outubro 28, 2008

O BOM GOLPE


Não demorou pra eu descobrir, bom na astúcia que sou, outro sim, cairia fácil sem nem notar sua treta. E realmente era golpe bom, diria eu: infalível. E com aquele seu jeito manso, o desgraçado enganaria a qualquer um, já chegou estampando um sorrisinho relaxado de quem sabe que vai levar a melhor. Deixei..., e ele acabou levando mesmo! Mas não foi de todo mal...



Veio com uma conversa desinibida dizendo ter acabado de chegar na cidade. Não era moço bem aparentado não, mas usava roupa boa, e se via logo que não era daqui pelo jeito de falar. Trazia uma bolsa de alça e disse estar viajando a trabalho. Não estiquei a conversa, achei logo que ia tentar me vender alguma coisa, já ia o despachando, eu que não suporto vendedor me enchendo, quando me interrompeu e pediu uma única coisa: que o emprestasse uma panela com água e fogo, queria cozinhar sua sopa. Enquanto pegava um embrulho de papel da sacola. E emendou a conversa na certa justificativa de que aqui não existiam hospedagens, muito menos restaurantes...



Eu não pude dizer não, como negar a um pedido desse?! Negar uma panela com água?! Como...? E eu não sei negar por negar..., apesar de ser ele um forasteiro cheio de conversa pegajosa. Fiquei atado, aqui nunca chega ninguém! Mesmo a contragosto tive de consentir. Abri o portão. E como sabia que minha mulher não ia dar nenhuma negativa também, mandei-o entrar. Ele entrou com o embrulho na mão, já ensaiando abrir uma de suas pontas. Daí é que descarregou a falar bonito..., e falava com uma ponta de riso aberta e cheio de palavras bem explicadas. Desconfiei que isso fazia parte de sua maledicência. A Mazé, logo de cara, ofereceu-lhe ouvido, e foi aí que ele se soltou!



Coloquei água numa panela e acendi o fogo. A mulher já se divertia frouxa com a prosa dele, ela que é toda dada pra gente de fora e adora uma conversaria emendada...! Como eu não participava, ele falava olhando para mim, não no meu olho, mas voltado pra minha direção, como se preocupado em me ganhar. Sabia que eu desconfiava dele, e gesticulava as mãos e os braços, todo trejeitado, parecendo até artista. E o que fez foi coisa bem ensaiada mesmo!



Antes da panela esquentar direito, ele desembrulhou aquilo que havia trazido, e, muito rápido, colocou nela. Não vi o que era. A Mazé muito menos, que havia dado de costas pra pegar mais água que havia solicitado. A partir desse momento assumiu o fogão, pediu que nos afastássemos, ele mesmo faria tudo. E convidou-nos para compartilharmos a sopa, disse e redisse que seria um enorme prazer nossa companhia, faria o suficiente para nós três.



E contou a estória de um sócio que outrora tivera - Chico malatirado, que sobreviveu a treze tiros de espingarda..., depois descobriram ser cria do coisa-ruim. E tinha mais saúde que qualquer um de nós. Só com um metro e meio de tamanho derrubava boi bravo na mão, e sem nem apagar o fumo da boca. Disse ter visto uma porção de vezes...



Pediu uma colher-de-pau e sal. E começou a mexer na panela. Eu sentei na mesa, enquanto a Mazé arrumava a toalha e os pratos, vi que estava animada e sorria fácil. Vi também que colocou pães na mesa. Ele continuou a mexer a sopa e me pediu o favor de abrir um dos bolsos da sua sacola e pegar uma vela. Mandou-me acender e colocar sobre a mesa. E, cheio de bicos, disse que ia ser uma boa noite. Troquei olhares com a Mazé e seu olhar me pediu que fizesse. Fiz.



Ele continuou contando suas estórias, emendava uma na outra que nem dava tempo da gente falar nada. A sopa já fervia quando ele perguntou se não teria umas folhas-de-louro e massa de macarrão. Depois pediu um pouco de óleo. E continuou a mexer. Não parava de tagarelar. Disse ter aprendido aquela receita com seu avô, que era caixeiro-viajante; depois contou umas estórias dele e de outros esquisitos parentes e agregados.



Olhei para a mesa e vi que a Mazé havia posto não os pratos do dia-a-dia, e sim aqueles guardados para ocasiões de festa, e que só usávamos uma ou duas vezes por ano (nesse ano não tínhamos usado ainda!). E ainda tinha posto na mesa a garrafa de vinho que seu irmão havia nos dado no natal. Achei estranho, ela que é sempre tão comedida, não concordei de pronto, mas o jeito como estava entusiasmada me desarmou de qualquer ação contrária.



O cheiro de sopa já ganhava a cozinha. Ele a mexia freneticamente. Pediu mais uns temperos, e, a cada dois ou três minutos, experimentava lanbendo as gotas que deixava pingar da colher na palma da mão. Fazia com certa estranheza, esticando a boca em bico e espremendo os olhos. Provava pouco a pouco, e a cada prova, acrescentava ora um, ora outro ingrediente que pedia a Mazé. Tenho que admitir que fazia bem feito, cheio de artimanhas, parecia afinar uma viola, nunca vi daquele jeito.



Mais adiante pediu calabresa e charque, que foram cortados em pequenos cubos e jogados no caldo. Ainda pediu farinha de cuscuz para engrossar o caldo. Em seguida retirou do bolso umas pequenas folhinhas, que também foram acrescentadas à mistura, mexeu em mais três voltas e bradou: "Acabou! Mais um minuto de fervura e estará pronta! Sentem-se que eu mesmo terei o prazer de servi-los"! Não deixou a gente se aproximar da panela.



A Mazé pediu que eu abrisse a garrafa e servisse o vinho. Ela me olhava com o olho macio..., não retruquei. O forasteiro estava seguro, acho até que passou a se sentir em casa, repetia a serventia daquela receita, que já vinha de muitas gerações passadas. Eu não acreditei nem um pouco nessa sua conversinha, continuava desconfiado dele, mas não quis delongar naquilo, queria mesmo era que acabasse e fosse embora.



Ele desligou o fogo e sentou-se junto a nós na mesa. Pediu um brinde e nos agradeceu a gentileza. Disse estar feliz e realmente se comportava como tal. Acho que estava mesmo..., os trouxas caindo em sua conversa...! Bebemos e comemos pão, enquanto a sopa "respirava", como ele referiu. A Mazé aproximou seu prato e sentou-se ao meu lado, enquanto ele, todo articulado, nos serviu; depois serviu a si. Não tirou a panela do fogão. Nisso ele não parava de contar seus causos. Falou de um pássaro-preto seu, já falecido de tuberculose, que solfejava as músicas do Pixinguinha. Isso mesmo..., não cantava não..., solfejava! E inventou mais umas outras mentiras depois...!



Admito que a sopa estava boa e repetimos os pratos. Ele esbanjou ainda mais sorrisos com os elogios da Mazé. Vi que ela estava contente, dificilmente recebemos visita e a casa sempre anda vazia depois que os meninos foram pra cidade. Eu até estava satisfeito, por ela, é claro! Mas, continuava incomodado: um forasteiro que não olhava no meu olho, dentro da minha cozinha, cheio de proserê...! Eu estava certo que tinha coisa diferente ali, só ainda não sabia o que era.



Lá pras tantas, depois que a garrafa secou, ele levantou-se, nos encheu novamente de graças e disse que precisava partir, afirmando compromissos de trabalho e saiu apressado. A Mazé ainda ensaiou oferecer-lhe repouso, mas eu sugeri mesmo que era hora dele ir. Aí já era demais! Então, ele foi até a panela e, de um jeito meio dissimulado, tirou de lá uma pedra. Uma pedra...!!! Lavou-a na torneira, enrolou naquele mesmo papel de embrulho, nem se preocupou em enxugar, e guardou-a na sacola. Até que ele tentou disfarçar, mas eu vi. Era oval, cinza e bem lisa! Eu a vi, perfeita entre suas mãos inquietas.


Enfim entendi, tínhamos tomado sopa de pedra!


Então, ele ainda sorrindo, agradeceu acenando com as mãos e se foi, bem ligeiro, sumindo no negrume da noite. Havia concluído seu golpe.


Nada falei. A Mazé muito menos, estava meio tonta de vinho e ainda suspirava contentamento com a mesa posta pra festa. Ajudei-a a recolher os pratos e copos usados, fechamos a casa e fomos dormir.


Conto de Alexandre Figueiredo


Comentário post:

As coisas de Alexandre ficam tão bacanas que dá vontade de transformar em cabeçalho!
Por falta de coragem de pendurar uma coisa em cima desta peça que acho que seja um presente a tantos quantos passarem por aqui, deixo na figura à esquerda o link torrent para o disco mais esperado destes últimos 8 anos: Rock'n'roll da melhor qualidade pela banda australiana mais famosa de todos os tempos.
Ir para o trabalho vai ficar menos tedioso nos próximos dias!




outubro 26, 2008

Retrovisor

Sempre que por cima dos ombros do tempo olharmos para trás, hemos de ver parados ante à linha que marca o início do agora, um culpado, um profeta e alguém cujas opiniões deveríamos ter levado em conta!
A trindade do devir.

Manellis



Abaixo, slideshow com fotos coloridas de Zucca numa Paris que, ocupada por nazistas, parece fazer o máximo para manter sua rotina pré-ocupação:

outubro 22, 2008

Parole, parole, parole!

O tempo é curto e o sono é forte.
O link, no entanto vale registro: http://www.ted.com
Dedicado a armazenar videos e palestras da intelectualidade mundial.
Steven Pinker, Daniel Dannet, Richard Dawkins et caterva!
Uma grande opção para quando houver tempo livre e disposição para aprender.
Se estiver com preguiça de digitar, clique na imagem.

outubro 20, 2008

Ossos do ofício - Ossos na oficina

Uma semana e tanta sem postar já estava me dando remorso!
Tudo isto aconteceu por um mau motivo: uma pequena, irritante e incapacitante mini luxação na articulação acromio-clavicular (aquela que liga a ponta externa da clavícula à omoplata).
Dores, contraturas e a suspeita de que tinha me "estragado"
Tentei melhoras de todos os jeitos e consegui um salto qualitativo significativo na minha recuperação após uma manipulação osteopática.


A responsável: Fernandinha Androukovith da Clínica Bios.
Conhecimento e competência prática para realizar passes de mágica.
A osteopatia é uma técnica que não se presta apenas para tratamento mas também para prevenção.
Abaixo, um pequeno texto, pela própria Fernanda, para os que quiserem saber por onde passa especialidade


OSTEOPATIA
A osteopatia é um método de tratamento manual e natural criado nos Estados Unidos no fim do século XIX por Andrew Taylor Still, que achava que o bom equilíbrio das estruturas (o osteon grego do aparelho locomotor) era crucial para evitar o aparecimento de disfunções e de doenças (pathos) - as doenças advindas da má organização estrutural do corpo. Ou seja, o corpo tem possibilidades de se reequilibrar, de autocurar-se. Cabe ao osteopata a tarefa de normalizar as estruturas e deixar trabalhar a Natureza.
A função da manipulação vertebral é favorecer as estruturas ósseas a voltarem a seus lugares originais, harmonizar as estruturas, deixando a natureza cumprir seu papel através de "ajustes" das vértebras, desbloqueando, dessa forma, o sistema nervoso. Estes ajustes são realizados manualmente, com o uso de muito tato, técnica e conhecimento da anatomia humana.
O tratamento é orientado por uma análise fina dos movimentos articulares, da motilidade facial e tissular em geral, e por uma série de testes específicos. Utiliza-se de manobras bem direcionadas capazes de normalizar um micromovimento articular nas situações em que se encontra bloqueado. O osteopata utiliza uma técnica específica para cada tecido (osso, ligamento, músculo, víscera) a partir das constatações feitas no exame preliminar. O tratamento dispõe de um grande número de técnicas, que vão desde as muito suaves, como as pompagens (levíssimas trações em pontos específicos do corpo), até as aparentemente bruscas, como os famosos “estalos” da coluna e de todas as articulações do corpo. Existem, também, técnicas osteopáticas para vísceras e para o crânio.
A Osteopatia trata as causas e não as conseqüências, portanto, considera o paciente na sua globalidade. O local da origem da dor geralmente não é o local a ser tratado, é necessário descobrir as cadeias lesionais, avaliar todo o corpo, e escolher no arsenal de técnicas aquelas que convêm ao tipo de lesão e ao paciente.
As dores vertebrais são o motivo mais freqüente de consulta, tais como torcicolos, cervicalgias, dorsalgias, lombalgias agudas e crônicas, desequilíbrio da pelve, síndrome do piriforme (falsa ciática), hérnias discais. Também é indicada nas dores do membro superior, tais como nevralgias, periartrites, parestesias, cotovelo de tenista, lesões por esforços repetitivos, síndrome de compressão do desfiladeiro escapulotorácico, e em algumas dores do membro inferior, como ciáticas, tendinites, entorses, etc e tratamento da articulação temporo-mandibular (ATM). Vale considerar que as indicações não se restringem à lista, já que a Osteopatia é, em si, uma maneira de lidar com a patologia, especialmente com ênfase no aspecto preventivo. Entre as contra- indicações estão os reumatismos inflamatórios, câncer ósseo, fraturas, certas vertigens por insuficiência vértebro- basilar, e, em caso de osteoporose avançada, somente técnicas mais específicas podem ser indicadas.
Desde o nascimento até o fim da vida, todo ser humano pode beneficiar-se de um tratamento osteopático.

Dra. Fernanda Androukovith, Crefito7/29917-F, fisioterapeuta formada em Osteopatia pela Academie de Therapie Manuelle et Sportive (ATMS) – Bélgica

outubro 12, 2008

Sedare dolorum opus divinum est

Nesta quinta-feira, dia 16 de outubro comemoraremos o Dia do Anestesiologista.
Da etimologia do nome, temos:
A(n) = não/sem
(e)Stesi(o)s = sensação/consciência (dor inclusive)
logos/logista = estudioso/discursante

O mais místico dentre os ramos da medicina.
Homenageado pelo nome deste blog: Morpheus
O deus grego do sono e da hipnose e radical etimológico de uma das mais importantes drogas para o tratamento da dor: a morfina.
O único médico, que trata de vivos (lembremo-nos do legista e do patologista), que sai de casa todo dia com a proposta de alcançar 100% de eficiência.
Tamanha pretensão demanda profundo conhecimento e margem de segurança, tudo o que deve representar o bom profissional de anestesiologia.
Como um alquimista moderno (sem trocadilhos com Alckmim, que é anestesiologista!) usamos drogas potentes de rápida ação e temos os seus antídotos à mão para usarmos sempre que preciso.
O anestesiologista é um médico que deve primar por iniciar o seu trabalho com o maior domínio possível das varíáveis envolvidas = Paciente, doenças, equipamento, drogas anestésicas e outras bem como a magnitude da agressão cirúrgica.
Quando prejudicado neste início, sua margem de segurança cai com aumento de risco para o elo mais frágil da cadeia terapêutica: o paciente
Por isso, quando precisar de cirurgia, muito antes de sair por aí dizendo que só teme a anestesia, procure conhecer o hospital onde vai ser operado, os resultados do cirurgião escolhido e a sua reputação entre os seus pares; faça o mesmo com o anestesiologista: procure onde ele fez a sua formação, vá conhecê-lo num primeiro contato pré-anestésico use a sua intuição e cheque as informações dadas.
Bons profissionais sempre indicam bons profissionais e em anestesiologia não é diferente.
Nunca se iluda com promessas de risco zero numa intervenção cirúrgica! A ciência e a tecnologia progrediram para minimizarem ao máximo (trocadilho lindo!) a possibilidade de um evento adverso mas não chegamos e nunca chegaremos ao nível "zero".
Como diz o título, Sedar a dor é obra divina!
Por tratar-se de exercício terreno de ofício divino, de fato, tenho a fortíssima impressão de que Deus parece estar sempre ao lado dos bons profissionais; nos casos simples e nos complicados principalmente naqueles em que chegamos ao limite do emprego eficaz do conhecimento.
Ao lado dos maus profissionais, bem...você já sabe quem está!


Histrionismos filosóficos/religiosos à parte...
Tire suas dúvidas com seu anestesiologista e presenteie com um forte abraço o que estiver mais próximo de você neste dia 16 de outubro!
E não se esqueça:
O bom cirurgião merece um bom anestesiologista, o mau, precisa!
A você cabe fazer a boa escolha.

outubro 08, 2008

BBB, Bom, Bacana e Barato!

Vamos chegando ao fim de mais um período eleitoral.
Salvador colocou a herança carlista na prateleira e deixou de fora do segundo turno seus dois herdeiros mais diretos: um ex-prefeito e o Neto do finado senador.
Deboches à parte, os eleitores se estruturam cada vez mais em "engajados", preocupados e indiferentes.

A cidade segue agora uma rotina de re-estruturação de forças políticas em cima de um espólio eleitoral polimorfo e mais difícil de conduzir do "jeito" antigo, agora vigente nas "profundas"!
Espero que seu candidato tenha passado para o 2º turno, pois eu, que não tinha preferência, continuo sem ter!

Enfim...

À parte iniciativas isoladas, Salvador continua sendo uma capital com vida cultural eminentemente autóctone. Gera para si e consome numa endogamia de idéias que não penso ser das mais saudáveis
O que é incrível é que às vezes exporta!
Bom... mas aqui e ali aparecem algumas coisas.

O confrade Ricardo Castro - do Fórum Humanidades, mantido pela Braskem - me enviou hoje esta chamada cultural:

Hoje,
Quarta-feira
Série "Mozart nas Igrejas"

Quando: 8 de outubro às 20h

Onde: Igreja da Conceição da Praia
Ingresso: Gratuito
Regente: Ricardo Castro

Solistas: Giulietta Koch e Ricardo Castro (piano)

Participação especial: Eldevina Materula (oboé)
Obras:

Sonata para piano a 4 mãos KV 381 em ré maior
Solistas: Giulietta Koch e Ricardo Castro

Concerto para piano e orquestra n° 18, KV 456 em si bemol maior
Solista: Giulietta Koch
Concerto para piano e orquestra n° 9, KV 271, em mi bemol maior
Solista: Ricardo Castro

Situada no sopé da montanha que liga a cidade Alta à Baixa, a Igreja da Conceição da Praia recebe a série "Mozart nas Igrejas", da temporada artística da Orquestra Sinfônica da Bahia, na próxima quarta (8), às 20h, com um repertório atraente que mostra a estreita afinidade do compositor com o piano. O concerto terá regência de Ricardo Castro, que também atuará como solista, e a participação da jovem pianista Giulietta Koch, que se apresenta pela primeira vez no Brasil, com o apoio do Rahn Kultur Fond de Zurique, na Suíça.

Gênio precoce, Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) revelou, desde pequeno, extraordinária vocação musical. Escreveu com a mesma desenvoltura gêneros instrumentais e vocais, criando uma obra que só não foi mais extensa devido à sua morte prematura, aos 35 anos de idade. O compositor ganhou as telas do cinema no premiado filme Amadeus, dirigido por Milos Forman, um dos maiores sucessos da década de 1984. Interessante observar que o longa-metragem recebeu o título de Amadeus pelo seu significado, "Amado de Deus". A história é contada por Antonio Salieri (1750-1825), antigo músico da corte real, que tinha a plena convicção de que somente uma proteção divina podia levar Mozart a compor suas músicas. O filme mostra a admiração e inveja de Salieri por Mozart criando um paradoxal sentimento.
No concerto da próxima quarta, o público baiano terá oportunidade de apreciar três composições de Mozart: a Sonata para piano a 4 mãos KV 381 em ré maior e os concertos n° 18, KV 456 em si bemol maior e o n° 9, KV 271, em mi bemol maior.

Solistas
Giuliettta Koch, atualmente com 19 anos, iniciou sua carreira profissional aos 14, como solista da Rundfunk-Sinfonie Orchestra, sob a regência de Michael Sanderling, no Konzerthaus de Berlim em 2003. Apesar da pouca idade, tem chamado a atenção do público e crítica por sua técnica e expressividade. Atualmente é aluna da Universidade de Artes, em Berlim, na classe de Klaus Hellwig.
Em 2008, Giulietta Koch recebeu por unanimidade o primeiro lugar no Concurso Rahn de Zurique, o mesmo que premiou Ricardo Castro, em 1985.

Ricardo é gestor artístico da Orquestra Sinfônica da Bahia e Diretor fundador do Neojibá (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia).
NEOJIBÁ - Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia
Lgo do Campo Grande, s/n - Salvador - BA
TCA - Teatro Castro Alves
+55 71 3117-4844
+55 71 9172-0476

Um dos mais destacados pianistas do País, com reconhecida carreira internacional. Em 1993 , recebeu o primeiro lugar no prestigioso "Leeds International Piano Competition" na Inglaterra , marcando a história da competição por ter sido o primeiro vencedor latino-americano desde sua fundação em 1963 . As atividades pedagógicas e sociais também têm sido uma constante na sua carreira. Professor da "Haute École de Musique" de Lausanne, Suíça, apóia, na Bahia, o Projeto Axé, em Salvador e o programa Conquista Criança, em Vitória da Conquista.

E para completar, esta outra notícia via outra confrade, Bisa Almeida:

Um mundo re-encantado?
Michel Maffesoli

O renomado sociólogo francês Michel Maffesoli, diretor do Centro de Estudos sobre o Atual e o Cotidiano (CEAQ), na Universidade de Paris-Sorbonne, autor de dezenas de livros, entre os quais O tempo das tribos, O conhecimento comum e A conquista do presente, fará palestra no Salão Nobre da Reitoria da UFBA, com o título "Um mundo re-encantado?", no próximo dia 13 de outubro, segunda-feira, das 9h às 11h.
A iniciativa é da Escola de Enfermagem da UFBA e de seu Programa de Pós-Graduação, com apoio do Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade - GIPE-CIT.
A entrada é franca, com inscrições no local a partir das 8h30.

Pare de se queixar do axé e suas coreografias e vá conferir!

outubro 04, 2008

Certezas dominicais

Mãe, uma certeza
Pai, uma premissa
Depois da noite, o dia
Se eu sou uma constatação
O tempo é meu vigia

Mente + Tempo = Pensamento
Corpo + Tempo = Vida
Pensamento + Vida = Vida Vivida
Mente - Tempo = Vida encerrada,
Morte morrida

Pequenas certezas existem
Apenas para que a incerteza
Não prevaleça como certa
Não se imponha com meta
Não nos deixe tristes


Neste momento absoluto,
Sei de mim e de você
Sei de nós em meio ao mundo
E de tantos outros absurdos...
Que mais poderia querer?

outubro 01, 2008

Matéria e Pensamento

Os materialistas estão certos,
É tudo matéria!
Ou melhor, partículas!
Mas aí começa um paradoxo, há partículas sem massa!
Uma delas, o Bóson de Higgs - ainda não identificado, mas previsto - é o grande convidado da festa do LHC que sofreu uma panezinha mas já volta em 2009.
Tudo no universo é partículas; as com massa e as sem massa. O bóson de Higgs guardaria consigo a magia de gerar o campo que permite, digamos, a coisificação da matéria; a expressão material, palpável de tudo quanto existe. Alguns chamam-no de a partícula de Deus pelo seu poder de dizer faça-se isto, aquilo ou aquilo outro. Eu gosto de entendê-lo como o "olho" de Deus; ao se portar como um observador que confere realidade à coisa observada.
As conseqüencias de sua identificação ( ou mesmo da sua negação) serão importantíssimas para a nossa compreensão do universo e inclusive de nós mesmos, esta sopa na qual uma mente vive de inquilina num corpo nem sempre amigável e que dá-lhe prazer e sofrimento seguindo um protocolo que ainda não foi bem identificado.
Por silogismo, a partir do que se sabe hoje, somos nós, também uma sopa de partículas!
Especialmente arranjada, mas uma sopa de partículas.
Partículas com massa e partículas sem massa bem entendido!
A quem pertencceria a primazia sobre a composição da nossa mente?
Ao arcabouço particular material ou imaterial?
Até que ponto dependeria um do outro?
Até onde sei, estas questões nunca foram colocadas e creio mesmo que muita gente possa achá-las um tanto quanto bizarras; mas acho que são pertinentes.
Será que uma matriz de bósons de Higgs - com seu poder de conferir materialidade aos seu arredores - é a nossa verdadeira teia existencial?
Enquanto divago sobre estas abobrinhas quântico-filosóficas vou me distraindo com o mais novo livro de Steven Pinker:
Do que é feito pensamento
Companhia das Letras
R$ 56,00
Um livrão de quinhentas e tantas páginas de um dos mais interessantes popstars da ciência cognitiva.
Neste livro, Pinker discorre sobre como o uso das palavras pode explicar a natureza humana; de que maneira criamos palavras, tentamos convencer os outros, flertamos, usamos palavrões, contamos piadas, escolhemos os nomes de nossos filhos, enfrentamos disputas judiciais?
A linguagem está em toda a parte como um verdadeiro componente do real ainda que desprovida de massa!
Como um bóson lingüiístico.
Usando um estilo informal e rigoroso ao mesmo tempo, com exemplos tirados do dia-a-dia e de citações de filósofos, escritores e astros do mundo pop, Pinker mostra através de uma dissecação elegante e bem-humorada de verbos, substantivos, pronomes, metáforas, discursos indiretos e neologismos, de que matéria é feito o nosso pensamento.
Um dos assuntos prediletos de Morpheus
Apesar de não ser desses leitores fundistas que devoram 500 págs numa sentada, fiquei sem conseguir largar o livro pelas primeiras 150 págs.
Recomendabilíssimo!

P.S. Se você entende um pouco de física, vá brincar no simulador online do LHC
P.P.S Abaixo, um brilhante texto de JOÃO PEREIRA COUTINHO, colunista da Folha (se reclamarem eu retiro!) no qual ele diz tudo que o Morpheus também pensa sobre a reforma ortográfica que vem por aí criada por gente que não entende nada sobre o que é uma língua!
Gente que merece ler Steven Pinker
Enquanto esta neo-imbecilidade ainda não toma forma, vou curtindo meus orgasmos lingüisticos toda vez que emprego uma palvra com trema.

Acordo ignora identidades culturais
Acordo ortográfico? Não, obrigado. Sou contra. Visceralmente contra. Filosoficamente contra. Linguisticamente contra.

Começo por ser contra com a força das minhas entranhas: sou incapaz de aceitar que uma dúzia de sábios se considere dono de uma língua falada por milhões. Ninguém é dono da língua. Ninguém a pode transformar por capricho. Por capricho, vírgula: por mentalidade concentracionária, em busca de uma unidade que, para além de impossível, seria sinistra.
A língua é produto de uma história; e não foi apenas Portugal e o Brasil que tiveram a sua história, apresentando variações fonéticas, lexicais ou sintácticas; a África, Macau, Timor e Goa, que os sábios do acordo ignoram nas suas maquinações racionalistas, também têm direito a usar e a abusar da língua. Quem disse que o português do Brasil é superior, ou inferior, ao português falado e escrito em Luanda, Maputo ou Dili?
Meu princípio filosófico: a pluralidade é um valor que deve ser estudado e respeitado. Não me incomoda que os brasileiros escrevam "ator" e "ceticismo" sem usarem o "c" ou o "p" dos lusos. Quando leio tais palavras, sei a origem delas; sinto o sabor tropical em que foram forjadas.
Mas exijo respeito. Exijo que respeitem o "actor" português e o "cepticismo" luso com o "c" e o "p" que o Brasil elimina.
Os sábios discordam. E dizem que a ortografia é simples transcrição fonética, ou de "pronúncia". Se ninguém lê "actor", com acentuação no "c", por que motivo mantê-lo? Sim, por que motivo manter esse "c" arcaico que só atrapalha a unidade da língua?
Lamento. Eu gosto do "c" do "actor", do "p" de "cepticismo". Eles representam um património, uma história. Uma pegada etimológica que faz parte de uma identidade cultural. Mas o "c" e o "p" não são apenas antiguidades de uma ortografia; como relembrou recentemente o poeta português Vasco Graça Moura, esses "c" e "p" abrem a vogal que os antecede e fornecem informação para pronunciar correctamente as palavras. Acordo ortográfico? O gesto é prepotente e apedeuta. Aceitar essa aberração filosófica e linguística, impensável para ingleses (ou franceses), significa apenas que a irmandade entre Portugal e o Brasil continua a ser a irmandade do atraso.
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