão cheia. Ainda sabe até hoje! Se fosse escritora, e fizesse com a pena o que faz com as frigideiras, faltariam-lhe linhas para juntar as brochuras.

E dessas inúmeras transformações que promovia, uma era ainda mais especial para nós, talvez porque fosse preparada com freqüência em ocasiões festivas (como falei, sempre tivemos uma vida simples) - ensopado de moela de frango.

É sempre com uma boa lembrança que vejo esse prato, afinal sempre esteve associado a alguma comemoração, às vezes até inventávamos um motivo novo apenas para comermos aquela carninha emborrachada mais uma vez.

Seu preparo era um verdadeiro rito.

Minha mãe tinha o lugar certo para comprá-las, dizia só servir as que eram vendidas num tal abatedouro, que apenas ela sabia aonde era. Ela mesma tinha de comprar pessoalmente. Às vezes, eu desconfiava que ela criava umas galinhas escondidas apenas para retirar-lhes as moelas fresquinhas.

Depois, já em sua cozinha, tinha uma forma própria para limpar uma a uma com uma faquinha de cabo branco; lavar; temperar (acho que nessa etapa é que fazia seu diferencial); deixar no tempero pelo tempo exato; e cozinhar, também tinha a intensidade certa do fogo. E não podia cozinhar de mais, nem de menos, tinha o ponto certo, como uma massa "al dente", consistente e saborosa.

Salivo só de pensar naqueles cubos acastanhados, brilhantes e fumegantes, borbulhando na panela. Maravilha!

E é claro que essa preferência não ficou restrita à nossa casa, logo os amigos mais chegados se renderam ao seu fascínio e também se fartavam quando lá nos reuníamos. Era um evento aguardado e veementemente cobrado - "Quando vai ser a próxima moela"? E minha mãe adorava. Quer vê-la feliz empazine-se com sua comida. E quando via a panela tendo seu fundo raspado, chega seus olhinhos cintilavam. Foi assim após o baile da minha formatura, não sobrou nem o caldo.

Certa vez, acho que a última (pura conscidência) em que festejamos com uma moelada, convidei um colega de trabalho para participar. Era aniversárioa meu e isso já faz alguns anos. E na hora em que foi servida, chamei-o para compartilhar conosco a idolatrada iguaria. Ainda perguntei se preferia com farinha ou com fatias de pão, ele questionou-me sobre o que era, acho que para confirmar,e , assim que ouviu a resposta, retrucou em bom português: "MIÚDO DE FRANGO!!! TÔ FORA"!

Sinceramente, na hora, eu não dei importância àquelas palavras. Não lhe disse nada e continuei na comemoração, afinal a festa era minha, lamentei apenas que não tivesse disposto a saboreá-las ou não gostasse.

Agora, depois de tanto tempo, me veio a lembrança desse episódio.

Sinto-me ofendido. Como ele pôde chamar as moelas de minha mãe de miúdo de frango? Enorme ultraje! O que havia saído da nossa cozinha nunca poderia ser denominado, desclassificado de tal forma. Aquilo era arte, arte culinária da mais pura. Precioso. E para mim mais valioso que qualquer foie gras (que também é viscera de ave!). O requinte estava na forma como cada um conseguia enxergá-lo. Se ele não conseguiu, que pena... E se não era receita sofisticada ou internacional, era comida brasileira, bem baiana, como nós.

Aquelas palavras eram como um tiro em nossa história, um atentado à nossa cultura caseira, uma indelicadeza, um desprezo. Como pôde falar com tanto desdém? "Miúdo de frango..."

Tenho certeza que se eu o tivesse oferecido como gésier de poulet (assim mesmo em francês) ele teria adorado. Esnobe de uma figa!

Que vá se fartar de cuisine nouvelle em outro canto, mas que respeite as moelas de minha mãe, elas definitivamente não são miúdos de frango!

setembro 26, 2007

Acta e Passio, os anargiros.

Amanhã, 27 de setembro comemora-se em todo mundo católico o dia consagrado aos gêmeos Cosme e Damião. Eles nasceram na Arábia no terceiro século depois de Cristo, eram gêmeos e seus pais eram cristãos. Quando cresceram, foram estudar na Síria, e lá se tornaram médicos. Mas eles tinham um apelido muito interessante: “ANARGIROS”, que quer dizer, “desafeitos ao dinheiro”, pois eles não cobravam nada, nenhum centavo pelo trabalho deles - os políticos da área de saúde viriam, séculos avante, fazer muito mal uso desta perversão do bom médico, de se interessar mais pelo paciente que pelo pagamento.
O quadro acima (Fernando del Rincón - Museu do Prado - Séc 16) mostra-os curando uma perna gangrenada através de um transplante retirado de um cadáver (um mouro, um negro?).
Será que o pintor ironizava a nobreza européia, com pernas gangrenadas, a depender de pernas negras para andar?
Nunca saberemos!
Alguns relatos atestam que eram originários da Arábia, mas de pais cristãos. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Surgiram várias versões, mas nenhuma comprovada com fundamento histórico. Em uma das fontes, explica-se que eram dois irmãos, bons e caridosos que realizavam milagres.
Sempre confiantes em Deus, oravam e obtinham curas fantásticas. Também foram chamados de "santos pobres". Muitos esforços foram feitos para demonstrar que Cosme e Damião não existiram de fato, que eram apenas a versão cristã dos filhos gêmeos pagãos de Zeus. Isto não é verdade, embora haja evidências de que a superstição popular muitas vezes fez supor haver em seu culto uma adaptação do costume pagão.
Perseguidos por Diocleciano, foram trucidados e muitos fiéis transportaram seus corpos para Roma, onde foram sepultados no maior templo dedicado a eles, feito pelo Papa Félix IV (526-30), na Basílica no Fórum de Roma com as iniciais SS - Cosme e Damião.
Alguns relatos afirmam que foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria e inimigos dos deuses romanos. Em outra versão, na primeira tentativa de morte, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás, sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.
Cosme e Damião foram martirizados na Síria, porém a verdade é que é desconhecida a forma como morreram. Seu culto já estava estabilizado no Mediterrâneo no século V.
Depois de mortos, teriam aparecido materializados ajudando crianças que sofriam violências.
Ao gêmeo Acta é atribuído o milagre da levitação e ao gêmeo Passio a tranqüilidade da aceitação do seu martírio. A partir do século V os milagres de cura atribuídos aos gêmeos fizeram com que passassem a ser considerados médicos, pois, quando em vida, exerciam a medicina na Síria, em Egéia e Ásia Menor, sem receber qualquer pagamento. Mais tarde, foram escolhidos patronos dos cirurgiões (exclua-se os plásticos, os filargiros; he, he, he!).
No Brasil, em 1530, a igreja de Iguaraçu, em Pernambuco, consagrou Cosme e Damião como padroeiros. No dia 27 de setembro, quando é realizada a festa aos santos gêmeos, as igrejas e os templos das religiões afro-brasileiras são enfeitadas com bandeirolas e alegres desenhos.
No candomblé, são associados aos "ibejis", gêmeos amigos das crianças que teriam a capacidade de agilizar qualquer pedido que lhes fosse feito em troca de doces e guloseimas. O nome Cosme significa " o enfeitado" (o mesmo radical do kosmetos grego) e Damião, "o popular" (por sua vez, o mesmo radical do demos grego).
Saindo da hagiologia para voltar ao post digo que sem querer abordar as implicações raciais da tela, invoquei-a para lembrar que os santinhos não são apenas sinônimos de caruru, crianças e guloseimas; eles são também os padroeiros dos transplantes sendo que seu dia, 27 de setembro é usado também para comemorações do dia mundial da doação de órgãos.
Para surpresa regozijo e cansaço de morpheus, esta semana foi coalhada de doações de órgãos. Muito trabalho ma também a alegria de propiciar um resgate de almas que de outra
forma continuariam no inferno da insuficiência orgânica.
Após um aumento nos transplantes após 1997 quando da implantação da política nacional de transplantes, o número volta a cair. Esta queda de origem multifatorial demanda uma avaliação pormenorizada e providências urgentes. Não fosse a bsoluta indigência em que se encontra a saúde pública no Brasil, Morpheus já estaria fazendo campanha; infelizmente vivemos um período de trevas e obscurantismo totalitarista que prefere transformar o "companheiro" em "técnico" a seduzir o bom técnico a virar "companheiro".
Para você que errou na escolha, um alento aristotélico: segundo prescrição formal de sua
"Poética", ao fim de uma tragédia, o herói reconhece o seu erro (hamartia, em grego) e então começa a inversão do sentido da história (peripeteia - peripécia - em grego).
As pessoas que votaram errado estão reconhecendo seu erro enquanto os políticos continuam entregues às peripécias.
Seja otimista, afinal você só começou como pessoa após vencer uma congestionada corrida de espermatozóides!
Pense, conscientize-se e ajude a divulgar a mentalidade de doação de órgãos. Agradecerão
pacientes, famílias e a medicina que tira também dos transplantes a tecnologia de ponta que precisa para evoluir.
A figura abaixo (um parque em Buenos Aires) fica de metáfora para lembrá-los de que a vida não acaba de uma vez; vamos afundando para o limbo, às vezes com órgãos viáveis que podem continuar nos corpos de outras pessoas as mesmas funções que realizaram tão bem para o paciente que agora está em estado terminal.

Bem e last but not least, aí vai um pouco mais de cultura de almanaque prá vocês:
Padroados:
¨ Farmacêuticos
¨ Faculdades de medicina
¨ Barbeiros
¨ Cabeleireiros
Protegem:
¨ Orfanatos
¨ Creches
¨ Doceiras
¨ Filhos em casa
¨ Contra hérnia
¨ Contra a peste

Emblema: caixa com ungüentos, frasco de remédios, folha de palmeira.
E realmente prá finalizar, Morpheus que não é beato nem nada, mas que acha que fé não é desperdício, finaliza com a oração dos santinhos para celebrar o dia mundial da doação de órgãos:


Amados São Cosme e São Damião,
Em nome do Todo-Poderoso
Eu busco em vós a bênção e o amor.

Com a capacidade de renovar e regenerar,
Com o poder de aniquilar qualquer efeito negativo
De causas decorrentes
Do passado e presente,
Imploro pela perfeita reparação
Do meu corpo e
Dos meus filhos
(...............................................)
nome dos filhos
E de minha família.

Agora e sempre,
Desejando que a luz dos santos gêmeos
Esteja em meu coração!
Vitalize meu lar,
A cada dia,
Trazendo-me paz, saúde e tranqüilidade.

Amados São Cosme e Damião,
Eu prometo que,
Alcançando a graça,
Não os esquecerei jamais!
Assim seja,
Salve São Cosme e Damião,
Amém!

[Ao alcançar a graça, fazer um bolo ou oferecer uma festa às crianças de rua, orfanatos ou creches.]

P.s: Morpheus lamenta no entanto, que as balas perdidas, o trânsito mal-educado, as estradas mal cuidadas, a violência urbana e a falta de assistência médica efetiva colaborem tão indevidamente para as doações no nosso país

setembro 24, 2007

Sete Cordas

"Sinto a mão de Deus na minha mão", escreveu o poeta Paulo César Pinheiro, sob a valsa Sete Cordas, composta por um iniciante Raphael Rabello. Paulo definia o assombro que o violão de Raphael imprimia em seus interlocutores - os que tiveram oportunidade de vê-lo ao vivo, ou os que reconhecem em sua música um legado definitivo, dissociado de tendências e nacionalidades.

Raphael compunha canções com data de validade para muito além dos efêmeros 32 anos de vida do compositor, morto em 95, vítima de uma parada cardiorespiratória. As irmãs Amélia e Luciana Rabello resolveram revelar as 18 canções compostas por Raphael, 15 com letra de Paulo César Pinheiro, três com versos de Aldir Blanc. Todas na voz de Amélia Rabello, a intérprete preferida do compositor.

Raphael teve apenas dois parceiros na poesia: Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc foram os únicos a sobrepor versos em suas melodias. Segundo o depoimento do próprio Raphael, foi a partir da letra de Sete Cordas, tema originalmente composto para o álbum Raphael Sete Cordas, seu primeiro disco solo, que o instrumentista começou a compor melodias para serem letradas. "Paulo César Pinheiro foi quem me levou para esse caminho de fazer composições para o canto. A partir do poema Sete Cordas, que ele escreveu para uma valsa minha, fiquei estarrecido. Tomei gosto e vi, nessa poesia, a história da minha vida", atribuía Raphael.

Sete cordas

Nada me fará sofrer
Pois trago junto ao coração
O bojo do meu violão cantando
Nada me dá mais prazer
Nem mesmo uma grande paixão
Que o som das sete cordas do meu violão tocando
E eu me vejo a obedecer
Eu nem sei bem porque
E sinto uma transformação
E os acordes nascem sem querer
Sem querer desponta uma canção
E eu sinto o coração nos dedos
Passeando em calma
Afugentando os medos
Que residem n'alma
E deixo me envolver
Pelo braço do meu violão
E o peito meu, fibra por fibra
Apaixonado vibra
Com prima e bordão
E é aí
Que eu sinto a mão de Deus
Na minha mão
Eu me ponho a dedilhar
Com emoção e fervor
As velhas melodias
Cheias de harmonias novas
E nesse instante então
Eu sou um sonhador
Acompanhante das canções de amor
Chego a cantar sem perceber
Alguns versos e trovas
E aí começo a ver que eu nunca fui sozinho
Meu violão me acompanhou por todo o meu caminho
E isso eu quero agradecer
Fazendo uma canção, falando de você
Amigo violão
Que comigo estará
Até eu morrer
Nada me fará sofrer
Pois trago junto ao coração
O bojo do meu violão cantando
Nada me dá mais prazer
Nem mesmo uma grande paixão
Que o som das sete cordas do meu violão tocando
E eu que vivo a obedecer
Eu nem sei bem porque
E sinto uma transformação
E os acordes nascem sem querer
Sem querer desponta uma canção
E eu sinto o coração nos dedos
Passeando em calma
Afugentando os medos
Que residem n'alma
E deixo me envolver pelo braço do meu violão
E o peito meu, fibra por fibra
Apaixonado vibra
Com prima e bordão
E é aí
Que eu sinto a mão de Deus
Na minha mão


setembro 20, 2007

Portal sobre o câncer de mama

Recomendado pelo The New England Journal of Medicine, vai aqui a dica do portal de recursos sobre o câncer de mama; doença de desoladora incidência (1 em cada 10 mulheres), o câncer de mama teve seu impacto atenuado pelo diagnóstico precoce e pela evolução da quimioterapia.

Se você é interessado pelo tema e entende bem o inglês escrito, o site vale a pena.
Clique na imagem e vá ao site.
Informações para médicos, jornalistas e pacientes.

Em tempo: sei que às vezes não da tempo de checar as informações sobre shows no TCA (Teatro Castro Alves) e este pé de post vem justamente para lembrá-lo que dia 02 de outubro tem show, em apresentção única, de Madeleine Peyroux.
Vai abaixo, uma amopstra do som da moça:


setembro 18, 2007

Agnus sei

A canção título do post me encantou quando assisti a um clip antigo em que João Bosco a tocava sentado na escadria de uma igreja mineira arrodeado de estudantes. A fusão mouro/mineira com a letra está realmente perto da perfeição.
Ouvi recentemente uma versão cantada por Dori e fui re-enfeitiçado.
Vai aqui uma versãozinha simplória para quem sempre quis tocar esta maravilha mas ficava atolado no violão irreproduzível de João Bosco.
O baixo em pedal fica como reforço ao lamento.
Ao final chega Eleanor, só prá dizer "Oi!"

setembro 16, 2007

If you're going to San Francisco...

Postzinho rápido:
Visitei e gostei do site americano dedicado à música brasileira Spirit of Brasil
Mantido por DAVID HEYMANN que mantém o programa Canta Brasil na 91.5 FM para área de Monterey e São Francisco.
Para relembrar o tempo quando se ligava o rádio e deixávamos rolar.
As seleções estão sob aa forma de podcasts e você pode baixá-las para para estofar seu iPod
Clique na imagem ao lado para fazer uma visita.

Enquanto você lê este post, Dona Canô completa 100 anos de vida no dia seguinte à celebração da festa do recôncavo em Paris nas escadarias da Igreja de la Madeleine.
O mundo é um recôncavo em cujo olho está uma baía de águas calmas margeada por negritude criativa num dos bastiões mais dóceis de resistência à pasteurização cultural posta em marcha apenas para engendrar a conversão da humanidade em uma massa homogênea de bovinos consumidores da mais nova obsolescência programada da indústria das inutilidades passageiras.
Dá licença que eu vou comer uma fatia de foie gras grelhada com puré de banana da terra!

Baixou Waly Salomão (saudades) no Morpheus!
Have a nice weekend

setembro 15, 2007

Memori, quae sera tamen

Tardia e cabotinamente, o Morpheus se investe na qualidade de arauto de novidades tardias para reparar uma omissão outrossim imperdoável.
A partir deste post, passa a constar no setor de links da nossa coluna lateral o endereço do circuito de Salas de cinemas de arte de Salvador.

Lá você encontrará a programação de cinema para os que buscam entretenimento, cultura e estímulo intelectual.
Não dá mais para perder um filme importante com a desculpa de que não sabia da programação.
Ao camarada, parceiro e poeta Trajano, os sinceros cumprimentos do Morpheus pela inauguração mais recente: a sala de arte da UFBa (Av. Reitor Miguel Calmon, s/n. Vale do Canela. Ao lado das Faculdades de Educação e Administração – PAC

(Pavilhão de Aulas do Canela)
. Estacionamento Gratuito: estacionamento do PA

Veja a programação do momento e pare de reclamar de que é tão inteligente que não tem prá onde ir!

UFBA
13:50 - Brasileirinho** ;
15:30 - Maria Bethania - Pedrinha de Aruanda*;
16:40 - Três Irmãos de Sangue*;
18:35 - Maria Bethania - Pedrinha de Aruanda*;
19:50 - Fabricando Tom Zé*;
21:30 - Maria Bethania - Pedrinha de Aruanda*.

*Para Comunidade UFBA – qualquer dia, em qualquer sessão R$ 4,00.
**De segunda a quinta, primeira sessão a R$ 2,00 (para Comunidade UFBA).

ALIANÇA FRANCESA
14:15 - Vermelho como o Céu;
16:10 - Baila Comigo;
18:10 - Paris Eu te Amo;
20:10 - A Comédia do Poder.

MAM - SOLAR DO UNHÃO
14:15 - Cidade dos Homens;
16:20 - Marcas da Vida;
18:30 - As Leis de Família;
20:30 - Marcas da Vida;
20:30 - Medos Privados em Lugares Públicos.

CINEMA DO MUSEU
34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia;
34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia;
34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia;
34ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia.
Clique aqui e confira a programação.

CINE XIV
14:20 - Baixio das Bestas (Sessão Popular - R$ 4,00);
16:05 - Saneamento Básico (Sessão Popular - R$ 4,00);
18:20 - A Vida Secreta das Palavras;
20:35 - Saneamento Básico.


Próximas estréias: 20 centimetros, O grande chefe, Eu me chamo Elizabeth, Garotas Gritos e Música, O Passado, A Culpa é de Fidel, Kirikou - Os Animais Selvagens, A Massai Branca, Yippee - Alegria de viver, O Pequeno Italiano, Princesa , Santiago, Encontros ao Acaso, La misma luna, El bufalo de la noche, Bubble, Ping pong na Mongólia, Atravessando a ponte – O som de Istambul, A Casa de Alice, Medos Privados em Lugares Públicos, Caparaó, Encontro com Milton Santos, Hérules 56, Querô, A Leste De Bucareste, O Violino, O Tango de Rachevsky, Em Busca da Vida, Algo como a Felicidade.

Para encerrar este post de reclames vai aqui também a notícia da feira cultural a ser realizada no espaço Armazém Brasil, na estrada do Côco.

ESTRADA DO COCO GANHA FEIRA MENSAL

DE ARTESANATO, ANTIGUIDADES E AFINS

Quem sente falta da realização de charmosas feiras dominicais, na linha das paulistas do MASP e da Benedito Calixto, em Salvador e arredores, não poderá perder a Feira Cultural do Armazém Brasil, na Estrada do Coco. O projeto inédito, capitaneado pelas empresárias Márcia Reis e Joanita Vasconcelos, do Armazém Brasil, tem primeira edição marcada para o domingo, 30, das 9h às 16h, na área externa da loja de móveis de madeira de demolição e artesanato, localizada na Avenida Santos Dumont, no 2090, logo no início da Estrada do Coco, com entrada franca.

A idéia é realizar sempre no último domingo do mês uma feira composta por estandes de antiguidades, artesanato, bijuterias, peças de decoração e quitutes diversos, com fornecedores escolhidos a dedo, primando pela qualidade e originalidade das peças. Os artistas plásticos Bel Borba e Fernando Oberlaender, as ceramistas Cecília Menezes e Hilda Salomão e a gaúcha Sabrina Schuch -que faz objetos utilitários em mosaico- são alguns dos participantes. Durante o evento, o show room e loja do Armazém Brasil também estarão abertos.

Assessoria de Imprensa

Santa Clara Comunicação

Mônica Lima & Délia Coutinho

(71) 3264-1481/9984-4991/8165-8100

Au lapin agile

Na tentativa de explicar porque, mesmo a passos de tartaruga, o nosso país parece rastejar sempre para frente (por menos que concordem os pessimistas!), já se disse que o Brasil cresce enquanto os políticos dormem. Bom, mas se esta premissa for verdadeira, o que acontece quando eles não dormem, preocupados que estão com conchavos e votações idiossincrásicas?
Talvez aí o Brasil pare de vez!
Imagine a situação: um corruptor abandonado na linha porque naquele momento o corrupto está fazendo ligações urgentes para preservar o esquema que se encontra sob tempestade de mídia.
Torna-se difícil arranjar alento para prosseguir; no entanto, toda vez que isto ocorre lembro um aforismo de “Tio Rui” (personagem já citado neste blog) que costuma dizer que “...se os pessimistas tivessem razão, ainda estaríamos nas cavernas!”
É...,
Mas todos hão de concordar que esta quarta-feira teve sabor de derrota em final de copa do mundo (Dirceuzinho Abadía deve ser mesmo muito antipático a ponto de perder o mandato e ainda virar réu).

O episódio abaixo serve (quase que inaparentemente, é verdade) de ilustração sobre o alcance da comoção nacional:
Esta semana, reclamei da minha “personal chef” que o ensopadinho de coelho que lhe pedira para acompanhar (ou ser acompanhado) por um Mercurey (um Borgonha tinto que muito me apraz) estava, digamos assim, fora do ponto; ela esquecera o mirepoix e negligenciara críticos 10 minutos adicionais de cozimento. Diante do diagnóstico preciso, num típico movimento de evasão glútea (esporte nacional que consiste em desviar a bunda do acesso da seringa) ela fez uma pausa e disse-me em tom de conselho:
- O senhor precisa parar com esta mania de jantar com a TV ligada em noticiários nacionais; deste jeito não tem comida que fique boa. Todo dia é a mesma coisa, ou pior; quando a gente está cansado, se entra coisa ruim pelos olhos, a comida azeda antes de chegar no estômago.
Concordem,
Uma evasão glútea de categoria,
Imagine se meus ensopados fossem preparados por um torneiro mecânico!!
Uma síntese de brasilidade contemporânea: incompetência costurada a uma obviedade e arrematada por um conselho maternal de viés filosófico.
Pensei comigo: estou frito!
Como um daqueles professores de matemática antigos, olhei para ela finalizei: 5 para o resultado e 10 para o raciocínio!
Mas enfim,
Enquanto este interlúdio balzaquiano acontecia na minha cozinha, nosso Rastignac pernambucano parecia perguntar lá da Escandinávia: “Vocês querem bacalhau ?”
A barba grisalha, o dedo faltante e o semblante tranqüilo; e nem poderia ser diferente: Dilma, a Pitbull e o caseiro Tião são bem treinados.
Bem, quanto à vizinhança, o diagnóstico é pontual: tá tudo dominado!
Ou quase,
Não me faltam suspeitas de que, quando cansarmos do “Cansei”, os realmente insatisfeitos possam partir para organizar um “Acorda milico!” tal como foi gritado há mais ou menos um mês atrás por uma passeata de protesto em São Paulo quando passava em frente ao Comando Militar do Sudeste.
Link para texto da Folha
Após o inusitado vocativo, passaram a entoar canções de Vandré!

Parece confuso não?

É parece, mas a confusão pode passar ou pior: piorar, como aconteceu com Vandré que passou, após um passado brilhante, a IDOLATRAR as forças armadas de forma prá lá de patológica.
Enquanto a banda passa, lembro de Marina Lima, e fico esperando por acontecimentos.

P.S. Sentei para escrever um texto metafórico, alusivo ao romance “A pele de onagro” de Balzac; sua universalidade, filosofia e interpretação. Ao final ia recomendar um livro que cheguei a pensar em presentear a um amigo e que desisti para mais tarde, numa espécie de remorso, relê-lo numa sentada e, mais uma vez, descobri-lo muito bom.

Não sei o que me aconteceu. Parece que o teclado ganhou autonomia e escreveu sozinho o texto acima!
Fica para próxima!

Inté

PPS: Não poderia deixar de comentar, nem que fosse num PPS, o lançamento do livro:

400 G - TÉCNICAS DE COZINHA
Autores:
Betty Kövesi, Carlos Siffert, Carole Crema, Gabriela Martinoli
Editora: Companhia Editora Nacional
Quanto: R$ 68 (576 págs.)

Que ainda não li, mas que me parece vir para preencher, em português, o lugar ocupado na cabeceira dos chefs pelo livro de McGee comentado alguns posts abaixo.

Não deixem de conferir os links para servidores de armazenamento de dados online:

Xdrive.com : 5G de mémoria gratuitos
mediafire.com: Um rapidshare menos restritivo


setembro 11, 2007

Nine eleven


Algum tempo atrás, estudando a epidemiologia dos acidentes e erros em sala de cirurgia, me deparei com uma conclusão, no mínimo inusitada, ao fim do artigo: “O maior fator de insucesso na resolução de uma situação crítica é a aplicação inadeqüada do conhecimento necessário (e não como eu pensava, a ausência do conhecimento). A este principal fator, segue-se a perda do momento ou seja, perda do timing da ação.
O curioso é confirmar como as situações críticas, em qualquer área, demandam algoritmos semelhantes de resolução, isto pra não falar sobre o indisputável valor das medidas preventivas. A lembrança destes tópicos ganha pertinência extra toda vez que nos avizinhamos do aniversário do 9/11 como preferem chamar os americanos.

Sabiam da iminência, tiveram tempo de agir mas não acreditaram: pagaram prá ver e viram; ou melhor, vimos.

Vimos ao vivo e em carne viva a primeira grande metástase ideológica de um tumor primário promovido pelo ocidente.
Vale aqui antiga conclusão dos médicos medievais segundo a qual “O câncer resulta de uma ferida que não se consegue curar”; é a analogia perfeita para costurar num só raciocínio a colcha de retalhos que se estende desde a agressão a Israel (1967) que resulta na tomada do Sinai passando pelos atentados de Munique em 1972 e chegando até o 09/11 ou Madri pouco tempo depois ou qualquer outra catástrofe mais recente.
Por outro lado, o aforismo Nietzschiano que declara que “tudo que não mata, fortalece” (traduzido no popular para “o que não mata, engorda), completa, com a conclusão dos médicos medievais, o dipolo que rege, diretamente, eventos críticos que vão da oncologia ao terrorismo.
Pausa
Durante o período em que morei fora da nossa pindorama e de uma forma mais fragmentada durante eventuais viagens, nunca me passou desapercebida a importância que a mídia dos países ditos “desenvolvidos” dão às questões do oriente médio.
Não pelo viés da correção, bem entendido!
Às vezes, me parece como uma manifestação atávica (e às vezes sádica) que remonta o chamado do entediado papa Urbano para a 1ª cruzada (ou 1ª Jihad cristã, como algum tropicalista poderia preferir!).
A partir deste ponto, olhando para frente e para trás, tudo que vemos são agressões repetidas: Judeus migrando ou em fuga, mártires cristãos queimados por Nero (ajudando a fundar a mesma igreja que mais tarde queimaria hereges e bibliotecas na Europa), o islã expansivo que converteu até mesmo quem não sabia falar árabe, exumou Aristóteles e manteve o conhecimento ocidental vivo numa UTI moura-ibérica (mesmo depois de terem queimado Alexandria); o oriente médio finalmente retalhado geograficamente no “Versalhes do deserto” que dividiu sua areia e geografia num tabuleiro mais facilmente controlável onde emirados ladrilham o litoral da península arábica, Djibuti controla o mar vermelho e o Kwait obstrui o sovaco do golfo pérsico.
Eis que chega então aquele momento no qual um fictício “oncologista social” poderia chamar de singularidade:
- Depois de pingarem em Pernambuco e serem rejeitados por um Brasil para-inquisitorial, os Judeus encontram melhor ambiente nos E.E.U.U. e lá florescem longe das perseguições levadas a cabo na Europa e que chegariam ao ápice na 2ª guerra; abandonariam a partir daí, o comportamento tradicional de fuga para o de uma organização defensiva ativa.
- Cria-se por decreto, o estado de Israel
- Os árabes decidem atacar Israel que responde de forma precisa esmagando a agressão multilateral de forma humilhante para os agressores.
- A preocupação britânica com suprimento de óleo leva ao “enxerto do Xá Phalevi”
- A "modernização” forçada desencadeia a revolução dos aiatolás
- Instalação do fundamentalismo
- Guerra Irã x Iraque
- Patrocínio à Sadam, aos Talibans, treinamento de Bin Laden
- ...
Chega,
Desse jeito não tem ferida que cicatrize!
Vamos parar por aqui, até mesmo porque os agentes destas desastradas políticas não mostram sinais de redirecionamento diplomático.
A cinética do rancor está em marcha.
Marcha forte, veloz e cega.
Suas células não temem a morte (da mesma forma que as células de um tumor)
E isto é motivo da perplexidade ocidental perante o comportamento dos suicidas.
Só a inteligência pode desmontar as reações em cadeia postas em curso.
Infelizmente, para acrescentar um pouco mais de suspense às nossas perspectivas, o capital globalizou-se e as fronteiras diluíram-se; o dinheiro criado por nós como uma ferramenta, transformou-se em algo que parece vivo; tudo que uma nota de U$ 1,00 quer é se juntar a outra para poder comprar uma terceira num infinito de acumulação atemporal que turva os raciocínios, submete os governos, corrói o valor do processo democrático enquanto fomenta a exaustão do planeta.
Se escaparmos desta, acho que chegaremos a um futuro feliz no qual nossos eneanetos olharão para nós e nossa época da mesma forma como olhamos Humphrey Bogart e Yul Brinner tragarem sôfregamente seus cigarros nos filmes, ignorando que morreriam poucos anos depois de falta de ar.
Demoramos um bom tempo para chegarmos ao consenso de que fumar é uma idiotice completa.
Quanto tempo levaremos para chegar à mesma conclusão sobre as guerras?
Não foi acaso que, para abrir o post, escolhi uma imagem que remete à de um cigarro aceso.
Hoje é 11 de setembro, aproveite para meditar!
P.S. Enquanto isso, o Jacarézinho inaugura a primeira versão brasileira do Trem Bala.
Para não fugir à linha presidencial, o ministro metralhado saiu do trem dizendo ser carioca e estar acostumado a tudo, sem problema nenhum!
Morpheus lamenta profundamente a má pontaria dos franco atiradores

setembro 09, 2007

Céu e mar, mar e céu


O mar era um interminável espelho. As constelações se exibiam nuas, vaidosas. A lua, nova naquele quarto de mês, tornava-as ainda mais reluzentes sobre o mais puro negro. O céu estava em festa, chuviscado de estrelas (e pareciam ter vida própria). Elas eram o próprio firmamento. Um firmamento de estrelas! Exibiam cores cintilantes, quentes, em tons variáveis e discretos como um mosaico. Piscavam em ritmos próprios, algumas tão próximas entre si que pareciam caber num só punhado de mão. Por hora, uma ou outra lançava-se ao mar, deixando apenas um rastro luminoso em seu caminho. Nunca se vira noite tão viva, uma expressão própria da natureza. Não havia nuvens, todas dispensadas. E o vento corria afável em forma de brisa por entre os panos.

Hélio permanecia deitado sobre o convés, era um espectador certo de que também estava sendo observado. Tinha uma sensação inexata de prazer, tentando inútil identificar as constelações que outrora vira em outros céus. Fazia planos para contá-las e recontá-las infinitas vezes, também inútil. Imaginava formas, as mais descabidas possíveis, inusitadas, e elas, as estrelas, multiplicavam-se a cada piscar de olhos. Eram vibrantes, ardilosas. Flutuavam no céu e também no mar. Os peixes pareciam nadar por entre elas e elas pareciam brotar do negrume do oceano paralizado. O céu parecia ter dominado o mar e o mar se misturava ao céu e tudo parecia ser uma coisa só.

As pequenas luzes eram infinitas e moviam-se como uma interminável flotilha. Era um descabido universo sem horizonte. Podia-se virar de cabeça-pra-baixo e nada mudaria. O barco deslizava como se gravitasse numa atmosfera própria, fantástica, ilusória. Singrava o céu. Hélio era um astronauta no mar, numa festa, silenciosa e solitária, a mais fabulosa em que estivera. Uma festa-surpresa.

Ouvia o suspiro do vento que deitava sobre o água cintilante e tornava tudo ainda mais inexpressivo. As velas se enchiam lentas como imensos balões brancos, inflados sobre a sombra da noite. Os cabos não tilintavam, as ferragens não trincavam, a bússula não se movia, todos cúmplices da algazarra, da viagem sideral.

Desejava que as horas parassem, que tudo perdesse a dimensão na fronteira lúdica do abstrato. Aquilo só seria concebido no mais profundo sonho, mas acontecia como uma mágica diante dos seus olhos. A imaginação... Imaginava-se Ícaro no seu vôo exuberante em busca do céu infinito, voando cada vez mais alto, além das nuvens, do espaço, das asas de cera. Aquela noite era apenas das estrelas de menor grandeza.

Hélio continuava sua viagem ilusória, degustando o tempo como uma rara especiaria. Esgotara-se o cansaço, a solidão, a excitação da chegada. Suas cadeias já não tinham portas. Seus bens já não tinham matéria. Apenas um homem no meio do mar.

Seu corpo permanecia inerte (sem qualquer intenção) sobre o convés, a cabeça sobre um cabo torcido em lais-de-guia. Olhava para o nada, para o tudo. Era o prórpio nada e o próprio tudo. Pensava em como poderia estar sozinho diante de tudo aquilo. Ultrapassava uma existência. Inefável. Desejava ser criança novamente, mergulhava no tempo, numa fugaz e nova infância. Saboreava o insubstancial valor daqueles minutos. Não desejava nada.
E apenas esperou.

De sotavento, tão logo surgiram os primeiros sinais do dia. E o amanhecer delimitava o céu e o mar num horizonte até então plano. Gaivotas quebraram o silêncio. Hélio apenas sorria.

Essência Carpe Diem


O texto acima foi desenvolvido a partir da leitura do capítulo "O veleiro virou astronave"do livro "aventuras no mar" do navegado vagabundo e poetinha Hélio Setti Jr. Livro de publicação póstuma que traz seus relatos seus feitos durante sua viagem de volta ao mundo à vela.

Este livro nada tem de clássico, de academicismo, de estilo, de literatura, longe disso..., e é certo que não foi concebido com esse propósito. É um relato simples e descompromissado de um cara que lançou-se ao mar em busca de aventura e percorreu 35.000 milhas náuticas sem dinheiro, obrigações ou vaidades e foi ao encontro do que chamou de "os melhores dias da minha vida" (foram 1460 dias!!! Felicidade tem fim, mas essa demorou hein?). Onde extraiu a verdadeira essência do Carpe Diem.

E o que é mais inquietante em sua história é que ele morreu de forma completamente inesperada, ainda jovem e em terra firme, algum tempo depois de completada sua viagem - já de volta a uma vida normal.

Leitura recomendada (um manual na verdade!) para aqueles que sonham em um dia tomar coragem, largar tudo e virar vagabundo.

setembro 05, 2007

Da gávea

Não dá nem prá acreditar,
a semana voou e já estamos às vésperas de um final de semana prolongado.
Hoje estou com uma tremenda dificuldade em não falar de política, mas já decidi: não vou falar!
O post vai ser curto e terminar com uma indicação.
Pois então, vamos lá!
Desde janeiro, do alto da gávea do ano (cestinho do mastro dos navios) também chamado de "caralho" pelos portugueses quinhentistas, avistei o feriadão.
A gávea real (não a metafórica) era o pior lugar da caravela: balançava, o sol queimava, era solitária e, invariavelmente, viv'alma costumava se dispor a revezar com o condenado no posto "mais alto" do navio!
Justamente por isso, quando um marujo se comportava mal, era mandado para esta "casa do caralho"!
Parece-me um pouco com o atual estado da cadeira do presidente do senado.
Mesmo se faz um pouco de calor, balança e ninguém vem te substituir, aproveite, olhe para o horizonte e planeje o fim-de-semana; bien sûr, talvez você não aviste a Musa Veloso para quem esta nação de maridos virgens paga pensão, mas quem sabe se uns dias na praia, algumas caipirinhas e umas chineladas na patroa não sirvam como (bom) entretenimento?
Faça como D. Pedro I, levante a espada suba na besta e grite!
Obs: Não necessariamente nesta mesma ordem.
Perdão, pelo momento semi-baixaria!
Então...
A independência do país será comemorada com a mesma hipocrisia de tantas vezes.
Felizmente estaremos de folga na sexta!
Eu, você e a torcida do flamengo.
Meu alter-ego está alterado.
Memorize: 07 de setembro, 12 de outubro e 02 de novembro caem sempre no mesmo dia da semana num mesmo ano; portanto se você gosta de dobradinhas (ou tripladinhas) este ano é o ano!
Prega igual só quando caírem na segunda-feira.
Planejo para este final de semana a leitura (de pelo menos parte) de um livro que sempre esteve nos meus planos e que finalmente me chegou sobre a forma de presente:

On Food and Cooking:
The Science and Lore of the Kitchen (Hardcover)

Tudo que você sempre quis saber sobre a química intrínseca dos alimentos. As emulsões, as proteínas, gorduras, amidos, a ultraestrutura dos alimentos pluricompostos (como o leite, o sorvete etc), as composições pormenorizadas, as alterações estruturais provocadas pelo calor, ácidos e forças mecânicas; um pouco de história, etimologia, química, nutrologia e dicas de saúde, física das temperaturas, timing de cozimento e particularidades dos utensílios. Tudo isto num tratado completo adotado por chefes do mundo inteiro. Você finalmente vai saber porque o leite que foi congelado não presta para o capuccino a menos que você tenha um frother à mão.
Se você não sabe o que um frother, aí pegou!
O link abaixo o levará para os comentários sobre o livro no site da Amazon (mais de cem). Se você quer saber um pouco mais como reproduzir bons resultados na cozinha este é o livro. Se você é um nerd culinário amador e tem uma cozinheira capaz de usar um termômetro, creio que o investimento vale a pena.
Volto após o feriado!



setembro 03, 2007

Droit a la paresse!

Um domingo luminoso marcou o fim de semana na Bahia.
Beto Guedes não teria desculpa para ainda não ter escrito sua canção!
Temperaturas de 23 a 25 graus no início da manhã inspiram posts com starting gambles britânicos.
Textos diversos me aguardavam;
A revista Veja chega exibindo na capa o ministro-relator Joaquim (que por sua vez tambem ostenta uma capa) como o mais batman dos membros da liga da justiça.
Uma capa dentro da outra com um ministro no meio!
Que é que isso quer dizer?
Abri o imperativo hebdoma(n)dário, infelizmente insensato para os cegos, para ver uma imensa reportagem sobre a trajetória de Joca.
Emocionante, auspiciosa.
Num país em que homens públicos disputam a tapa o espaço no salão de baile dos indecentes, Joca baila folgado na sala dos bem-formados.
Como bola fora, criticaria a citação do termo "negritude" de uma forma pouco inteligente, como uma das coisas que não interessariam ao ministro.
Não sei se a revista ou o ministro sabem lá o que significa o termo mas trata-se de um conceito profundo cuja criação pelo poeta/presidente do Senegal, Léopold-Sédar Senghor (foto ao lado - também agregado de gramática francesa) define de uma forma inescapável para os negros, o seu modus operandi social.
Platão ficaria feliz em escrever uma resenha sobre o assunto.
Se o rei filósofo ainda não subiu ao poder, pelo menos no supremo, o cenário não é tão desolador.
Platão me veio à cabeça também porque me lembrei de um dos diálogos em que Sócrates discute com Protágoras (um sofista, um filósofo do mal!) se a virtude poderia ser ensinada; bem, se a virtude fosse uma forma de conhecimento, sim; caso contrário, não.
Mas então, o que seria a virtude?
A discussão começa a partir da constatação de que a uma geração virtuosa, muitas vezes se segue uma degenerada; onde estaria a falha em uma possível pedagogia da virtude?
Seria fagulha para um grande incêndio mas eu deixei a Veja de lado e tomei em mãos o texto que me ocuparia a manhã:

"O direito à preguiça", de Paul Lafargue, publicado em 1842.
Acho que só por ignorância este manifesto iconoclasta do genro de Marx não foi entronizado como constituição na Bahia!
Paul Lafargue diagnostica neste livro, as raízes da formação da sociedade de consumo e como a idéia de trabalho como virtude foi o gatilho de tudo.
Tudo de ruim, bem entendido!
Lafargue estava vendo a introdução dos teares mecânicos e não entendia como a classe trabalhadora não se aproveitava disso para trabalhar menos. Muito pelo contrário, reinvindicava o trabalho como um "direito" a ser respeitado.
Para competir com as máquinas, os trabalhadores de então see vendiam cada vez mais barato e por mais horas!
Uma loucura, dissecada com humor, ironia e lógica neste pequeno texto bilíngüe (francês/português).
Entre outras pérolas, Lafargue ironiza a idéia de o Criador ter trabalhado seis dias e descansado no sétimo: "Ele passou uma eternidade sem fazer nada, trabalhou seis dias e em vez de descansar no sétimo, como dizem os beatos, tirou férias de novo e está descansando até hoje!"
He he he!
Leia o texto para saber:
Como a tarde de sábado foi transformada em folga
Como o proletariado passou a ser visto como consumidor potencial quando a burguesia não sabia mais para quem vender
Como a fabricação de produtos frágeis e pouco duráveis foi uma das primeiras soluções encontradas para manter girando a roda do consumo.
Como o aumento do preço da mão de obra força o desenvolvimento do ferramentário industrial: enquanto o bóia-fria for mais barato que a colheitadeira, 0 fazendeiro não a comprará! (isso me faz cogitar o que a bolsa-família poderia ter a ver com uma modernização rural no Brasil)
Etc Etc Etc.
Diagnósticos incríveis, para você e para os que o cercam, podem vir-lhe à mente com leitura deste pequeno texto.
Não deixe de ler!
E se quiser complementar os insights que você terá, tente assistir ao documentário "Why we fight" no qual é mostrado como os interesses comerciais da indústria bélica americana mantêem as guerra acontecendo mundo afora desde que a ameaça russa se mostrou vencida.

P.S. Ao assistir o Manhattan Conection deste domingo foi-me inevitável não imaginar o Diogo Mainardi como uma versão adulta do personagem Ed Monstro, o vampirinho, filho de Herman no antgo seriado da TV!
Confira prá ver se não é a cara!
Ainda tentei assistir, quase meia-noite, ao programa do Discovery Channel dedicado ao Brasil na série Atlas mas quando ouvi a floresta EQUATORIAL amazônica ser chamada de tropical e a descrição de um altar de Umbanda como de Candomblé, vi que se tratava de um programa de gringo para gringo: erros grosseiros e estereótipos!
Bom, aí me lembrei do Morpheus!

Volto já!
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