abril 28, 2007

Have a nice weekend!


Muita coisa para não fazer hein?
Neste final de semana o morpheus ficará, como se diz na Bahia, "de prega"
Mas não sem antes deixar alguma coisa sugerida:
Se você tem pouco tempo: visite a exposição virtual do fotógrafo canadense Jeff Wall no MoMA; a foto de abertura do post me encantou e acho que você deveria ver as outras e se possível, ler as explicações deste pintor de pixels!
Se você tem "média" disponibilidade assista: O jantar dos malas, uma comédia de matar de rir!
na qual a trama descreve as desventuras de um membro de um grupo de amigos que se diverte convidando pessoas extremamente chatas para jantar e, após alguns jantares decidem quem levou o convidado "mais mala"
Este desafortunado protaginista membro deste grupo de curtidores sofre uma contusão no golfe e se vê às voltas sozinho, com o mala que ele tinha convidado, em sua própria casa!
Bem...
E se você tem muito tempo faça como eu e comece a ler diletante e espaçadamente, Flores do Mal, de Baudelaire em edição bilíngüe. Bom para a cultura, bom para a alma e bom para melhorar o françês, que quando é bom, faz o português ficar muito melhor!
Leia um pouco da sinopse: "Neste livro atroz, pus todo o meu pensamento, todo o meu coração, toda a minha religião (travestida), todo o meu ódio", escreveu Charles Baudelaire sobre este livro numa carta. Consideradas o marco da poesia moderna, As flores do mal reúnem de modo exemplar uma série de motivos obra do poeta: a queda; a explusão do paraíso; o amor; a morte; o tempo; o exílio e o tédio.
E enfim se você não tem muito tempo, quer algo de graça e não é monoglota, vai aí um link para baixar a correspondência completa entre Flaubert e sua amante Colette. Um verdadeiro tratado (citado por Vargas Llosa em seu "Cartas a um jovem escitor") para quem quer saber como nasce um grande escritor!
Obs. O texto está em françês!

Bom final de semana! (Ayez une bonne fin de semaine et au revoir!)

abril 27, 2007

Tangerine skies.

A tarde ameaçava terminar e, como que a emitir o seu canto do cisne para aquele dia, o sol pintava o céu com todas as cores que sobraram na sua paleta após o longo dia de trabalho durante o qual iluminou o mundo e impressionou tantas retinas anônimas.
O crepúsculo,


Momento mágico pelo qual anseiam magos e demônios: policromia que anuncia a escuridão, fugaz e anti-frugal, fresco pela sombra, quente pelo calor exalado das estruturas à nossa volta, yin e yang, breve lapso no qual a natureza troca o ofuscar do sol pelo manto da noite revelando sua beleza nua, nua, nua.
Neste momento, neste breve momento, em algum instante, tudo que é belo grita por um átimo duas oitavas acima dos grilos e das cigarras como a corista que oferece a visão do seu vértice aos olhos atentos de quem não ousar piscar.

Inesperadamente, no momento que ainda dura, eis que pousa à minha frente, sobre a mesa de madeira escura, um improvável copo transparente cheio pela bordas de suco de tangerina madura, recém extraído; Seu amarelo denso, ornado de gotículas transparentes de umidade condensada, me convida, me seduz e me pergunta:
E então...
a tarde não tardará a findar, é necessário que me bebas, o último gole ao mesmo tempo que o último raio de luz,

Serias capaz?

Bebido antes do final da tarde, o cadáver do copo vazio jazendo sobre a mesa na penumbra incompleta, certamente me melancolizaria;
Bebido na escuridão do lusco-fusco, me faria sentir mórbido;
Sem a luz, a bebida estaria morta.
Era preciso ser preciso!
Cheio, à minha frente, o copo falava com palavras de cor e cheiro de fruta, com o sabor antecipado que me inundava a boca, com o estalar das pedras de gelo que se rachavam e com o tato molhado e frio que me aguardava ao momento do toque!
Tão vivo e tão independente, o copo de suco deveria morrer exatamente ao chegar da noite.
Era este o seu propósito!
Esta era a minha única certeza.
E... era apenas um copo!

Ora, poderia ser alguém!

Pois assim como este copo, pessoas também se nos aproximam ao final da tarde;
É necessário que as bebamos - tais pessoas - no ritmo certo, sem demora e em goles longos, como elas se oferecem, pois uma vez que se postem à nossa frente, é assim que querem (e devem!) ser bebidas.
Que a noite, sempre a rondar a beleza dos crepúsculos, nos poupe, com sua chegada, da visão de seres esvaziados.
De cadáveres transparentes plenos de nada e de pedras de gelo.
Que o último gole de cada presença se perpetue em nós, sob a luz do último raio de conteúdo, o sabor e o deleite de cada companhia inesperada.

E aí,

Vai beber o que hoje?

abril 26, 2007

De Guernica a Baghdad

As convicções são as vilãs por trás da incapacidade mental atribuída ao passar dos anos
Manellis


As convicções são âncoras que jogamos toda vez que o mundo das idéias parece sacolejar demasiado o nosso barco existencial. Agarramo-nos a um raciocínio, na maioria das vezes falho, para "protocolarmos" nossa conduta e evitar assim a dúvida que tortura com aguilhões e provoca uma dor tanto maior quanto seja o cansaço da mente sobre a qual se assenta.
Convicções são muletas que muitas vezes sabemos quebradas antes mesmo de usá-las pela primeira vez. A sua existência é um ardil tão grande dos mecanismos da mente que até mesmo a disposição ferrenha de não ter convicções, não cultivá-las ou perpetuá-las é, em si...uma convicção!
Convicted em inglês, significa preso!
Toda convicção é uma cerca que nos impede de ir a algum lugar!
Criamos convicções para:
- Protocolar o quotidiano,
- Minimizar dúvidas,
- Economizar energia mental,
- Fugir da liberdade
- Exercer o livre direito de se manter ignorante
Observe, como quem não quer nada, o público de uma livraria, de uma locadora ou de uma loja de discos.
Repare na desfaçatez e na sofreguidão com que alguns freqüentadores destes locais olham para seções que lhes parecem bloqueadas por uma parede invisível que os seduz pela virtualidade:
- O homem de meia-idade que evita a ala de cinema nacional
- O jovem com perfil nerd que não ousa pegar um musical
- A garotinha em roupas pretas (góticas?) que simula asco pela seção de filmes como High School Music
- Aqueles que evitam a seção de romances e acham que só as biografias são dignas de leitura
- Outros tantos que evitam biografias e só se "drogam" com romances
- O roqueirinho que não quer nem mesmo ser visto pegando em um disco de MPB
Bem, exemplo é o que não falta e até mesmo eu, que sempre me senti um assassino convicto de convicções (Ops!), freqüentemente me pego regando com carinho uma convicçãozinha ou outra que teimam em crescer inadvertidamente no meu jardim de idéias livres!

Seção conselhos do Morpheus

Nunca discuta com um real convicto,
Se ele for um profissional do ramo, depois de algumas manobras evasivas ele o levará para o seu jardim e o vencerá com experiência.
Lembre-se, mais sabe um idiota em sua casa que um sábio em casa alheia!

Fim da seção conselhos do Morpheus

Pois é, foi cheio de convicções que, quando vi o mural Guernica pela primeira vez (Museu Reina Sofia, Madrid), enunciei, convicto, do alto da minha ignorância:
Achei uma merda!
(Risos!)
O tempo passou e o simbólico contido nesta maravilhosa síntese de horror à guerra (e às convicções nela contidas) me fascina como se fosse uma espécie de "Águas de março" da pintura.
Setenta anos se passaram após esta obra, pintada em tempo recorde (quase uma anafilaxia), e ela continua atual sem que nada impeça que a imaginemos saindo do atelier de uma artista iraquiano naquele inferno que se estabeleceu pra lá de Bagdad


























Armas de destruição em massa, inexistência do efeito estufa, combate real ao terrorismo, segurança da América, proteção da democracia...quantas convicções!
Convicções tais como a carroça que suspende o jegue no início do post!

Se voçê nunca parou para analisar Guernica, ou simplesmente não o aprecia, como eu não o apreciei na primeira vez que o vi, vai abaixo uma série de chaves do simbolismo do quadro:

O touro
Picasso sempre foi fascinado pelas touradas, velho esporte espanhol, brutal e espetacular,
e as imagens da arena de touros aparecem com freqiiência em seu trabalho. Embora Picasso afirmasse que o touro em Guernica representa a brutalidade, trata-se de uma imagem ambígua. Parado e abanando a cauda, o touro não parece selvagem. Talvez Picasso tivesse em mente o momento da tourada em que, após um ataque bem-sucedido, o touro recua para ver o que fez e prepara seu
próximo movimento.

Ausência de cores
A pintura severa, monocromática, é adequada ao tema. Até hoje o assunto deste mural provoca polêmica na Espanha. Essa enorme tela está exposta numa sala própria no Museu Rainha Sofia, protegida por um imenso vidro à prova de balas.

Mãe e filho
Uma criança morta pende dos braços da mãe. Entre as complexas imagens cubistas de Guernica, esta pode ser interpretada de imediato. O grito da mãe está representado pela sua língua, que sugere um punhal ou um caco de vidro. Outros cacos semelhantes aparecem por todo o quadro.

A cabeça cortada
No primeiro planohá uma figura fragmentada, com a cabeça decepada à esquerda e ao centro um braço cortado segurando uma espada quebrada. É possivel que seja uma referência à batalha de San Romano (de Uccello). Picasso contrasta a guerra cerimonial com um assassinato em massa.

Cavalo em agonia
Picasso raramente interpretava sua iconografia mas deixou escapar que seu cavalo representa o povo. A língua em ponta de punhal significa a agonia vista pela lâmpada que pende logo acima como o onipresente olho de Deus .

A flor

A única flor do quadro, em traços singelos e delicados, representaria a esperança inexterminável.

Os rostos

O cavalo ferido é uma alusão secularista à descida da cruz quando as três Marias comtemplavam desoladas o corpo ferido de Jesus (o cavalo ferido!).

Figura com os braços levantados
Alusão a Goya: O fuzilamento de 03 de maio de 1808

A pequena arte diverte
A arte mediana eleva
A grande arte liberta
Fernando Pessoa

abril 24, 2007

Pixinguinha roeu a roupa do rei de Roma

Que sois senão uma alma que arrasta um cadáver?
Epicteto


O bom e velho Epicteto pegou pesado quando perguntou um assunto pessoal desta forma a la Augusto dos Anjos; no entanto, é justamente esta pergunta que me vem à lembrança quando me deparo com as cada vez mais freqüentes matérias sobre a visita do Papa. Você poderia pensar que eu falo do aspecto biológico dele; bem... poderia até ser, mas, na verdade, o que me acode ao pensamento é o fato deste alemão (como Nietzsche) representar, hoje talvez, o ponto mais distante possível da ideologia libertária do fundador de sua linhagem; o cristianismo original era libertário, anárquico, iconoclasta, igualitário, filosoficamente promíscuo e...racional: conhecerás a verdade e a verdade vos libertará!
Ora, qual seria esta verdade que nem Pilatos soube definir?
Eu arriscaria dizer: a última à qual se tenha chegado pelo caminho da razão!
Mas o papa vem aí!
O Papa chega cercado de pompa e circunstância a um país que precisa sériamente de uma revolução antes que o mundo acabe em estufa!
Chegará para galvanizar o estoicismo analfabeto dos brasileiros que enxergam no sofrimento uma profissão de fé; chegará com suas missas em latim, pregando contra a higiene sexual que prescreve a camisinha e sem falar nada contra o genocídio de uma nação endemizada pela corrupção e pelo crime organizado (definido precisamente, por um ministro do STJ, como aquela modalidade de crime que conta com auxílio de um agente público/político); chegará negando a ciência, o único caminho sobre o qual a humanidade nunca deixou de avançar.
Eu não irei vê-lo mas o mosquito da dengue já chegou a Aparecida onde, embora ignorado nos sermões, será lembrado nos hospitais onde promete se apresentar com sua túnica hemorrágica!
Tudo isto começou, para chegar ao ponto que está, quando, já esgotado tematicamente, o estoicismo cedeu à fé cristã o lugar de filosofia oficial do império romano. Ou seja, passaram (os estóicos) um tempão ensinando os discípulos a sofrer com resignação até que foram hibridizados com uma filosofia que prometia a ressurreição da alma e... do corpo!
Esse tal de Constantino não era mole não!
Atrelada ao estado e pregando a subserviência e a iconolatria temos a nossa fé ocidental majoritária que mais parece o cadáver do qual fala Epicteto!
Porém, nem tudo se resume à indignação contra o silêncio dos que podem falar!


Com um dia de atraso, por falta de tempo é claro, celebro aqui o aniversário (110 anos) de um daqueles que, mesmo tendo tudo para ficarem calados, falam muito, ou melhor, tocam: Pixinguinha
É para seus braços generosos que eu corro quando encho o saco de tocar peças complicadas e de me esfalfar em escalas de exercício.
Começo com Segura ele, passo por Rosa, Naquele tempo, Ingênuo e Lamentos para, por fim me deleitar, às vezes com os olhos marejados, com Carinhoso.
Nisso vai uma tarde!
Imortal ao seu modo, Pixinguinha segue ignorado pelos nossos medíocres políticos que sonham com a posteridade nomeando escolas públicas, monumentos e viadutos com seus nomes de família (se você não sabe do que estou falando, visite Salvador!).
Sua obra belíssima encontrou sucesso junto ao público, junto à crítica e principalmente, junto aos intérpretes!
Eles são os verdadeiros elementos sobre os quais se assenta a imortalidade de um compositor.
Isto eu aprendi com Joaquín Rodrigo (compositor do célebre Concerto de Aranjuez).
A idéia imortal sobrevive, por seu apelo estético, prescindindo de ressurreições espirituais ou carnais, na mente dos seus seduzidos.


Salve Pixingunha, agô!


Que sois senão uma alma que arrasta um povo?


Manellis

P.s. Será que não existe um pouco de sadismo das emissoras de rádio e TV em noticiar a prisão conjunta de tanta gente, como na operação furacão, e depois ir anunciando, dia após dia, a liberação fracionada de todos aqueles que gostaríamos que fossem mantidos presos?
Entre prisões e liberações, esta gente acaba mais tempo presa nos engarrafamentos do que nas verdadeiras prisões que merecem!



abril 21, 2007

Viva o povo brasileiro

Um postzinho histriogênico para relaxar!
Se o seu estado não estiver representado, favor colaborar com o setor de etnologia do Morpheus!

1 gaúcho = 1 peão; 2 gaúchos = 1 churrasco; 4 gaúchos = 1 cavalo; 6 gaúchos = 1 centro de tradições gaúchas; 24 gaúchos = 1 Gre-Nal e 2 pelotenses aos beijos, na arquibancada.

1 baiano = alguém genial; 2 baianos = uma final de campeonato de preguiça; 4 baianos = Gil, Caetano, Betânia & Gal; 6 baianos = Cinema Novo; 24 baianos = pelo menos uma micareta.

1 carioca = praia; 2 cariocas = 1 jogo de frescobol; 4 cariocas = uma partida de futevôlei; 6 cariocas = 1 escola de samba; 24 cariocas = 1 barzinho cheio de pessoas que ainda votariam em Brizola, perto de um tiroteio.

1 mineiro = 1 caipirinha; 2 mineiros = 1 prosa rápida sobre política; 4 mineiros = 1 felizardo e 3 invejosos; 6 mineiros = 1 família tradicional; 24 mineiros = pelo menos 1 ministro.

1 paulista = 1 industriário; 2 paulistas = 1 indústria; 4 paulistas = 1 telenovela com pelo menos 1 corno; 6 paulistas = um italiano, um japonês, um português, um turco, um judeu e um baiano; 24 paulistas = 1 fila na porta de um restaurante

1 paraibano = 1 macho; 1 paraibana = idem; 2 paraibanos = 1 cadáver e 1 pistoleiro; 4 paraibanos = um partido de oposição; 6 paraibanos = um partido da situação; 24 paraibanos = 1 zelador, 1 porteiro, 1 construção onde trabalharam todos os outros 22 e 24 rádios de pilha.

1 amazonense = 1 índio; 2 amazonenses = 1 índio e 1 missionário; 4 amazonenses = 2 índios, 1 missionário e um pirata biológico que acaba de contrair malária; 6 amazonenses = 1 cerimônia do Santo Daime; 24 amazonenses = 1 seringal, 2 madeireiras, 1 missionário morto, 3 suspeitos, 10 manifestantes em protesto e 10 americanos num barco achando lindo o silêncio da floresta e das autoridades.

1 pernambucano = 1 rede; 2 pernambucanos = 1 briga de faca; 4 pernambucanos = 4 surfistas atacados por tubarão; 6 pernambucanos = 1 grupo do qual não se deve discordar; 24 pernambucanos = 6 dançarinos de frevo, 6 tocadores de instrumentos de sopro, 6 turistas incautos, 4 velhinhas (duas viúvas ) e 2 velhinhos emocionados assistindo tudo da janela do sobrado.

1 maranhense = 1 intelectual desconhecido; 2 maranhenses = 2 intelectuais desconhecidos; 4 maranhenses = uma antologia de contos; 6 maranhenses = um semanário; 24 maranhenses = uma academia de letras.

1 cearense = 1 cara engraçado; 2 cerarenses = 1 sommelier e um sushiman premiados; 4 cearenses = número mínimo a ser encontrado entre os funcionários de qualquer grande hotel em São Paulo; 6 cearenses = número máximo de pessoas que acham as praias do Ceará realmente bonitas; 24 cearenses = 24 pessoas que parecem ser pernambucanas mas têm bom humor, a cabeça grande e falam português correto (ou quase!).

Reinterpretação de texto de Hugo Bidet publicado no Pasquim

P.S. Neste dia 23 próximo, Pixinguinha faria 110 anos.
Estamos falando de um compositor que é um dos mais grossos ramos ramos da raiz sobre a qual se assenta a música popular brasileira de qualidade (MPBQ); completa 1 ano também o blog do amigo Sicrano onde cheguei um dia por acaso e para onde frequentemente me dirijo em busca de pérolas da MPB. Foi de lá que selecionei este pack de Pixinguinha para os interessados. Se você não conhece, deixe me dizer que invejo a sua ignorância por ela comportar, ainda no futuro, o prazer de conhecer o Bexiguinha, menino bom, influência de Villa-Lobos e único capaz de vencer Vinícius num torneio de pinga!

abril 18, 2007

O luar, o cego e as marés

A medicina exercida no gueto cirúrgico tem seu "quê" de estressante mas, pela oportunidade que oferece aos colegas médicos de interargirem, não deixa de ser um interessante lugar para elucubração filosófica com a particularidade de podermos observar como vão as cabeças de uma parcela, queiram ou não, privilegiadíssima da população: educação formal completa, aprovação em curso de grande concorrência, atividade dentro da profissão escolhida etc.
Apesar de todos estes "privilégios", nota-se entre os médicos, sob o verniz dos anos de estudo adicionais, as mesmas características da população (geral) da qual ela se origina: x% de profissionais competentes, y% de charlatães, z% de idiotas, d% de deficientes mentais, loucos, paranóicos, deprimidos etc.
Por outro lado, temos entre os médicos, o maior índice de pessoas que exercem até o fim da vida a sua primeira opção profissional, o profissional de maior credibilidade técnica junto à população e um dos de maior carga horária de trabalho (e estudo!) semanal etc. Estas últimas características (e mais algumas que eu não vou citar porque sua paciência tem limite) faz a individualidade da profissão médica que simplesmente cai por terra quando médicos, informalmente reunidos, param para conversar antes do início da jornada de trabalho no centro cirúrgico, principalmente na Bahia onde o encadeamento das indolências transforma as covencionais 7:30 da manhã (o horário de início das cirurgias) em desesperantes 8:30 ou 8:45´s.
O tema deste post foi colhido numa destas situações quando, depois de termos discutirmos algumas amenidades, um colega médico brandindo um jornal num misto de raiva e inconformismo, disparou:
- Eu não agüento este cara, este tal de Gilberto Gil; sabem, eu fui vizinho deste bosta! é fui sim, morávamos ali na Roça do Lobo (limite atual entre o Garcia/Politeama e o Vale dos Barris em Salvador) e ele ficava com aquela sanfoninha ou com um violão o dia inteiro! ficava brincando de fazer jingles e falando que ia ser músico, que ia tocar no rádio etc; e como era gordo, inchadinho mesmo! Minha mãe sempre comentava: esse aí não vai dar prá nada, bem faz você, meu filho, que está estudando e um dia vai ser médico. O tempo passou e esse cara se meteu num monte de confusões: foi preso, foi expulso do país, fala um monte de coisa de que ninguém entende, beijou homem na boca, faz umas musiquinhas mais ou menos e continua tocando o mesmo violãozinho de merda que tocava naquela época! Após tudo isto esse cara vira ministro! em dois mandatos! e vive correndo o mundo, e falando em inglês, e francês e numa linguagem, que de tão complicada, só ele mesmo entende.
Será que ninguém se dá conta que esse cara não vale tudo isto?
Agora, tá aqui, o jornal dizendo que ele vai ser a figura mais esperada num super festival na América! (sim, é assim que alguns baianos ainda se referem aos Estados Unidos). Dizem que ele é pioneiro no movimento do copyleft!

Ora, ninguém nem sabe o que é isto; dá prá ver logo que o que tem mesmo é uma bruta falta de criatividade: este nome foi puxado de copyright!
Sabem? eu saco estes golpes de mídia no nascedouro!
- Fim da manifestação -

Um espetáculo, não?
Abriu-se uma janela no tempo/espaço e eu fitei brevemente o manifestante inconformado com uma disposição amável e tolerante: tinha à minha frente um médico de aproximadamente 60 e tantos anos de idade, cabelos (e bigode tipo pincel de barbeiro) pintados de preto na tonalidade "coroa tarado", tentando pôr na cegueira do mundo e na degeneração da sociedade a culpa do ostracismo de sua vida ( e supostamente de sua arte) em oposição ao sucesso de pessoas como aquele "tal" de Gilberto Gil.
O bigode, cinto e sapatos pretos que costuma usar, mesmo com roupas brancas, sublinham fluorescentemente suas freqüentes idiossincrasias escutadas em silente aquiescência pela sempre presente e convicta esposa que o auxilia nas cirurgias.
O episódio tinha tudo para ser esquecido mas não foi; não sei se por variação de voltagem na minha CPU cerebral, foi armazenado à minha revelia e, analisado posteriormente, não sem umas boas risadas internas, levou-me à constatação que finaliza este post:
A genialidade (em qualquer forma) e a mediocridade (mental) são forças absolutamente tirânicas da natureza: não oferecem margem alguma de negociação aos seus escolhidos: o gênio não consegue não ser genial e o medíocre, por sua vez, não consegue se livrar nunca de sua condição de tetraplégico mental. Para onde quer que olhe, o medíocre não enxerga o real e o gênio, por enxergar apenas o surreal (sur, do francês "sobre"), não tem limites: seus projetos e seus feitos não são individualizáveis; o gênio, mesmo parado, está realizando!
Na canção "Luar", Gil cita indiretamente Galileu quando canta: o Luar existe só para ser visto, se a gente não vê, não há!
O nosso amigo revoltado não consegue ver (como aliás, muita gente!) onde pessoas como Gil se mostram geniais; ele é um cego e a genialidade é como o luar: imperceptível, inexistente, capaz apenas de provocar variações involuntárias de humor da mesma forma que a lua faz com as marés!

P.S.
Muitas são sem graça,
Algumas apenas engraçadinhas com prazo de validade.
Pouquíssimas são realmente engraçadas.
Saudades do Morpheus a Nair Belo, em quem a inteligência manifesta sob a forma de humor, representava também uma forma de luar.
P.P.S: Você já imaginou a felicidade daquele que vive com uma mulher que sabe (realmente!) contar piadas?

abril 15, 2007

Paz aos mortais!

É muito freqüente a cobrança de reciprocidade nas relações afetivas.
Comum talvez, seja também a incompreensão com existências das diferentes formas de amar. Num dos fragmentos de suas Pensées, Pascal aparentemente injuriado com cobranças do tipo: Seu celular só dá na caixa! mandou este libelo contra os atormentadores da paz alheia que ainda não entenderam que o desapego é ferramenta indispensável da felicidade:

"...é injusto que se apeguem a mim, embora o façam com prazer e voluntariamente. Eu iludiria aqueles em quem eu despertasse desejo, pois não sou o fim de ninguém e não tenho com o que satisfazê-Ios. Não estou eu pronto a morrer? E assim, o objeto do apego dessas pessoas morrerá. Logo, quando não seria eu culpado por fazer crer numa falsidade, embora eu a adoçasse e acreditasse nela com prazer, e que ela me desse prazer; ainda assim sou culpado de me fazer amar. E se atraio as pessoas para que se apeguem a mim, devo advertir aqueles que estariam prontos a consentir na mentira de que não devem acreditar, qualquer que seja a vantagem que daí me advenha; e, da mesma forma, de que não devem se apegar a mim, pois é preciso que vivam a vida a seus cuidados agradando a Deus ou procurando-o."

Guarde este texto, pode servir-lhe de conforto, arma ou argumento!

abril 13, 2007

Dois pontos ligados por um horizonte.

Ufa!
A semana acabou,
Numa sexta-feira 13!
Se você vai trabalhar sábado,
sinto muito.
Entre delegados e desembargadores presos na operação hurricane,
Bebês esquecidos,
Aumentos auto-concedidos por parlamentares,
E propostas casuísticas que permitem, entre outras coisas, a re-eleição do nosso torneiro eneadigitado por mais cinco anos,
O nosso Brasil segue em frente,
ou melhor, ladeira abaixo!
Como uma reverberação do post sobre o rabino que ficou louco por gravatas,
duas personalidades mundiais ergueram, estes dias, dois pontos capazes de sustentar um varal de ciroulas comtempláveis:

Ponto um:
Dieguito (ex-Diegón) vai para enésima internação hospitalar com direito a todas co-morbidades possíveis. Enquanto isto, nossos vizinhos platinos, pretensos britânicos de ascendência italiana parlantes de español, se mortificam em orações e demonstrações de "apoio" e suporte ao anti-herói. Tal qual um prometeu acorrentado, o Pibe tem seu fígado mordiscado numa velocidade maior que a tolerada pelo herói grego. Prometeu roubou o fogo dos céus, ele quis ser melhor que o "Rei" chutando apenas com uma perna.
A providência parece manter ainda uma certa intolerância para com impostores!

Ponto dois:
Keith Richards declara ter simplesmente "cheirado" as cinzas do pai!
Não precisava nem comentar mas, va lá:
Ele foi certa vez descrito como o ser humano mais elegantemente destruído da breve história do Homo sapiens neste breve planeta. Criador de uma guitarra sui generis e assunto de teses musicais e... toxicológicas (!) o guitar hero dos Stones é um exemplo de que nem todos sucumbem às drogas. O vício tem nele um herói de 64 anos capaz de se autoironizar e continuar criando riffs numa idade em que muito monge já está falando com Deus!

Administrar a perda de liberdade inerente ao consumo de drogas de forma a se elevar a estados alterados de consciência é um desejo atávico da humanidade que infelizmente só se mostra acessível a eleitos.
Se você é um cartesiano abstêmio, apologista da higiene farmacológica, talvez devesse incorporar ao seu discurso, os paradoxais exemplos de Keith, Niemeyer (com seus maços de cigarro aos 100 anos) , Vinícius ( com seus Black & Whites) e Castañeda e seu mescal.
A manutenção da lucidez
é a única esperança de liberdade para gente comum.
Genialidade e hábitos auto-destrutivos precisam, para co-existir, de benção genética!
E aí,
Vai arriscar?
Para cada Keith, muitos Hendrix mortos
Para cada Niemeyer, outro tanto de Humphrey Bogarts
Para cada Vinícius, uma legião de Rauls
Acompanhada de Syd Barrets cantando "...how I wish you were here..."
Start me up!
Melhor servir um Porto e ouvir Miles em A Kind of Blue.
Deixe que estes inocentes Prometeus busquem o fogo que iluminará a sua vida,
Foi para isto que foram criados!

abril 12, 2007

Entre a letra e a música


Se letra não é poesia e poesia é música, chegamos a simplória conclusão que a poesia é a interseção entre(olha o pleonasmo) a letra e a música.



PASSAGEM (entre a letra e a música)


Eu apenas ia

Enquanto a terra girava


Atrás da nuvem

A lua estava

Viva, morta, cansada


No meu passo eu passava

E a lua ficava

Atrás

Do alto, do circo

Do rio, da garça

Da casa locada, da rua


Na minha frente

Antes dos pensamentos

É lá que a lua estava

Depois do sono

Do sonho,

Da noite


Era cheia

Cheia estava

Dos olhos, do vento

Dos sonhos, da noite


No meu passo eu ia

Passando acordado

Na maré vazia,

Na manhã,

Na lua

Do novo dia.

Já era dia.

abril 11, 2007

Stoa à toa

O filme "Gladiador" de Ridley Scott foi um blockbuster mundial e chamou atenção de muita gente sobre a antiguidade clássica e seus cacoetes. Aposto que você assistiu e que deve ter atentado para o início quando o exército romano se confronta com bárbaros sob o comando burocrático do imperador ancião Marco Aurélio. Sua participação na trama é curta mas marcante por mostrar um soberano sereno perante o fim da vida num período que coincidiu com os últimos estertores da escola estóica (século II da nossa era), a última grande corrente filosófica prevalente antes da emergência do cristianismo. Marco Aurélio, ele mesmo, era também filósofo e, ao contrário de nosso Fernandinho Cardoso, deixou uma grande contribuição para o mundo das idéias através de aforismos e raciocínios compilados sob o título de "Meditações" que reaparece nas prateleiras das livrarias como: "O guia do imperador". Trata-se de um texto clássico de leitura obrigatória, pelo seu conteúdo e atualidade, tanto para aqueles que desejam liderar como para os que desejam entender a liderança.
À parte estes pontos, o livro é um primor de concisão ideológica e raciocínio filosófico, não perca, compre, leia e deleite-se!
Break para uma ruminação: Alguns livros nos fornecem conteúdo outros, entretenimento e outros, inusitadamente, fazem papel de arrumadeira ou de decorador; no último grupo eu encaixaria com louvor o livro de Luc Ferry, recomendado há alguns posts atrás. A análise desapaixonada do curso da história das idéias é feito de forma clara e concisa ao mesmo tempo em que nos permite entender como cada ponto desta estrada influenciou o seu entorno cronológico no campo das artes, ciências, literatura e política. No campo político existe uma pequena particularidade: soberanos de plantão, futuros tiranos e anarquistas, freqüentemente recorrem ao arquivo ideológico da filosofia para buscar inspiração e estofo ideológico para seus projetos seja usando as idéias in natura ou através de interpretações distorcidas. O livro de Luc Ferry apesar de um título simplório (Aprender a viver) é um texto da mais alta recomendabilidade para quem quer se situar no mundo das idéias principalmente por ter sido escrito por um filósofo com 30 anos de estrada e de amor ao aspecto prático da filosofia. Se você é portador de uma boa cultura nesta área, o livro arrumará o quebra-cabeça e diminuirá a confusão com a cronologia, particularidades e influências no edifício das idéias. Costumo dizer que um bom livro merece no mínimo duas leituras e é justamente após a segunda que volto a abordar este texto já citado anteriormente.
Notas de esclarecimento:
Stoa: Pórtico ou varanda sob os quais os primeiros estóicos se reuniam para filosofar.
Estoicismo (in Houaiss): Doutrina fundada por Zenão de Cício (335-264a.C.), e desenvolvida por várias gerações de filósofos, que se caracteriza por uma ética em que a imperturbalidade, a estirpação das paixões e a aceitação resignada do destino, são as marcas fundamentais do homem sábio, o único apto a experimentar a verdadeira felicidade [O estoicismo exerceu profunda influência na ética cristã.]
2 Derivação: por extensão de sentido. rigidez de princípios morais
3 Derivação: por extensão de sentido. resignação diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio

abril 08, 2007

Epílogo etimológico

Paixão: Caminho
Compaixão: Caminhar junto
Empatia: Ver-se no mesmo caminho
Simpatia: Achar o caminho de outrem parecido ao seu
Apatia: Não ter para onde ir
Patético: Mover-se sem objetivo
Passeio: Pateo: Caminho lúdico
Passear: Trilhar o lúdico que lhe pertence
Marchar: Caminhar com Marte
Martírio: Sacrifício exemplar na luta por um objetivo
Peregrino: Per el agro: aquele que cruza os campos
Romeiro: Caipira pira pora
Cristianismo secular: Filosofia daquela pessoa super gente boa mas que, só prá fazer charme, diz que é ateu!

abril 05, 2007

Pequena pseudo-ficção pascalina

Vésperas da páscoa.
Pessach, como diriam os donos originais da festa.
Vamos comemorar esta colcha de retalhos alegóricos!
Momento de comemorar a fuga do Egito e o fim do cativeiro.
Ninguém, na época, poderia imaginar que aquela viagem de volta à terra prometida seria marcada pelo maravilhoso drible de evasão auxiliado pela amplitude das marés do mar vermelho.
Moses posou de mago e assistiu, pelo retrovisor, o afogamento das engravatadas tropas do faraó.
O ovo ganhava status de símbolo de renascimento, nova vida, libertação etc.
O tempo seguiu e anos após, numa sacada de marketing que entrou para história, Che Cristo, após se informar devidamente nos livros da época, escolheu a porta certa por onde estava prevista a entrada do Messias e, em cima de um jeguinho e com ramos de palmeira na mão, adentrou Jerusalém criando um link de hiperhistória entre a homepage do judaísmo e a do futuro cristianismo.
Uma pongada na fama alheia que inspira marketeiros de todos os naipes até hoje!

Voltando no tempo dentro do tema, ao escapar de Herodes, citado inclusive por Vinícius como exemplo de pedagogo, o nosso Immanuel se habilitou para viver uma infância feliz no seio da família que abandonaria aos 12 anos para, após um período de treinamento político e de marketing no atual Afeganistão (Nãoseiondistão, como era conhecido na época), voltar trintão, totalmente de cabeça feita.
Apoteose, prisão, condenação e execução; tudo em menos de uma semana!
Trama dos vendedores de oferendas em lobby comercial.
Aqui, "Homo, lobby homini!"
A crucifixão ocorreria na sexta-feira seguinte ao domingo da estréia. Uma livre opção pela martirização fundadora do que viria a ser conhecido como sua "Paixão".
Há algo de engraçado sobre o fato de usarmos o termo paixão para nos referirmos ao caminho (trajetória) de Jesus. A paixão, no caso, vem de "pathos", termo grego para caminho e que está na origem de palavras como o nosso "passeio" (pateo). Hoje em dia, quando se vai muito pouco aos cultos católicos, imagino quantas pessoas se perguntam sobre o sentido do termo "Paixão", tão repetido nesta época do ano.
No curto espaço de tempo que teve entre o levantamento da cruz e a morte por asfixia, típica do método, num exemplo que deveria ser seguido por presidentes em segundo mandato, Jesus nomeou seu ministério e escalou as regiões de atuação. João, o apocalíptico, foi encarregado de cuidar de sua Mãe e pregar na anatólia, Tiago foi despachado para a Espanha, Pedro foi nomeado sucessor e por aí vai. O amigo Judas foi escolhido e posou de traidor levantando 30 moedas para a fundação do primeiro comitê que foi organizado após uma simulação de enforcamento que Hollywood copia até hoje.
O que porém ninguém sabia era que Jesus era craque no mergulho de apnéia (era esta a sua modalidade de pesca) e os romanos foram enganados no teste do espelhinho debaixo do nariz que era o único teste de morte cerebral da época. Seus órgãos não foram aproveitados para transplante porque ele não tinha carteirinha de doador.
Três dias em jejum, um balde de tinta vermelha e uma vela foi tudo que foi necessário para pintar o santo sudário na escuridão da tumba que deveria guardar seu corpo. Quando o sudário ficou pronto, ele tocou a campanhia e a porta da tumba foi aberta pelo pessoal de apoio. O sudário foi xerocado com uma tinta vagabunda (que se apagaria em alguns anos) e vendido aos milhares em feiras por todo oriente criando a figura mercadológica da camiseta promocional.
Relatos de testemunhas dão conta que ele saiu da tumba, passou na barbearia mais próxima, raspou a barba e cortou o cabelo; após algum tempo desaparecido e bem mais gordo, voltou a Jerusalém onde fundou a marcenaria "Pau Santo" que prosperou tendo como "hit" de vendas um modelo de mesa de jantar para treze pessoas.
Acabava de ser criada a 2ª das religiões monoteístas do deserto ( a terceira seria o islamismo).
Um sucesso que há dois mil anos toca nas rádios do ocidente!
A receita não é muito complicada: pegue um pouco de imortalidade da alma (hindu) e some a um pouco de monoteísmo local, adapte alguns rituais consagrados pelo público e crítica, reduza custos eliminando oferendas caras, apague qualquer vestígio de fatalismo para dar a ilusão de livre arbítrio, crie o pecado a partir de recomendações claras mas que deixem também uma certa margem para o mal-entendido, semeie algum material para polêmica como por exemplo, a associação entre virgindade e gravidez e por fim, coloque a fé acima da razão aproveitando-se do fato de que é muito mais fácil acreditar do que entender e pronto, nasce uma religião!
Se a liberdade é uma condenação, como sugeriu Sartre, a culpa e o remorso são a libertação!
Esta equação, que de tão óbvia parece uma lei da natureza, foi o mote mais poderosoj á imaginado. A culpa imaginada e as providências a serem tomadas no processo de expiação dos pecados ocupariam o tempo dos fiéis de modo efetivo deixando um pequeno espaço para a caça a novos adeptos. Uma mão na roda para soberanos incompetentes.
O tempo passou e anos após apareceria Paulo, que convertido (o cara era um gentio pouco gentil), adentra a Grécia e, após escapar de vários linchamentos, galvaniza o "caminho" da nova religião (religare, religação). Os gregos, que tinham a filosofia por religião, aderiram aos poucos à nova moda e fizeram de filósofos à margem do mercado de trabalho, os primeiros sacerdotes; estes "padres" trouxeram seu léxico para o cristianismo: igreja significa assembléia e católico, universal, em grego. Cristo quer dizer ungido, paixão quer dizer caminho e so on.
Reunidos em catacumbas, disputando com leões ou crucificados de cabeça para baixo, a nova turma seguia em frente mesmo com numerosas baixas.
Os cristãos pareciam tão estranhos aos romanos que estes pensavam ser aqueles uma destas imandades mórbidas que temos hoje em dia tal era ênfase na "outra vida".
A vida passava rápido numa época em que 100% das otites viravam meningites fatais! Poderia ser um bom negócio investir então na "próxima vida".
A moda seguiu marginalizada mas, não sem percalços, começou a pegar prá valer 300 e tantos anos depois quando Constantino, que não estava nada satisfeito com a idéia de compartilhar o vastíssimo império romano com mais 3 associados, caiu na lábia de Lactâncio, um velhinho beato que fazia vezes de conselheiro, e assumiu o slogan "Um só Deus, Um só imperador". Derrotou seus parceiros em guerras seguidas e começou a construir igrejas, unificou o império e costurou definitivamente o cristianismo na história do ocidente.
Numa espécie de plástica biográfica para desvilanizar a nova Roma católica, Pilatos foi transformado em juiz imparcial e a culpa da morte de Jesus passou a recair sobre os judeus que afinal de contas, do ponto de vista mercadológico, são concorrentes.
Um pouco mais de duzentos anos após Constantino, Roma caía aos pés de Alarico e a gente entrou com o pé esquerdo na da idade mérdia da qual só saímos vencedores com um gol na prorrogação marcado pelos mouros andaluzes. Tudo parecia ir bem quando, previsivelmente, os mouros entraram numa dilaceração interna típica de civilizações que já chegaram ao apogeu. A falência do império mouro por sua vez, acabou permitindo um golden goal de Fernando e Isabela no cerco a Granada no final da partida que o catolicismo obscurantista estava para perder de lavada para o protestantismo. A idade mérdia morreu pouco tempo depois mas permaneceu entre nós sob a forma do fantasma da inquisição.
E aí... mais porcaria: tome-lhe fogueira, queimava-se livros, mulheres, vizinhos chatos, judeus e gatos pretos. Tudo de ruim não fosse a volta de Colombo com a batata, o tomate, o amendoim, o tabaco e...o chocolate!
O mesmo Colombo que um dia botou o ovo em pé!
O ovo simbólico da libertação, que em nossos dias passa a ser feito de chocolate
O chocolate que um dia recebeu o nome de "teobroma": o alimento dos deuses!

Exatamente neste ponto do post o ovo encontra o chocolate e toda a baboseira acima escrita deságua na experiência gustativa que preenche as reminiscências de tantos quantos tiveram infâncias felizes.

Os caminhos e associações poderiam nos levar onde quer que quiséssemos ir mas, infelizmente, o post tem que terminar e, creia-me, é melhor terminar algo em chocolate do que em pizza como eu já estou enjoado de ver acontecer!
Morpheus se ausentará pelo breve recesso que se aproxima aproveitando para deixar os melhores votos de uma feliz páscoa a todos habitués deste despretensioso blog.
Que a felicidade vos abençoe com bons vinhos, maravilhosos carneiros, bacalhaus devidamente dessalgados e muito, muito chocolate!

P.S. segue anexa ao link a receita do Bolo Búlgaro testada e aprovada pela MAGRO (Morpheus association for gastronomic research and orientation)

Schadenfreude e a fuga dos pingüins

Você sabe o que é Schadenfreude?
Trata-se de uma palavra alemã cuja definição poderia incluir uma nota de rodapé maior que poema épico em sânscrito (Upanishads). Esta palavrinha, sem equivalente em português, significa: prazer provocado pela desgraça alheia!
Estes germânicos são fantásticos!
Uma palavra seguida de um tratado implícito de antropologia.

Pois então... o Brasil, sobretudo o Brasil canalha, entrou em Schadenfreude coletivo (ou seria SchadenJung?) ao saber que o rabino de cabelo Chanel vai compartilhar com a bispa In-sônia um registro fotográfico na polícia da Flórida.
Dia de sorriso e regozijo para padres pedófilos, políticos corruptos e anti-semitas de plantão.
A natureza humana se expressa então em negrito, sublinhada e coberta de marca-texto fluorescente.
Conheço muita gente que admite explicitamente não conseguir conter o riso quando vê alguém levar um tombo; gente que vai mais além e diz: quanto mais velho, mais bem-vestido, mais posudo e mais sujo for o tombo melhor!
O tombo do rabino, no meu entender, se constitui num delicioso ponto de reflexão sobre temas que vão muito além do aspecto factual do ocorrido:
- A tecnologia x o engodo da palavra empenhada
- A obsessão contida x efeito liberador de drogas psicoativas
- Memória x percepção
- Drogas psicoativas x lucidez
- Lucidez x felicidade
- O homem como conjunto de suas obsessões (Nelson Rodrigues)
Você achou o seu preferido?
Analise o episódio das gravatas com cuidado, se possível com o auxílio do pequeno texto “Somente o necessário” publicado a alguns dias.
Diagnostique-se!
Você é humano ou sobre-humano?
Você se considera realmente livre quando está escolhendo algo sobre o que pensar?
Que peso terão a vaidade, o orgulho, e eventuais drogas consumidas, o tédio, a falta de sono, da ignorância, as frustrações e os seus esqueletos no armário sobre o seu pensamento imediatamente a seguir?
Pois é, quando todo este zoológico (me desculpe se não incluí algum bicho exclusivo do seu!)
percebe que o vigia cochilou, é só assistir à fuga dos pingüins (DVD Madagascar) para saber o que vai acontecer! Reputações ilibadas vão ao chão num piscar de olhos e a galeria de exemplos de conduta sofre mais uma baixa neste mundo tão carente de paredes brancas. Na esteira desta onda, oportunistas opiniáticos proporão mal-entendidos disfarçados de análises profundas numa inegável contribuição à entropia do universo.
Lamento pelo rabino e pela comunidade que ele representa; mais ainda por ele não ter contado com um diagnóstico preciso de sua condição, propensa que estava, ao tipo de imbróglio no qual se envolveu.

O português não tem correlato para Schadenfreude mas dois exemplos muito bons são: a frase de Tom Jobim, que dizia que no Brasil, o sucesso é ofensa pessoal! e o que me foi contado por um amigo mineiro numa piada mais ou menos assim:
Se se descobre que um vizinho da rua comprou uma Mercedes zero, o paulista diz logo: putz meu! vou comprar uma também! o carioca diz: Ih! cara, vou ver se descolo uma emprestadinha deste mané! e o mineirinho diz rangendo os dentes: Tomara que bata!
Cê já pensou se mineiro fosse bom de macumba?
Ainda bem que os pelés do assunto são os baianos que freqüentemente estão com muita preguiça, até mesmo para querer algo dos outros!

Uma reflexão final: o consumo drogas psicoativas é, sem exceção, uma renúncia, à autodeterminação. Se você praticar esta renúncia em favor de um tratamento sério, tudo bem, do contrário considere-se um infeliz prisioneiro.
O nosso rabino não percebeu a evasão da liberdade, que ocorria debaixo dos seu nariz, promovida pelas medicações/problemas neuropsiquícos e enforcou sua biografia com gravatas não pagas num episódio cuja compreensão exige muito mais que um paroxismo de perplexidade.

Schadenfreude para vocês!

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