janeiro 31, 2008

Momus arrivandus et morpheus partindus

Amigos, visitantes, lurkers, Morpheus se afastará temporariamente em paradeiro desconhecido para retornar apenas após o período momesco. Para os amigos e apreciadores nostálgicos das antigas canções de carnaval deixarei este vídeo com a canção "Bloco do Prazer" em versão instrumental para violão solo.
Uma gostosura de tocar!
Uma modesta homenagem a um grande amigo da língua portuguesa que marcou indelevelmente os traços de minhas preferências musicais.



Bem, e se você curte a arte mpbística do grande Moraes Moreira (física e musical!) recomendo-lhe o livro:

A história dos novos baianos e outros versos
(resenha a partir do site da livraria Saraiva)
Uma boa dica de leitura leve e rica para os dias de carnaval. Leia e entenda porque morfeus tem crises epilépticas quando é forçado a ouvir a nova geração de letras compostas por vogais na concentração mínima de 75%!
Abaixo o eôêoaêaaê íó íóooo iô iôiô iôôô uh uh uh ah ah ah tchan tchan ê êô...

Não é à toa o crescente interesse das novas gerações pela música e pela filosofia do lendário grupo NOVOS BAIANOS, que revolucionou a música dos anos 70. Esta é uma forte influência que a juventude brasileira não quer ou pelo menos não deve perder. Com talento e ousadia, eles souberam como ninguém preencher o vazio que se instalava no país naquele momento onde a repressão, a censura, o exílio e até a tortura eram práticas adotadas pelo regime vigente.
E para eternizar toda essa história, Moraes Moreira, um dos fundadores do grupo, lança pela Editora Língua Geral A história dos novos baianos e outros versos, que narra toda sua trajetória artística.
"Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor", cantavam com fé, demonstrando uma brasilidade universal, totalmente afinada com os anseios dos jovens de outros países. Músicos, poetas, cantores, compositores e atores exibiam sua arte reinventando um Brasil que João Gilberto sonhava e que eles realizavam.



NÃO SÓ TOCAR, MAS TAMBÉM MORAR JUNTOS! Essa era uma das condições para ser um Novo Baiano. Nenhum outro grupo foi tão fundo nessa experiência de levar uma vida em comum e ao mesmo tempo celebrar duas grandes paixões nacionais: a música e o futebol. Além de fundados, Moraes sem dúvida é um dos principais craques desse time, o que lhe confere autoridade para contar neste seu livro a verdadeira saga vivida intensamente junto aos seus parceiros.
Toda a história foi escrita em redondilhas e soma 966 versos que obedecem aos rigores de métrica e rimas, observadas pela boa Literatura de Cordel, com ilustrações do artista plástico Romero Cavalcanti.
Em "Outros versos" Moreira viaja pelos grandes sucessos de sua carreira solo, contando passagens saborosas vividas por ele, por seus excelentes parceiros, músicos e poetas. Existe ainda um lado inédito que atesta a evolução deste artista, desde o momento que se aventurou no campo da palavra escrita.
Para quem gosta de áudiobooks há um CD onde o bom baiano narra toda a história, embalado por uma bela trilha sonora, que nos traz os melhores momentos do instrumental dos Novos Baianos. Com certeza esse livro chega em boa hora, quando o disco ACABOU CHORARE é escolhido pela conceituada revista ROLLING STONE como o melhor, entre os cem melhores da Música Brasileira de todos os tempos. Este é um sinal de que o reconhecimento tarda, mas não falha. Para finalizar, como ele mesmo diz, levem para casa Moraes Moreira Nu Papel.

Aqui vai um linkzinho para baixar um som das antigas do carnaval da Bahia:
Som na caixa Armando!

E prá finalizar, alguns sites para ficar zapeando no browser quando você, que tem 80 gigas de música no seu iPod, cansar de passar dias inteiros ouvindo versões customizadas dos 3 ou 4 sucessos que vão "bombar" neste carnaval baiano!

Vídeos humorísticos (Oh! Jarditriste por quê estás tão neira?...)
Funny or die
Super Deluxe
College Humour

Vídeos médicos (Para você que não está de plantão mas torceu o pé)
Medical video repository

Faça você mesmo (Prá você que além de não saber fazer nada, também não tem tempo nenhum)
Vídeos intrutivos de 5 minutos

Pornô (para você que vai dar plantão como onanista anônimo!)
Porntube
Youporn

Gastronômicos (pra você que deu folga para a cozinheira!)
Foodtube
Wine and Food Tube

Para Skatistas, Snowboarders, Surfistas e Bikers
Shre or die

Religioso (prá você que é beato ou que conseguiu levar uma evangélica para sua alcova!)
Godtube

Vídeos comerciais
Visit4info

Cinema
The trailer mash (reedições e mash ups de trailers)

Gamers (tudo sobre games)
Gameklip

Agregadores (youtubes alternativos)
Videolog
Weshow
Portacurtas

janeiro 30, 2008

Jajá e a amnésia

Não faz muito tempo, a tecnologia não estava tão presente nas salas de cirurgia como hoje; os cirurgiões tampouco tinham a sua disposição a compreensão e as técnicas modernas que temos agora. Quem tinha azia incurável estava condenado a perder o estômago; o câncer de mama era tratado invariavelmente com mastectomias que arrancavam não só a mama mas também os músculos peitorais mutilando as pacientes em nome de uma cura possível que não acontecia nunca porque a quimioterapia, pouco eficaz, era usada para tratar tumores em estado mais avançado quando do diagnóstico. Data também destas neo-priscas eras a presença insólita de um clínico na sala de cirurgia:
"O” cardiologista!
Pongados na carona dada pelo destaque televisivo que os anos 70 deram aos avanços na cirurgia cardiológica, estes aliens pululavam pelos centros cirúrgicos com seus monitores cardioscópicos e suas mesinhas
forradas de compressas onde repousavam seringas com medicações de cujos segredos se sentiam guardiães. Chegavam tarde (após o início da cirurgia) e saíam antes de acabar não sem antes darem um pulinho no quarto do paciente para avisarem à família que apesar de “alguns probleminhas” tudo correra bem graças ao uso do seu infalível monitor e das suas seringas milagrosas; ah, e antes que eu me esqueça, aqui está a fatura dos meus honorários, certamente modestos, em função da importância da minha tarefa desempenhada! A regra de chegar depois do início e sair antes do fim era quebrada apenas e tão somente nas circunstâncias em que o paciente envolvido era, digamos assim, RICO!
Nestas ocasiões, chegavam antes mesmo da transferência ao centro cirúrgico, beijavam a família, toda faziam cara de freira e se despediam dizendo: “farei tudo que estiver ao meu alcance para que vocês tenham o querido – nome ou apelido familiar do paciente – de volta! Fechavam a porta e iam para o centro cirúrgico com seu monitorzinho debaixo do braço, imaginando a conta que deixariam após aquela breve manhã de trabalho.
Remanescentes desta época de pouca tecnologia e muita embromação ainda são vistos vez por outra, estetoscópios no pescoço, “acompanhando” reais ou supostos abastados pacientes. Já chegam se justificando: “Bem pessoal, eu só estou aqui porque o paciente não admitiria que fosse de outra maneira...” e, bem mais sinceros que antigamente, vão finalizando: “...assim que ele dormir eu deixo vocês em paz!” Realmente, cumprem o prometido e se vão para só retornar no pós-operatório quando se postarão impávidos frente ao paciente operado esperando que o remorso desencadeie a gratidão transmutada em presentes, honorários ou outra moeda aceita.
Compõem esta turma, canastrões queridos (realmente queridos) e outros nem tanto. Durante um encontro recente com um membro do segundo grupo, num vestiário de centro cirúrgico, me ocorreu de pregar-lhe uma peça: troquei-me rápido e com a equipe já preparada para iniciar a cirurgia, aguardando só o beija-mão do “clínico” em questão, administrei uma dose amnesiante de uma medicação obrigatória na indução anestésica. A medicação fez efeito antes da chegada em sala do embaixador clínico das cordialidades interesseiras. Ele chegou cumprimentou todos, auscultou o paciente (!), esperou a indução anestésica e se foi numa nuvem de poeira!
Pouco tempo depois encontrei-o na cafeteria do hospital extremamente indignado:
- Veja só, aquele fdp para quem tive o cuidado de fazer mesuras interrompendo minha manhã de trabalho, disse que não se lembra de ter me visto na sala de cirurgia naquele dia, quanta ingratidão!
Praguejou mais um pouco e, como de costume, partiu numa nuvem de poeira...
Por incrível que pareça, o episódio se repetiu mais uma vez e com a mesma formatação, um mês depois só que desta vez, o nosso amigo mostrou-se interessado em saber de mim se eu teria alguma explicação para esta amnésia que ameaçava tornar-se epidêmica. Sem que resposta melhor me ocorresse, botei a culpa nos anestésicos inalatórios usados após o início da anestesia na esperança de finalizar a aborrecida conversa!
Ele lamentou o apagamento de memórias tão importantes e... partiu numa nuvem de poeira!
Passadas algumas semaninhas, eis que me encontro em uma tarde de consultas pré-anestésicas quando um deputado influente do partido governista ligado à oligarquia local se apresenta para consultar-se visando uma cirurgia de retirada da próstata. Mostrou-se cordial e cooperativo respondendo pronta e gentilmente a todas as questões apresentadas; antes de encerrarmos a entrevista ele me revelou que era paciente do cardiologista Dr. Jajá Pastapura (sim, o mesmo de antes!) e me saiu com esta:
Sabe Dr., o Dr. Pastapura dissse-me que eu estou bem mas que por via das dúvidas ele acompanhará a minha indução anestésica para certificar-se de que não serão utilizados anestésicos inalatórios que possam ser prejudiciais à minha saúde!
Pensei comigo: Jajá não tem jeito!
No dia da cirurgia do deputado, lá estava Jajá.
Só faltou entrar de terno no centro cirúrgico!
Da minha parte, repeti o script: corri antes dele e fiz a medicação amnesiante.
Jajá chegou, beijou o deputado, contou umas piadas, elogiou o governo e me deixou realizar a anestesia que para seu (injustificado) regozijo, seria uma raquianestesia: ou seja, nada de anestésicos inalatórios!
Como planejado, o deputado não se lembrou de Jajá que por sua vez soube andar indignado a minha procura para discutirmos mais aprofundadamente "outras causa possíveis" de amnésia no pré-operatório imediato!

P.S. A croniqueta acima tem caráter totalmente ficcional. qualquer semelhança com pessoas ou instituições vivas ou mortas terá sido mera e involuntária coincidência!

janeiro 23, 2008

Fronteiras do Pensamento em Salvador

O ano era 2006 e a então Compahia de Petróleo do Sul do Brasil engendrou um projeto no mínimo, muito interessante: um ciclo de palestras semanais a ocorrerem ao longo de 2007 contando com a presença de eminentes nomes da cultura mundial. Os temas seriam os mais diversos possíveis: filosofia, arte, arquitetura, educação etc.
Foi um sucesso!
Referendado pelas principais universidades gaúchas e com enorme repercussão na sociedade do estado.
Compreensivelmente (!), o evento não foi convenientemente destacado pela imprensa do eixo Rio-São Paulo, apesar de alguns palestrantes convidados terem sido entrevistados por um ou outro jornal.
Gente do peso de Luc Ferry (o Mick Jagger da filosofia) e Camile Paglia (o Pit Bull feminista) marcaram presença com palestras instigantes num programa que ao custo de R$ 3 milhões fermentou a inteligência da audiência num evento cujas repercussões mais visíveis ainda estão, agora após o fim deste 1º ano, ainda nos seus estágios iniciais de gestação. Como se diz na Bahia, o pessoal foi "emprenhado" pelos ouvidos, agora resta esperar o parto!
A excelente notícia é que a Copesul foi comprada pela Braskem que resolveu trazer, neste alvissareiro 2008, o ciclo de palestras para sua terra natal: Salvador
Neste 2008, dois dos pólos de maior identidade cultural do país (Bahia e Rio Grande do Sul)serão privilegiados por uma programação com alto potencial de estímulo intelectual.
Tudo isto a partir de março, quando já estaremos sóbrios após a narcose do carnaval!
Veja abaixo o comercial da edição 2008 do Fronteiras do Pensamento e cogite seriamente a possibilidade de compor, com mais 1499 pessoas, a audiência deste ciclo de palestras que promete ser uma verdadeira lufada de oxigênio puro no (in)consciente coletivo da baianidade.
Abaixo do vídeo, um pequeno texto (textículo!) sobre a assagem de Luc Ferry pelo ciclo de palestras do ano passado

Luc Ferry encanta o público na abertura do Fronteiras

por Elmar Bones

O filósofo Luc Ferry encantou o público na abertura do seminário Fronteiras do Pensamento, na noite desta terça, 20, no salão de atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.

Ele dividiu a cena com o ex-ministro da Educação do Brasil, Paulo Renato de Souza, o outro palestrante da noite. O francês falou pouco mais de uma hora para um auditório com mais de 1.200 pessoas, de tal maneira atentas e concentradas que se podia ouvir a respiração do vizinho ao lado.

O ex-ministro da Educação da França demonstrou seu talento de professor, falando de filosofia de um modo tão articulado e simples que qualquer um podia entender. Não disse novidade para quem leu, pelo menos, o mais famoso de seus livros (Aprender a Viver – Filosofia para os Novos Tempos) mas atendeu plenamente ao que se espera desse ciclo de altos estudos que se iniciou com sua palestra. Foi claro, didático, sem deixar de ser instigante. Foi entusiasticamente aplaudido ao final.

Ferry fugiu ao tema que lhe foi proposto – As transformações no mundo contemporâneo os novos significados da educação - e recusou também os rótulos convencionais atribuídos à filosofia. "Nas escolas secundárias da França ainda se diz que a filosofia serve para aprender a pensar, para reflexões, mas a filosofia não tem nada a ver com isso", disse na introdução. Para ele, a filosofia, assim como a religião, tem a ver com a salvação dos homens, com a libertação dos medos que os impedem de ter uma "vida boa", livre e serena. "Todas as grandes filosofias, como as grandes religiões, são doutrinas de salvação", afirmou. Hoje, segundo ele, nenhuma delas dá respostas adequadas aos desafios do presente, marcado pelo individualismo e pelo desgaste dos valores humanistas. Daí a necessidade de um novo caminho, uma "espiritualidade laica", equidistante das ilusões metafísicas da religião e do niilismo radical a que levou o racionalismo. Um "humanismo secular", em outras palavras. Enfim, uma bela introdução para a leitura de seus livros.
Eis uma síntese de sua conferência:
Filosofias, como religiões, são doutrinas da salvação. A religião busca a salvação em Deus, no outro, o ente superior. A filosofia é arrogante: eu posso me salvar. Por isso Santo Agostinho dizia que os filósofos são soberbos, confiam em si para salvar-se.
Tanto num quanto noutro caminho, trata-se de vencer os medos que impedem que vivamos livres e serenos.
Como superar os medos? É a primeira pergunta da filosofia. Ajudar o homem a salvar-se dos medos, é o seu sentido. São muitos os medos, desde os medos sociais (medo de falar em público), os medos fóbicos (de ratos, de lugares fechados) até o fundamental: o medo da morte. Os outros podemos evitar, contornar. A morte é incontornável, sem superar o medo dela, não há vida boa. Não é só o medo da própria morte. É a morte do filho, da mãe, é o cuidado com o filho deficiente o que mais preocupa. O medo da morte não é egoísta. A morte é tudo o que não volta, o irremediável. O escritor Edgar Allan Poe disse melhor isso num poema, O Corvo. O corvo é a morte e ele só repete:"Nunca mais, nunca mais".
Os estóicos por exemplo diziam que para vencer o medo da morte é preciso ajustar-se à ordem natural. O cosmos é um todo harmônico onde cada coisa, por ínfima que seja, tem o seu lugar. Encontrar o seu lugar é o que basta para a serenidade, a liberdade. O mestre de Zenão mandava que ele arrastasse um peixe morto pelas ruas, para que ele se libertasse dos preconceitos e aprendesse a enxergar a ordem natural do cosmos. Se você se tornar um pequeno pedaço do cosmos, perfeitamente integrado à sua ordem que é divina e perfeita, estará vencido não só o medo, como a própria morte.
Os gregos tinham outras formas de tentar vencer a morte. Ter filhos era uma delas, não muito eficiente, pois além de não evitar a própria morte, acrescentava o medo da morte do filho. A busca da glória na morte heróica foi outro caminho. Perpetuar-se na história como Aquiles na Guerra de Tróia.
O estoicismo foi uma filosofia popular e tem pontos em comum com o budismo. Ambos consideravam as duas fontes principais de medo o apego ao passado e a ânsia do futuro. Elas impedem que se viva o presente, que é a verdadeira eternidade.
A religião católica venceu os gregos com a idéia da encarnação. O logos tornou-se carne. Um homem, Cristo, indicando o caminho da salvação. Já não é mais a razão, é questão de fé. E o caminho é extremamente atraente: quem o seguir vai reencontrar em corpo e alma todos o seus entes queridos e ele próprio terá vencido a morte, porque a vida é só uma passagem.
Hoje nem as respostas dos estóicos nem da religião católica são as de que precisamos. Precisamos de uma "espiritualidade laica" para encontrar as respostas que a filosofia pode dar.

Luc Ferry: Amor, lei e cultura

por Naira Hofmeister

Partindo da tradição estóica – uma das vertentes da filosofia grega – Luc Ferry transitou por temas caros aos clássicos, como o Cosmos, o Logos e o Divino, contextualizando sua afirmação de que a filosofia é mais eficiente para a 'salvação' do que a própria religião. Em comum as duas têm como objeto de contemplação, o divino.
"Mas no caso dos gregos, esse divino era a ordem harmônica e perfeita do cosmos, algo que jamais poderia ser personificado em alguém, como fizeram os cristãos". E como paradigma maior, a vitória sobre a morte para atingir uma existência feliz, para atingir a salvação.
Ferry explicou que é o medo da morte que nos afasta da Boa Vida, e ambas as correntes – religião e filosofia – têm como objetivo atingir a salvação, superando esse temor. "Só com serenidade podemos combater o pânico da morte, do deixar de existir".
Segundo a tradição clássica, essa vitória sobre a morte se daria através de exercícios cotidianos de ajustamento com esse divino, algo muito similar, segundo o próprio filósofo, com o que pregam os ecologistas: "entrar em sintonia com a natureza".
Essa perfeita harmonia possibilitaria que, ao morrer, o homem figurasse como um "pequeno fragmento do cosmos", eliminando a idéia da ausência.
No entanto, com o advento do cristianismo, o divino, que antes era irredutível, tornou-se carne, com a vinda de Cristo à Terra. E a proposta de simplesmente pertencer ao universo depois da morte "vê-se pouco tentadora diante da promessa cristã de reencontrar aqueles que amamos depois da vida".
Ou seja, a fé substituiu a razão na busca pela salvação. "O problema é que no caso da religião, nada é demonstrável, somos obrigados a confiar numa promessa e não a buscar, pela razão, uma saída". Isto é, a religião só satisfaz aqueles que, de fato, crêem em seus dogmas.
Para aqueles que não possuem uma crença ou não têm fé, Luc Ferry recomendou que busquem na doutrina filosófica essa resposta. "Desde Platão até Nietzsche, a filosofia se ocupa de como superar os medos que impedem uma vida boa".
Buscando o equivalente contemporâneo à contemplação grega, Luc Ferry acredita que a educação – e assim, finalmente e magistralmente uniu os fios da meada já no final da conferência – seria uma saída para a salvação, o que poderia servir como exercício cotidiano para a sabedoria, para a existência feliz.
A educação estaria, para o filósofo, embasada em três pilares. "O amor, elemento cristão; a Lei, contribuição judaica, e a Cultura, que provêm da tradição grega ocidental".

Agora que você já sabe um pouco, visite o site, confira os detalhes, assista os vídeos, leia o resumo das palestras e anime-se. Se puder, não deixe de participar!
Qualquer novidade será motivo de post, aqui no Morpheus!
Até mais

janeiro 21, 2008

O tempo não pára!

Ao mesmo tempo em que o país vê um Mangabeira (estádio) desabar, o Unger propõe um aqueduto entre a amazônia e o nordeste como solução para a falta d'água; a ministra do meio ambiente comparece a um culto de uma igreja criacionista e os Estados Unidos ameaçam uma crise intestinal que vai jogar shit in the fan para o mundo inteiro.
É... tempos esquisitos!
Na Bahia, onde o tempo nunca parou (porque nunca chegou a andar!), o relógio só marca a contagem regressiva para o carnaval: 10 dias!
A letargia se dissipará em instantes e a população inteira do estado sairá de um coma vigil e será vista por breves dias em um estado raro: agitação psicomotora Richter 9!
Uns pulando,
Uns chegando,
Uns fugindo!
Morpheus estará entre os últimos, uma vez que não suporta o décadence sans élégance pela qual passa o cenário musical baiano.
Só vou olhar para TV quando aparecerem Ivete ou Claudinha Leite mas não sem antes apertar a tecla MUTE!
À parte minha ranzinzagem (teatral) tenho consciência de que fujo por que sou uma testemunha histórica de um tempo do qual me sinto viúvo: o renascimento do chorinho ocorrido nos anos 70 que por sua exuberância e ecletismo transbordou-se para as ruas de Salvador em cima do Trio Elétrico de Dodô e Osmar aproveitando-se da semente latente cultivada desde os anos 50 por seus fundadores. Dodô e Osmar criaram, além da guitarra de corpo maciço, a primeira ONG familiar destinada a uma forma inédita de filantropia: "o filantropismo lúdico"!
Fundiram Mozart com Waldir Azevedo e o frevo pernambucano de Capiba e outros num caldeirão que dispensava a cerveja como combustível para a alegria.
Mas como tudo que é bom...
Privatizaram!
Agora só nos resta ouvir "ad nauseam" as intermináveis repetições dos inintelígiveis sucessos de Browns, Chicletes, Motumbás com suas letras compostas por 95% de vogais ou então mudar para o desfile das escolas de samba do Rio, evento sobre cujo mérito me abstenho de discorrer.
Ai se Pernambuco não exigisse visto para exilado baiano...(!!!!)
Fica aqui a sugestão para que nosso pit bull gramatical, Aldo Rebello, proíba letras carnavalescas com mais do que 30% de vocais na contagem geral!
Como o Carnaval ainda não chegou, parabenizo o nosso novo presidente da regional da especialidade pela posse no último sábado em evento que contou com a maciça presença de famosos locais e de outros estados.
Para bom augúrio do mandato deste novo presidente uma grande novidade se fará anunciar no próximo dia 18 de fevereiro quando das comemorações do bicentenário da Escola de Medicina da Bahia: a partir de uma proposta deste blogger, a UFBA passará a disponibilizar a partir da data acima referida, o acesso integral ao portal de periódicos da Capes para as entidades médicas mais importantes do estado: CRM, ABM e, entre outras, a SAEB.
Uma novidade e tanto!
Bem, mas para o eventual leitor que não saiba o seja este portal, vai aqui um pequeno texto que para minha feliz conveniência foi publicado hoje na 3ª pág da Folha; leia e entenda a importância:

Portal da Capes é modelo de acesso à ciência

MARCO ANTONIO RAUPP, JACOB PALIS JR. e LUIZ EUGÊNIO ARAÚJO DE MORAES MELLO

Se não fosse o Portal de Periódicos da Capes, nosso país como um todo estaria à margem do acesso ao conhecimento

O ACESSO livre e gratuito a revistas e publicações científicas tem sido objeto de artigos publicados neste e em outros jornais, sobretudo comparando os modelos de outros países (EUA e Reino Unido) e minimizando os esforços e avanços já alcançados pelo Brasil nessa área. A defesa dessa lógica parece razoável.
Se a ciência é primariamente paga pelo dinheiro público, então seu resultado deve ser igualmente desse mesmo público e, portanto, de livre acesso. Mas publicar tem um custo, mesmo na internet. Quando há trabalhos de editoria, avaliação e revisão de texto, esses custos aumentam.
A inserção brasileira no cenário científico internacional cresceu exponencialmente nos últimos anos. O Brasil ocupa hoje a 15ª posição no ranking de produção científica mundial, fruto do esforço da comunidade científica e da avaliação continuada dos programas de pós-graduação.
O sistema de pós-graduação, que cresce ao redor de 15% ao ano, associado ao sistema de avaliação, foi responsável em grande parte pelo incremento qualitativo e quantitativo da nossa produção científica.
Lançado em novembro do ano 2000, o Portal de Periódicos da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) constitui o instrumento mais importante na disseminação da informação científica no Brasil e um recurso indispensável à produção científica e tecnológica nacional.
A um custo de US$ 35 milhões, o portal dá acesso a 188 instituições, das quais 156 o fazem inteiramente de graça. Estas incluem as instituições de ensino superior federais, os Cefets, as estaduais e municipais com pelo menos um curso de pós-graduação nota quatro e as privadas com pelo menos um curso de pós-graduação nota cinco.
Nessas instituições, o acesso individual a essa gigantesca biblioteca é permitido a todos estudantes, servidores e professores. Nas bibliotecas dessas instituições, o acesso é permitido ao público em geral.
O portal disponibiliza o conteúdo atualizado sobre as descobertas científico-tecnológicas mundiais de todas as áreas do conhecimento, sendo uma das maiores bases de dados eletrônicas do mundo.
Sua filosofia é ímpar na comunidade científica. Seu custo, quando analisado em função da sua distribuição geográfica igualitária e democrática, pelo impacto na graduação, na pós-graduação e na extensão e pela importância no desenvolvimento científico e tecnológico do país, é irrisório.
Os 51 milhões de artigos baixados em 2007 resultaram num custo de US$ 0,72 por artigo, o que está muitas vezes abaixo do valor que seria cobrado por acessos individuais ou mesmo fotocópias.
Em grandes universidades norte-americanas, como a Ucla, o custo da assinatura eletrônica de cerca de 11 mil periódicos e bases de dados atinge US$ 11 milhões anuais -restrita exclusivamente aos profissionais dessa universidade. Para Harvard, esse valor atinge US$ 27 milhões.
O custo médio para as instituições brasileiras, levando em consideração somente aquelas de acesso gratuito, atingiu em 2007 o valor de US$ 237 mil/instituição. Os dados mostram que o portal da Capes oferece um acesso semelhante ao de Harvard ou Ucla a um custo 114 ou 46 vezes menor do que aquelas duas instituições.
O acesso livre, na verdade, envolve pagamento pela publicação. Supondo que toda a produção científica brasileira indexada em 2007 houvesse sido realizada em periódicos de acesso livre imediato, os cofres públicos teriam arcado com uma despesa de cerca de US$ 24 milhões, assumindo um custo médio de cerca de US$ 1.000/ trabalho, quase o custo do portal.
Esses artigos estariam abertos ao domínio público, mas as nossas instituições, se todo o investimento fosse direcionado para somente "open access", estariam sem acesso à maior parte da produção científico-tecnológica mundial.
Num mundo ideal, o acesso seria livre e gratuito a todos. No entanto, a realidade é outra. E, se não fosse o Portal de Periódicos da Capes, nosso país como um todo estaria à margem do acesso ao conhecimento, e nossa ciência, certamente, não teria tido o avanço claramente constatado dos últimos anos.


MARCO ANTONIO RAUPP, 69, doutor em matemática, é presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). JACOB PALIS JR., 67, doutor em matemática, é presidente da ABC (Academia Brasileira de Ciências). LUIZ EUGÊNIO ARAÚJO DE MORAES MELLO, 50, doutor em neurofisiologia, é presidente da FeSBE (Federação de Sociedades de Biologia Experimental).

janeiro 17, 2008

El Coma andante (by J. The Simon)

Vésperas de réveillon, em compras de última hora, encontrei com um grande amigo que, à parte todas suas grandes qualidades, mantém-se juvenil no que tange ao credo político. Acabava (ele) de voltar de um passeio a Cuba e estava visivelmente impressionado com a recepção do povo cubano a Hugo Chávez. Ele descrevia a apoteose e eu imaginava o que podia manter uma pessoa bem informada, nível superior, fascinada com o populismo inútil e retrógrado representado pelo fanfarrão em questão. A solidão ideológica se abateu sobre mim como um derrame cerebral e o tempo gasto no resto das minhas compras passou a ser dedicado a perguntar à providência porquê além da imbecilidade orgânica (genética), da arqueo (2000 anos) e da neoimbecilidade (<100anos) religiosa temos que sofrer também da narcoimbecilidade socialista.
Agora é a vez do nosso presidente se deixar fotografar ao lado do "El Coma Andante"!
Fulgêncio Batista deve estar se sentindo vingado!
Seus estudantes de medicina passam desde então a contar com todas as facilidades para validarem seus diplomas caribenhos no nosso país. Vai fundo Brasil!
La garantia soy yo!
Como um híbrido de traça com avestruz, para esquecer que vivo num país sem projeto, enfiei a cara no papel de três livros correlatos entre si:

A música dos números primos

Numa narrativa rica e abrangente, "A Música dos Números Primos" conta a história de um dos maiores problemas da matemática, que culminou, em meados do século XIX, com uma hipótese do alemão Bernhard Riemann: era possível haver harmonia entre os números primos, semelhante a uma harmonia musical. A partir de então, as mentes mais ambiciosas da matemática embarcaram nessa procura que parece não ter fim.
O relato desse verdadeiro Santo Graal da matemática, feito pelo brilhante professor de Oxford Marcus du Sautoy, também pesquisador da Royal Society, aparece aqui pontilhado de casos interessantes e retratos pitorescos dos personagens que, desde Euclides, se envolveram nesse estranho mistério.




Alucinações musicais

A música é uma das experiências humanas mais assombrosas e inesquecíveis, e o novo livro do neurologista e escritor Oliver Sacks, "Alucinações Musicais", nos faz entender por quê. A exemplo de seus livros anteriores, entre os quais se destacam
"Tempo de Despertar" e "O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu", Sacks nos oferece aqui histórias musicais cheias de drama e compaixão humana envolvendo pessoas comuns ou portadoras de distúrbios neuroperceptivos.
O que se passa com o cérebro humano ao fazer ou ouvir música? Onde exatamente reside o enorme poder, muitas vezes
indomável, que a música exerce sobre nós? Essas são algumas das questões que Oliver Sacks explora, em seu estilo cativante, nesta admirável coletânea de casos, mostrando, por exemplo, como a música pode nos induzir a estados emocionais que de outra maneira seriam ignorados por nossa mente, ou ainda evocar memórias supostamente perdidas nos meandros do cérebro.
É impossível não se impressionar, por exemplo, com a história do médico que experimenta, depois de ser atingido por um
raio, uma irresistível compulsão por música de piano, a ponto de se tornar ele mesmo um pianista. Ou com os casos de
“amusia”, uma condição clínica que faz Mozart soar como uma trombada automobilística aos ouvidos da pessoa afetada.
Sem contar as histórias de gente acometida dia e noite por alucinações musicais incessantes.

Nascido num dia azul

À primeira vista, o inglês Daniel Tammet, 28, parece um jovem comum. É fã dos Beatles, gosta de viajar e de namorar, tem uma escola de idiomas que garante sua independência financeira e sabe cozinhar.
Mas Daniel não é comum. E o que o torna extraordinário é justamente a capacidade de realizar todas essas atividades, aparentemente simples. Daniel é autista e tem a rara síndrome de savant, um distúrbio psíquico que confere a seus portadores memória prodigiosa e genialidade em cálculos, mas que, geralmente, os condena a uma incapacidade de interagir com os outros.
O caso mais famoso da síndrome é o do norte-americano Kim Peek, que inspirou o personagem Raymond Babbit, interpretado por Dustin Hoffman no filme "Rain Man" (1988). Assim como a maioria dos savants, Kim também tem autismo. Ele aprendeu a ler aos 16 meses de idade e consegue ler duas páginas de um livro simultaneamente, retendo quase 100% das informações --memorizou todo o conteúdo de mais de 9.000 livros.
Aos 56 anos, porém, ele depende dos cuidados do pai em tempo integral para sobreviver.
Daniel, inexplicavelmente, conseguiu superar essas barreiras. Sua independência e sua capacidade de comunicação o transformaram em um valioso "dicionário" da síndrome de savant para neurocientistas. Se os savants fazem cálculos complexos em segundos, Daniel vai além e explica como consegue fazer isso.
Cada número, diz, corresponde, em sua mente, a uma cor, textura, formato ou sentimento: o número um, por exemplo, é como um feixe de luz, já o cinco tem som de trovoada --reação conhecida como sinestesia. Ao fazer uma conta, essas cores e sons se misturam, e o resultado aparece diante de seus olhos, como uma nova imagem.
O mecanismo também o ajuda a decorar informações longas: é dele, por exemplo, o recorde europeu de memorização do pi --um número que corresponde à divisão da circunferência pelo diâmetro de um círculo. O pi começa com 3,1416 e segue infinitamente. Em março de 2004, Daniel passou cinco horas e nove minutos recitando o número: foram 22.514 dígitos, acompanhados por jurados que conferiam a seqüência correta em centenas de páginas de papel.
Para o jovem savant, a tarefa equivalia a se lembrar de uma paisagem: só que, em vez de árvores, casas e riachos, ele via algarismos.
Após a proeza, veio a fama. Um canal de televisão inglês realizou um documentário sobre sua vida ("The Boy with the Incredible Brain" --o garoto com o cérebro incrível), e Daniel resolveu contar suas experiências em um livro: "Nascido em um Dia Azul", que acaba de ser lançado no Brasil.
"Escrever o livro foi terapêutico", considera Daniel. "Isso realmente me ajudou a ter uma melhor compreensão de quem sou, da vida que tenho, da jornada que fiz. O diagnóstico da síndrome de Asperger [um tipo de autismo] não foi feito até 2004 porque, quando eu era criança, não estava disponível. Escrevi o livro um ano depois e isso me ajudou a colocar minha vida numa perspectiva, num contexto."
Sua voz é suave e ele se mostra gentil e amigável durante a entrevista. Estabelecer uma conversa com desconhecidos, porém, foi algo extremamente difícil para ele ao longo de muitos anos. Daniel foi uma criança quieta e sem amigos.
Na escola, passava o recreio sozinho, contando as pedras no chão ou fazendo contas. Não se interessava por outras crianças e, quando elas zombavam dele, apenas tapava os ouvidos e tentava pensar em números que evocassem imagens bonitas.
Foi na adolescência que ele começou a sentir necessidade de se relacionar com os outros. Mas essa interação lhe parecia muito complexa: as pessoas eram imprevisíveis demais para um garoto que buscava lógica e padrões matemáticos em tudo.
Numa conversa, podiam mudar de assunto de uma hora para a outra e esperavam que ele entendesse coisas que não eram ditas claramente. Isso o deixava inseguro e frustrado.
"Pessoas com autismo acham importante ter rotina, segurança, estabilidade. O mundo é hiperestimulante porque tem tanta gente, tanto barulho, tanta informação... Autistas têm mais dificuldade para lidar com isso. A rotina deixa tudo mais fácil. Por isso, tento tomar o mesmo café da manhã todos os dias. É um pequeno ritual que me faz sentir seguro", conta ele, que come exatamente 45 gramas de mingau todas as manhãs. E usa uma balança eletrônica para ter certeza disso.
Para enfrentar essas limitações, Daniel --que, quando bebê, chorava se o pai mudasse o caminho para a creche-- resolveu se mudar para a Lituânia, na Europa báltica, onde trabalhou por um ano como professor voluntário de inglês.
Além de aprender a lidar com situações imprevistas, ele descobriu mais uma aptidão: a facilidade para idiomas. Para Daniel, os sons também evocam cores e sensações (as palavras que começam com "t" são laranjas, por exemplo), e isso o ajudou a aprender dez línguas de forma autodidata.

Divisor de águas

A viagem à Lituânia, diz Daniel, foi um "divisor de águas", que o preparou para o que veio depois. "O documentário e o livro mudaram minha vida. Ninguém imaginava quão bem-sucedidos eles seriam. Tenho tido a oportunidade de viajar muito. Há poucos anos, consideraria isso inimaginável. Mas tenho crescido muito em autoconfiança. Recentemente dei uma série de palestras nos EUA onde havia milhares de pessoas. E, ainda assim, não foi difícil ficar em pé e falar, pois adoro compartilhar minha história."
Daniel atribui o sucesso do livro, já traduzido para 16 idiomas, ao fato de muitas pessoas, mesmo sem autismo, compartilharem com ele essa sensação de deslocamento em suas comunidades. "Elas se identificam. São, de alguma forma, diferentes de outras pessoas, com dificuldade para aprender qual é seu lugar no mundo. Meu livro parece significar algo para essas pessoas", diz ele, que agora se dedica ao seu segundo livro, sobre inteligência, memória e aprendizagem.
Além da carreira, a vida pessoal também vai muito bem, obrigado.
"O amor era uma grande questão para mim. Eu não era capaz nem de pensar sobre esse tema quando era adolescente --lia tudo que podia sobre isso. Uma coisa que me ajudou foram os contos de fadas, todos com lindas idéias sobre relacionamento, sobre como alguém pode se sentir confortável onde vive. Por meio dessas histórias, eu gradualmente me tornava hábil para entender o amor."
A resposta da equação, descobriu, era a aceitação. "Grande parte da nossa vida está fora de controle. Eu não escolhi ser autista, assim como não escolhi ser inglês. Então, eu tive de aprender como ser eu mesmo. E amar é uma parte importante disso, pois é sobre aceitação. Aceitação do outro e de si mesmo, assim como do mundo. Quando você aceita o mundo, você pode amá-lo, quando aceita as pessoas, pode amá-las. E, quando você se aceita, pode se amar também."
Pergunto o que ele faria se descobrissem uma cura para o autismo. Ele fica em silêncio por alguns instantes. "Acho que depende do tipo do autismo. Alguns autistas são como eu, capazes de ter um relacionamento, uma carreira. Mas há formas muito mais severas, que não permitem ter uma vida normal. Eu certamente espero que cientistas encontrem um modo de tratar essas formas de autismo, para que essas pessoas possam falar, ter amigos e ter a oportunidade de aceitar a si mesmas e ao mundo em volta delas. Meu autismo eu aprendi a aceitar. Se eu mudá-lo, mudarei a mim mesmo. E eu sou muito feliz. Eu gosto de mim."


Daniel fundou um site destinado a compartilhar sua metodologia única no aprendizado de idiomas: Optimnem

Se você gosta do tema, visite!

Nada como a matemática para abstrair!

Nos intervalos de leitura preparava um arranjo para violão solo de "Chorinho para ele" de Hermeto Pascoal.

janeiro 14, 2008

Organismo remoso

Já faz algum tempo eu me encantei pelo tema "inflamação"; bem, isso é lá assunto para alguém se encantar?
Não, eu não estava interessado nos aspectos formais e mais conhecidos até então; eu estava interessado no braço da ciência que estudava as reações inflamatórias como vilões no processo de envelhecimento, dano orgânico excessivo e na gênese doenças degenerativas ( o câncer como a "ferida que não cura") . De lá prá cá o assunto ganhou corpo e o conceito de que portamos um "reostato" inflamatório que pode e deve ser modulado por intervenções diversas, está definitivamente estabelecido. Estas intervenções para diminuir a temperatura do nosso "forno inflamatório" abarcam providências que faziam parte do receituário de boa saúde de nossos avós: boa higiene do sono, banhos de sol (na hora certa é claro!), consumo de alimentos ricos em vitamina E e D (a famosa "Emulsão de Scott"), diversidade dietética, um maior consumo de peixe, exercícios regulares, um pouco de fé e... por aí vai!
Isto acontece porque, ao contrário do pensamento comum, não envelhecemos como as coisas do mundo material!
Nosso envelhecimento (doença e morte também!) se deve, entre outras coisas menos importantes, ao acúmulo de erros no patrimônio genético que informa como o organismo deve ser recomposto após a morte celular por apoptose (morte celular natural) ou por lesões de qualquer natureza.
Seria equivalente a imaginarmos um técnico em eletrônica que, depois de um certo número de consertos bem-feitos, começa a perder páginas do seu manual de reposição. Chega um dia em que o conserto não mais poderá ser feito e aí...
Deve-se à compreensão do acima exposto, a coqueluche de interesse pelas células tronco: elementos repositórios da informação original!
A inflamação excessiva pode ser o elemento comum entre sua dermatite (caspa também vale!), o infarto de seu chefe, o diabetes de sua tia, a artrose no joelho de seu pai, o enfisema do seu vizinho e a asma do filho dele, a infertilidade de sua irmã solteirona que agora conseguiu casar e a demência de sua sogra.
Então..
Um estudo americano publicado nesta quarta-feira sugere que o uso de um novo medicamento em pacientes de Alzheimer pode aliviar alguns sintomas da doença em apenas dez minutos
A descoberta pode abrir caminhos para novos tratamentos para pacientes que sofrem da doença. Os cientistas americanos injetaram o medicamento etanercepte na espinha de um paciente de 81 anos que sofre de demência em estágio avançado. Eles observaram uma melhoria significativa na memória do doente em minutos.
O etanercepte suprime a ação do fator de necrose tumoral alfa (TNF), uma substância que, em excesso, pode implicar em piora no quadro do Mal de Alzheimer e estimular o avanço da doença.
O estudo, realizado no Instituto de Pesquisa Neurológica e no Departamento de Neurologia da University of Southern California (EUA), foi publicado na edição desta semana da revista científica Journal of Neuroinflammation.

Testes

A equipe de cientistas mediu o desempenho do paciente em testes cognitivos antes da injeção. Os resultados apontaram que o doente não conseguia lembrar o nome do médico que estava lhe tratando, o ano atual ou o Estado onde morava.
Além disso, o paciente não desempenhou cálculos simples e não conseguiu identificar mais de duas espécies de animais.
No entanto, dez minutos depois da injeção de etanercepte, os médicos observaram que o doente estava mais calmo, mais atento e menos frustrado. O paciente lembrou que morava na Califórnia e sabia o dia da semana e do mês. Além disso, conseguiu identificar cinco animais e seu desempenho no teste de cálculo apresentou melhora.

Família

Em uma entrevista logo depois do exame, a esposa do paciente afirmou que o marido estava "de volta ao seu lugar" e que a melhora parecia "uma história de ficção científica".
"Ele não era a mesma pessoa. Eu percebi que ele estava mais esclarecido, mais organizado. Quase caímos da cadeira quando vimos o que aconteceu", contou ela.
O filho do paciente disse que a reação do pai logo após a injeção foi "a coisa mais memorável que eu já vi".

Efeito placebo

Apesar da surpresa da família, especialistas britânicos afirmam que o sucesso da administração do medicamento em apenas um paciente não significa que o tratamento será eficaz em todos os pacientes que sofrem de demência.
Rebecca Wood, da Alzheimer Research Trust, que patrocina pesquisas sobre a doença, afirmou que é preciso levar a pesquisa adiante para confirmar os benefícios do medicamento em pacientes de demência.
"A pesquisa é promissora e inovadora, mas está na fase inicial. É preciso desenvolver mais trabalhos na área para concluir que o etanercepto pode funcionar no tratamento para Alzheimer", disse.
"Precisamos investigar se [o medicamento] é seguro e eficaz em um número maior de pacientes, além de monitorar seus efeitos no longo prazo".
Wood alerta ainda que é preciso verificar se o efeito do etanercepto pode de fato diminuir os sintomas da doença. "Os cientistas precisam checar se os benefícios não foram conseqüências apenas de um efeito placebo, estabelecer se eles são temporários e se a doença de fato é desacelerada pelo medicamento", afirmou Wood.
Neil Hunt, da Alzheimer Society, concorda com a necessidade de levar o estudo adiante. "É crucial que mais pesquisas sejam desenvolvidas antes de chegar a qualquer conclusão sobre o TBF alfa e o desenvolvimento do Mal de Alzheimer", disse.

Uma das novas vedetes sob os holofotes dos "inflamologistas" é a vitamina D.
O Dr. Dráuzio Varela (Folha de São Paulo, 05/01/08) colocou em termos simples uma série de informações para que se entenda esta novidade científica (reproduzido abaixo pelo seu caráter de utilidade pública):

Vitamina D

Sem ela, surgem males tais quais raquitismo, osteoporose, diabetes, infecções e câncer

ESSE MENINO precisa apanhar sol, recomendava minha avó diante da criança pálida. Na época, a exposição ao sol nas montanhas era o único tratamento para a tuberculose.
Em 1822, um médico polonês observou que o raquitismo era mais comum nas crianças que haviam migrado para as cidades. Dois anos depois, os alemães sugeriram que a doença fosse tratada com o insuportável óleo de fígado de bacalhau.
No fim do século 20, os dermatologistas concluíram que a exposição ao sol deveria ser evitada por causa do câncer de pele. Entramos na era dos filtros protetores, sem os quais alguns não põem o pé fora de casa.
O conselho dado por minha avó encontra-se hoje nas páginas das revistas médicas mais influentes: sem sol, a pele não produz vitamina D. Sem ela, surgem enfermidades que vão do raquitismo à osteoporose; do câncer às infecções, ao diabetes e às complicações cardiovasculares.
Seres humanos conseguem obter vitamina D a partir da exposição à luz solar, da dieta e de suplementos vitamínicos.
Ao incidir sobre a pele, a banda B da radiação ultravioleta converte um precursor em pré-vitamina D, que é rapidamente transformada em vitamina D. Como qualquer excesso da pré-vitamina é destruído pela luz, o excesso de sol não leva à hipervitaminose.
As fontes alimentares são pobres. A maior concentração é no óleo de fígado de bacalhau: 1.360 unidades em cada colher de sopa. Em quantidades menores, a vitamina pode ser obtida pela ingestão de peixes oleosos (salmão, atum, sardinha), cogumelos, gema de ovo, sucos e cereais enriquecidos artificialmente.
As descobertas de que a maioria das células do organismo possui receptores para vitamina D (e de que muitas são dotadas de enzimas capazes de convertê-la em sua forma ativa) permitiram elucidar seu papel na prevenção de doenças crônicas.
Vivemos em plena epidemia de hipovitaminose D, deficiência que atinge 1 bilhão de pessoas, especialmente nos países com dias frios e escuros durante meses consecutivos. Inquéritos epidemiológicos demonstram que, nos EUA, acham-se nessa condição de 40% a 100% das pessoas com mais de 70 anos; 52% das crianças negras e 32% dos médicos de um hospital de Boston.
Habitantes das regiões equatoriais expostos ao sol com roupas leves, ao contrário, apresentam altos níveis da vitamina. Mas nos países árabes, na Austrália e na Índia, em que a população vive com o corpo coberto apesar do calor, de 30% a 50% dos adultos são deficientes.
Osteoporose e fraturas ósseas, fatos dramáticos na vida dos mais velhos, guardam relação íntima com a hipovitaminose D. Assim como os ossos, os músculos possuem receptores para vitamina D, da qual requerem quantidades mínimas para adquirir potência máxima.
Células de cérebro, fígado, próstata, mama, cólon e sistema imunológico também apresentam tais receptores e se ressentem da falta dela.
Direta ou indiretamente, a vitamina D controla mais de 200 genes, responsáveis pela integridade da resposta imunológica. A deficiência desse micronutriente aumenta o risco de tuberculose. Os negros, cuja pele tem mais dificuldade para sintetizá-lo, são mais suscetíveis à doença e a contraí-la em suas formas mais graves.
Viver em latitudes mais altas aumenta a probabilidade de câncer de cólon, próstata, ovário e outros. Um estudo conduzido entre 32 mil mulheres mostrou que, quanto mais baixos os níveis de vitamina D, mais alto o risco de câncer de intestino. Outro estudo demonstrou que o câncer de próstata surge três a cinco anos mais tarde em homens que trabalham ao ar livre.
Nessas regiões, são maiores os riscos de se manifestar o diabetes do tipo 1, doenças inflamatórias do intestino, esclerose múltipla, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, esquizofrenia e depressão.
O que fazer? Voltaremos a queimar o corpo sob o sol?
Não podemos esquecer que as radiações solares provocam manchas e apressam o envelhecimento cutâneo, além de constituir a principal causa do câncer de pele.
Quanto sol precisamos tomar?
Depende da cor da pele: quanto mais escura, mais resistente a ele, e menos eficiente na produção de vitamina D.
Exposição dos braços e pernas ao sol num período de 5 a 30 minutos (segundo a pigmentação cutânea), duas vezes por semana, produz níveis adequados de vitamina D. Quem foge do sol deve fazer reposição com suplementos que ofereçam 800 unidades por dia.

Abaixo alguns links para quem gosta de novidades científicas:

Jornal da ciência - SBPC

Revista Ciência Hoje

P.S. : Para encerrar a série "Canções infames dedicadas a cirurgiões não menos infames" vai abaixo o último vídeo do gênero a ser publicado aqui no Morpheus.
Dedicado aos nossos simpáticos e abnegados amigos proctologistas (os ginecologistas das bichas) os quais, para o bem da humanidade, escolheram trabalhar na região do corpo onde o protetor solar cede sua primazia ao Hipoglós (a letra está abaixo do vídeo):



"Working Where The Sun Don't Shine"
(The Colorectal Surgeon's Song)

We praise the colorectal surgeon
Misunderstood and much maligned
Slaving away in the heart of darkness
Working where the sun don't shine

Respect the colorectal surgeon
It's a calling few would crave
Lift up your hands and join us
Let's all do the finger wave

When it comes to spreading joy
There are many techniques
Some spread joy to the world
And others just spread cheeks
Some may think the cardiologist
Is their best friend
But the colorectal surgeon knows...
He'll get you in the end!

Why be a colorectal surgeon?
It's one of those mysterious things.
Is it because in that profession
There are always openings?

When I first met a colorectal surgeon
He did not quite understand;
I said, "Hey nice to meet you
But do you mind? We don't shake hands."

He sailed right through medical school
Because he was a whiz
Oh but he never thought of psychology
Though he read passages.
A doctor he wanted to be
For golf he loved to play,
But this is not quite what he meant...
By eighteen holes a day!

Praise the colorectal surgeon
Misunderstood and much maligned
Slaving away in the heart of darkness
Working where the sun don't shine!

janeiro 09, 2008

Para quem só tem medo da anestesia...

Para deleite da audiência morfética, vai abaixo um vídeo/canção dedicado a vários cirurgiões que todos nós conhecemos mas que infelizmente não podem mais ser reconhecidos pelos seus mutilados pacientes!
Abaixo do vídeo, a letra em inglês e a tradução em português que preparei com exclusividade para você, amigo do Morpheus!
Aprenda e cante para o seu cirurgião de coluna preferido!
Para mim, momento ideal é quando ele afasta a medula com a ponta do formão,
Descubra o seu!



Careless surgeon


I feel so unsure,
As I cut you up,
I wonder what's that nerve for.

What does this bit do?
I get so confused.
I'm very sorry Mr Smith,
I've got some dreadful news.

You're never gonna walk again,
I've just sliced your spinal column.
Now you need a ventilator,
Just so you can breathe.

I fucked up your operation,
But try not to be too solemn.
You may not die for six more years
Of Christopher Reeve.

Time can never mend
A careless surgeon's fuck ups, my friend.
There's not much we can do,
II'm bugged if you sue.
I hope you get MRSA
And die oh naught you.

Everyday's the same.
'cos I try to cure,
But I just kill and maim.

All these body parts,
Kidneys look like hearts.
Oh why did I do medicine
I should have stuck with arts

And you're never gonna speak again,
Have to just make do with thinking.
I'd be foolish to pretend
We'll ever hear you talking.

Trapped inside your wheelchair,
Communicating just by blinking.
Like that fucked spastic,
Professor Stephen Hawking.

Tradução

Eu me sinto tão inseguro
No momento em que te corto
Eu me pergunto: para que serve este nervo?
O que é que este outro pedaço faz?
Eu fico tão confuso...
Eu sinto muito Sr. Smith,
Mas não trago boas novas

O Sr. nunca mais conseguirá andar
Eu simplesmente cortei sua medula espinhal
Você agora precisará de um rspirador
Para poder viver
Eu f* sua cirurgia
Mas tente não ficar tão sério!
Agora o Sr ficou bastante parecido
Com Christopher Reeve

O tempo nunca poderá consertar
As merdas que um cirurgião faz
Não há muito que se possa fazer
Espero que não nos processem
Mas é melhor pegar o telefone
E acionar a União de Defesa Médica

Todo dia é a mesma coisa.
Eu tento curar
Mas eu só mato e mutilo

Todas estes órgãos...
Rins parecem-se com corações
Prá que é que eu fui fazer medicina?
Eu deveria ter entrado em belas-artes!

Ah, você também não conseguirá mais falar!
Mas poderá pensar!
Eu seria bobo em fingir que nós o ouviríamos falar um dia
Preso na cadeira de rodas
Comunicando-se por piscadelas
Como aquele miserável espástico
Professor Stephen Hawking

Ok, Ok, Um pouco de humor negro e mau gosto, é verdade; mas para não ficar só nisso vai aí uma indicação de livro que, creio, vá agradar:

Conversas com Gaudí

Gaudí tornou-se um ícone. Considerado um dos maiores artistas de todos os tempos, sua obra, que parece proveniente de outro planeta, é estudada nas principais universidades de arquitetura e engenharia do mundo. Mas Gaudí detestava escrever e não nos legou sequer a planta completa do templo da Sagrada Família. Suas visões estético-filosófica e mística, além de seus princípios totalmente inovadores de construção, estariam perdidos se o arquiteto catalão Cesar Martinell Brunet não se tornasse seu grande amigo e registrasse suas conversas com o genial arquiteto, de 1915 a 1926. O jovem César Martinell Brunet, ainda estudante, encontra Gaudí totalmente recluso, dedicando-se exclusivamente à construção de sua obra-prima, a Sagrada Família. Considerado excêntrico, alienado e fora de moda (nem sequer era citado na Faculdade de Arquitetura de Barcelona), perseguido politicamente por afirmar a cultura catalã e abandonado pelos amigos, que fugiam dele para evitar os pedidos de donativos para a construção do templo, Gaudí torna-se confidente do jovem arquiteto, plasmando, nessas profundas e inspiradas conversas, todo seu universo mágico, místico e poético. Conversas com Gaudí, que a editora Perspectiva publica em sua coleção Debates, recupera o Gaudí oral, com todo seu humor, insights e espírito visionário, e revela os segredos de seus princípios construtivos, fundamentais para a compreensão de sua arquitetura, num percurso em que o leitor, a cada capítulo, sente-se como se estivesse na sala com o grande arquiteto catalão. Um livro fundamental para a compreensão de sua obra, que irá deliciar arquitetos, engenheiros, artistas plásticos, estudiosos da história da arte, místicos e admiradores de sua obra.

Editora: Perspectiva
ISBN: 9788527307963
Ano: 2007
Edição: 1
Número de páginas: 212
Acabamento: Brochura
Formato: Médio

janeiro 08, 2008

Perigo na piscina

Aquele domingo amanheceu e cruzou o meio-dia banalmente.
Seria mais uma tarde agradável conduzida por Dr. Amaral e sua esposa numa casa extremamente aprazível num desses condomínios fechados bem bacanas.
Dr. Amaral, sempre sorridente, conduziria um churrasco preparado com maestria e pontuado por goles de uma cachaça que tinha trazido da sua última visita a Brasília (há ótimas lojas da branquinha na nossa Versailles!).
Entre os convidados, além de mim, vários outros amigos com algumas características em comum além de não serem vegetarianos: bom humor, inteligência, afinidade por estados de pré-embriaguês e pacotes de idiossincrasias.
Seria impossível manter o tamanho planejado para o texto se fosse discutir as esquisitices de cada um nas linhas que se seguem; portanto me deterei aos protagonistas.
Fatias frescas (assadas!) de picanha, filé e alcatra se revezavam em bandejas sobre o balcão da churrasqueira para o deleite dos convivas e sob o sorriso característico de Dr. Amaral que servia a todos não sem antes fazer um refill do copinho de cachaça.
Diga-se de passagem, aquele detalhe era inusitado; nas reuniões habituais que promovia ao redor da churrasqueira, dr. Amaral servia habitualmente uma boa cervejinha gelada que, aliás, combina muito bem com a piscina impecável que sempre disponibilizou para os amigos mas onde ele mesmo nunca entrava!
Aquele fluxo livre e generoso de cachaça - diga-se de passagem deliciosa! - não tardaria a fazer vítimas.
A alegria esfuziante começou mais cedo e as piadas pesadas também!
Mestre Maia, um professor sósia de Woody Allen (juro!), contava a sua última premiada quando foi interrompido por um estrondo que vinha da porta dos fundos do corpo principal da casa: Professor Abílio tinha se estatelado contra o blindex transparente e impecavelmente limpo que isolava a área da piscina da cozinha principal da casa. Nosso prejudicado professor tentou sair pela metade fechada do portal e se deu mal! Caiu sentado mas parecendo bem, foi levantado da queda humilhante e reconduzido ao grupo por um destacamento de emergência enviado a partir da turma da churrasqueira.
Meio desconcertado, sorriu, agradeceu pela atenção e calibrou uma nova dose da cachaçinha do dr. Amaral no seu copinho que resistiu incólume à queda virando, segundos após, o seu conteúdo goela abaixo e arrematando com um: "Porra Amaral, cê viu? Quase caí!
Amaralzinho coçou a barba e previu o pior...

Interlúdio explicativo

Se vocês quiserem imaginar como é o prof. Abílio, coloquem a barba de Hermeto Pascoal na cara de um Luís Melodia com seus 50 anos e está feito!
Bílio, como nós o chamamos carinhosamente, orgulha-se de não assistir televisão (nem mesmo tem um aparelho!), do seu inglês sem sotaque e de ser um dos raros conhecedores do modo de preparação do peixe gato ao forno (uma iguaria pouco valorizada, segundo ele, é claro!).
Bílio é um típico cervejeiro e, àquela altura do campeonato já estava mostrando uma parca intimidade com o combustível servido naquela tarde.
Bílio tem no amigo Roni (também amigo nosso!) seu apologista titular. Roni sempre explica as esquisitices de Bílio com um viés de simpatia nunca se esquecendo de finalizar com um: "...mas ele é muito inteligente"
Ah, antes que me esqueça! Roni sempre explicou a solteirice provecta de Bílio como um sintoma da sua afinidade pelo namoro e, principalmente pelas louras!
Roni é tão compassivo no julgamento das idiossincrasias alheias que é chamado por muitos, inclusive por Bílio, de "Santo"

Fim do interlúdio

Estávamos às três da tarde e, antes de pegar o violão e fazer um sonzinho, era absolutamente necessário dar uma entradinha na piscina que àquela hora estava com a àgua morninha, morninha. Pois bem, lá se foram todos para dentro d'água num ritual mais do que costumeiro. Todos lá quando uma sombra se avolumando em alta velocidade cruzou o ar e caiu como uma Daiane dos Santos no meio da piscina: Bílio!
Nosso morcegão se recompôs, cuspiu água para fora e passou o braço por cima do ombro de Robertinho, o psiquiatra do grupo, ameaçando começar uma típica prosa de bêbado que não recebeu importância dos demais convivas aquáticos. Segundos após ouviu-se um indignado Dr. Robertinho esbravejar: "P* Bílio vá pegar no p* do jegue!"
Bílio acabara de tentar apalpar as partes pudendas de Dr. Robertinho num típico acesso de "constrangedora liberação da sexualidade reprimida".
Não obstante o espanto dos circunstantes e a denúncia sonora da vítima, Bílio passou a persegui-lo pela piscina, subitamente esvaziada, fazendo biquinho e falando gracinhas. O pobre dr. Robertinho saiu às pressas daquele sítio de assédio, cruzou o portal de Blindex e fechou a banda antes aberta com incrível agilidade... Não deu outra, um Bílio possuído saiu da piscina em alta velocidade e meteu a cara no blindex que o derrubava agora pela segunda vez com direito a contagem e nocaute!
Não precisa dizer mais nada, feita a contagem, a reunião foi encerrada e todos se foram, à exceção de Bílio que ficou na casa de Amaralzinho até se recuperar minimamente da desconcertante embriaguês.
O episódio, para o bem de Bílio, entrou para a pasta de assuntos proibidos do grupo e ninguém ousa tocar no assunto hoje em dia exceto quando queremos dar uma sacaneadinha no dr. Robertinho (na ausência de Bílio, é claro!).
Se você que leu o texto nunca presenciou episódio semelhante, saiba que na Bahia nós já o descrevemos clinicamente sob o nome de "Cachaça Viada", ou acessos de sexualidade paradoxal mediadas pelo etanol (A.S.P.M.E.)!
Nada não, tivemos que esperar alguns anos para que a sabedoria popular baiana fosse publicada em literatura científica num dos últimos números do PlosOne:
Moscas bêbadas não hesitam em pular na piscina e procurar o seu Dr. Robertinho
Veja abaixo:

Recurring Ethanol Exposure Induces Disinhibited Courtship in Drosophila

Hyun-Gwan Lee1, Young-Cho Kim2, Jennifer S. Dunning3, Kyung-An Han1,2*

1 Department of Biology, Huck Institute Genetics Graduate Program, Pennsylvania State University, University Park, Pennsylvania, United States of America, 2 Department of Biology, Huck Institute Neuroscience Graduate Program, Pennsylvania State University, University Park, Pennsylvania, United States of America, 3 Department of Biology, Pennsylvania State University, University Park, Pennsylvania, United States of America

Abstract

Alcohol has a strong causal relationship with sexual arousal and disinhibited sexual behavior in humans; however, the physiological support for this notion is largely lacking and thus a suitable animal model to address this issue is instrumental. We investigated the effect of ethanol on sexual behavior in Drosophila. Wild-type males typically court females but not males; however, upon daily administration of ethanol, they exhibited active intermale courtship, which represents a novel type of behavioral disinhibition. The ethanol-treated males also developed behavioral sensitization, a form of plasticity associated with addiction, since their intermale courtship activity was progressively increased with additional ethanol experience. We identified three components crucial for the ethanol-induced courtship disinhibition: the transcription factor regulating male sex behavior Fruitless, the ABC guanine/tryptophan transporter White and the neuromodulator dopamine. fruitless mutant males normally display conspicuous intermale courtship; however, their courtship activity was not enhanced under ethanol. Likewise, white males showed negligible ethanol-induced intermale courtship, which was not only reinstated but also augmented by transgenic White expression. Moreover, inhibition of dopamine neurotransmission during ethanol exposure dramatically decreased ethanol-induced intermale courtship. Chronic ethanol exposure also affected a male's sexual behavior toward females: it enhanced sexual arousal but reduced sexual performance. These findings provide novel insights into the physiological effects of ethanol on sexual behavior and behavioral plasticity.

Citation: Lee H, Kim Y, Dunning JS, Han K (2008) Recurring Ethanol Exposure Induces Disinhibited Courtship in Drosophila. PLoS ONE 3(1): e1391. doi:10.1371/journal.pone.0001391

Ps. No último episódio em que se encontraram, Bílio (sóbrio) tentou abraçar um assustado Robertinho que se afastou apressadamente. Soube por terceiros que Bílio teria disparado: esse Robertinho...parece que é v* !

PSS A peça acima, de caráter exclusivamente ficcional, é fruto da cabeça desequilibrada do blogger reponsável não guardando semelhanças intencionais com pessoas ou instituições vivas ou mortas. Dou fé!

janeiro 03, 2008

The dark side of the sleep

Ouça esta canção cantada por um anestesista indiano e entenda porque a anestesia é uma ciência segura porém os anestesistas...
Têem que ser muito bem escolhidos!

janeiro 02, 2008

God only knows (If you should ever leave me...)

Tenho amigos muito interessantes mas um deles me veio imediatamente à cabeça quando eu li o motto deste post. Ele sempre demonstrou uma certa perplexidade por me perceber crente em Deus; pior que isso, beirava a mágoa a sua decepção pelo fato de eu não poder explicá-lo de onde vem a minha fé. Pois bem, este amigo, também, sempre pareceu-me viver uma perplexidade análoga sempre que me via tocar uma peça um pouco mais complicada ao violão (principalmente Baden ou flamenco!). Ao contrário da minha fé em Deus, minha performance ao violão é um fenômeno visível e incontestável dentro do mundo real mas igualmente inacessível a ele que tentou com paixão mas sem sucesso, estudar música.
O artigo abaixo, em editorial do prestigioso The New England Journal of Medicine talvez tenha vindo no primeiro fascículo de 2008 (ano de Ogum, meu orixá!) para me ajudar a sedar a perplexidade deste amigo e de outras tantas pessoas que, tal qual meu amigo supracitado, tem amigos esquisitos como eu.
Quem colocou o bem (Deus ou whatever!) dentro de nós?
Deus,
Darwin,
O caos,
Os dinossauros?
Arrisque seu palpite.
Pode ser que lirismo, arte, criação, matemática, fé e epilepsias estejam junto na mesma canoa, mas se isto for verdade, vou morrer sem chegar perto de um comprimido de Gardenal.
Segue abaixo o texto.
Se o tema interessar comprem os livros e...
De-lei(am)-tem-se

Seeking God in the Brain — Efforts to Localize Higher Brain Functions
Solomon H. Snyder, M.D., D.Sc.

Neuroscientists have long eschewed global questions about brain function, and books reviewing the current state of neuroscience usually allocate only a small section to "higher functions." But with the advent of novel imaging techniques such as positron-emission tomographic scanning and functional magnetic resonance imaging, attitudes have begun to change. It is now feasible to visualize functions of discrete brain regions while subjects are engaged in diverse activities — doing arithmetic, composing songs, writing poetry, or watching pornographic movies. Information about which parts of the brain are activated during various mental activities has supplemented and, in general, confirmed previous insights derived from observations of alterations of thinking and feeling associated with brain lesions, epilepsy, and the use of diverse drugs.

Efforts to elucidate higher brain functions have intersected with a burgeoning literature on the neural underpinnings of not only language and art but also religion. At one extreme, some scientists, such as Francis Collins, in The Language of God, have even used what we know of molecular biology and brain function to argue for the existence of a personal God.1 Collins reviews anthropologic data emphasizing the universality of the search for God among a diverse group of primitive and advanced cultures over many thousands of years; he interprets this universality as implying that some basic structure in the brain "needs God." Similarly, noting that humans have an intuitive sense of right and wrong, Collins suggests that this characteristic, too, originates in an intrinsic structure of the brain. He goes so far as to conclude that the moral law was implanted in our brains by God, but many scientists have argued, from the same universality, that moral, altruistic behavior is programmed into the brain because it facilitates social behavior that leads to the preservation of the species.

Others have used similar data to argue that all of religion is an artifact of evolution. Neuroscientist David Linden, for instance, has recently suggested specific mechanisms whereby evolutionary alterations in the structure of the brain might account for the development of religion as well as love, memory, and dreams.2 As the brain evolved, he explains, the overgrown cerebral cortex came to overlie the more primitive, emotion-regulating limbic structures, which in turn surmount the most primitive brain-stem structures and the associated hypothalamus. Linden argues that the accidental linking of these portions of the brain accounts for many of the tribulations of humankind — anxiety and other emotional disturbances arise in substantial part from the ongoing war between the "rational" higher centers and the emotion-laden limbic system. Linden argues that if an "intelligent designer" had assembled the brain, it would surely have done an elegant, impeccable job, but the more we learn about the brain, the more clearly we see that it is an ad hoc concatenation of structures designed for unrelated functions — a sort of Rube Goldberg contraption. Though the brain somehow manages to function rather elegantly, breakdowns manifested in emotional and other disturbances are all too frequent.
Linden (The accidental mind) speculates about the neural mechanisms that may underlie religious impulses. He regards religious ideation as reflecting beliefs — such as the concept of a virgin birth or the notion of a God who knows every thought of every human being — that violate our everyday perception of reality. He likens such conceptualizations to the confabulations that persons with split brains arrive at in order to make sense of the incompatible data encountered by the two separated hemispheres.

In his recent book The Soul in the Brain, British neurologist Michael Trimble looks to his area of expertise, epilepsy, to explore a possible relationship between the human brain and religion: religiosity, he notes, is often brought to the fore by seizures.3 Trimble points out that some of the greatest religious figures in history had what were probably complex partial seizures, which are known to be associated with religious ideation. For instance, during Saint Paul's conversion on the road to Damascus, he is said not only to have suffered 3 days of blindness but also to have fallen to the ground frequently and experienced ecstatic visions. Muhammad described falling episodes accompanied by visual and auditory hallucinations. Joseph Smith, who founded Mormonism, reported lapses of consciousness and speech arrest, noting that "When I came to . . . I found myself lying on my back looking up at heaven." Joan of Arc reported, "I heard this voice [of an angel] . . . accompanied also by a great light."3

Trimble recalls that in The Varieties of Religious Experience, the 19th-century psychologist William James also highlighted the trances, visions, and auditory hallucinations associated with religion, emphasizing the ineffable, altered state of consciousness of most religious mystics. Such mystical states, encountered in most religions, remarks Trimble, are extraordinarily similar to the mental states elicited by psychedelic drugs such as LSD and mescaline. Almost 50 years ago, the psychiatrist Walter Pahnke came to this conclusion on the basis of experiments in which the psychedelic drug psilocybin was administered to students at the Harvard Divinity School. More recently, Roland Griffiths and colleagues have replicated these studies in a more rigorous fashion and found that subjects receiving psilocybin reported long-lasting changes in a religious sense of self.4 Drugs whose mechanism of action is understood can be powerful tools for elucidating the molecular basis of mental states — we know much more about the neurotransmitters that mediate emotions, for instance, from studying the actions of antidepressant drugs than from direct manipulations of the brain — and psychedelic drugs are known to act as agonists of one subtype of serotonin receptors.4 Since serotonin neurons arise from a discrete set of raphe nuclei in the brain, it may be possible to narrow the search for the biologic cause of at least one type of religiosity to these few cells.

But given the variability of what we mean by "religion" and "poetry," attempts to localize such purported functions within the brain are always fraught with hazards. With his focus on epileptic causes of both religious and creative impulses, Trimble enumerates several candidate regions, most of them in the temporal lobe — an area that receives a substantial input from serotonin neurons — which is consistent with what we know of sites of action of psychedelic drugs. In this issue of the Journal, Sanai and colleagues (pages 18–27) report on a study in which they mapped sites involved in diverse modes of language use in patients with gliomas who were undergoing debulking of their tumors. They found a far wider dispersal than might have been expected, with parietal and temporal as well as frontal regions providing important contributions. However, any extrapolation from a mapping of brain areas that mediate language use to likely cerebral contributions to religious or creative dispositions would be highly speculative.

So where do all these brain explorations lead us? In seeking a general relationship between religious states, poetry, and music, Trimble ascribes all three to the right, nondominant side of the brain. He assumes that integration of the activity of the right-sided emotional brain with that of the left-sided analytic brain gives rise to the greatest intellectual achievements in the arts. I suspect that major advances in science, too, are the product of more than pure reason — in the finest scientists I have encountered, I have always detected a notable creative, artistic flair.5 Artistic, intuitive approaches are evident even in the most abstract intellectual achievements, such as Einstein's theories. Needless to say, a simple dichotomy of right and left brains is a gross oversimplification. Nonetheless, as imaging technology and associated cognitive testing become ever more sophisticated, we may be able to discriminate ways in which religious and creative sensibilities relate to one another and to brain areas that mediate emotions that are deranged in psychiatric illness. Whether any of these advances will provide the answer to the cerebral basis of religion, if one exists, is anybody's guess.


Source Information

Dr. Snyder is a professor of neuroscience at the Johns Hopkins University School of Medicine, Baltimore.

References

1. Collins FS. The language of God: a scientist presents evidence for belief. New York: Free Press, 2007.
2. Linden DJ. The accidental mind: how brain evolution has given us love, memory, dreams, and God. Cambridge, MA: Belknap Press, 2007.
3. Trimble MR. The soul in the brain: the cerebral basis of language, art, and belief. Baltimore: Johns Hopkins University Press, 2007.
4. Griffiths RR, Richards WA, McCann U, Jesse R. Psilocybin can occasion mystical-type experiences having substantial and sustained personal meaning and spiritual significance. Psychopharmacology (Berl) 2006;187:268-283. [CrossRef][Medline]
5. Snyder SH. The audacity principle in science. Proc Am Philos Soc 2005;149:141-158. [ISI]

Enquanto idiotas não-epilépticos, como o eminente Richard Dawkins, se debatem tentando viver dentro deste mundo sem a menor idéia do que seja ter alguma fé numa espécie de "fundamentalismo ateu", eu vou tocando minha vidinha de epiléptico!
No momento estou me distraindo com uma versão solo de "Chorinho para ele" de Hermeto Pascoal.
Quem seria este "Ele"???
Teria sido "Ele" quem ajudou Cleidinildo, tal como Jesus, a caminhar sobre as águas na foto abaixo?













Até a próxima!
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